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Futebol na prisão e fãs pelo mundo: a vida de Rui Pinto, o hacker da bola

Português de 31 anos é o criador do Football Leaks, site cujos vazamentos geraram punição da Uefa ao Manchester City. Preso há um ano, ele alega inocência

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 21 fev 2020, 10h26 - Publicado em 21 fev 2020, 10h00

Um rapaz imberbe e de cabelos negros e arrepiados com gel é a mente por trás da chocante punição ao Manchester City, multado em 30 milhões de euros e banido pela Uefa das competições europeias nas próximas duas temporadas por descumprimento às normas do chamado fair play financeiro. Rui Pinto, um português de apenas 31 anos, é o fundador do Football Leaks, site inspirado no WikiLeaks que se notabilizou por vazar informações confidenciais do mundo da bola. Pinto está preso preventivamente desde 22 de março do ano passado, em Lisboa, acusado de 90 crimes como acesso ilegítimo, violação de correspondência, sabotagem informática e tentativa de extorsão. Seu discurso de inocência, no entanto, ganhou eco na última semana com o castigo ao City.

Assim como Edward Snowden e Julian Assange, as celebridades mundiais da invasão virtual, Rui Pinto divide opiniões sobre os limites entre o interesse público de suas denúncias e a forma provavelmente ilegal como as obteve. Trata-se de um whistleblower, ou seja, um denunciante espontâneo que deve ser protegido pelo Estado ou um mero pirata criminoso? No último fim de semana, centenas de pessoas foram à porta do Tribunal da Relação do Porto clamar por sua libertação, enquanto a hashtag #FreePinto se espalhou pelas redes sociais. Pinto está preso, mas vem acumulando admiradores pelo mundo.

  • O Football Leaks foi criado em 2015 por Rui Pinto, que então utilizava o pseudônimo “John”,  na esteira dos escândalos que derrubaram os cartolas da Fifa. Na home de um site mal-acabado, lia-se o objetivo do projeto: “expor fundos, comissões, negociatas, e tudo que serve para enriquecer certos parasitas que se aproveitam do futebol.” Ao longo de quatro anos, o hacker lusitano teve acesso a cerca de 70 milhões de documentos, que deram origem a mais de 1.000 matérias produzidas pelo consórcio de veículos de comunicação European Investigative Collaborations (EIC), liderado pela revista alemã Spiegel. Foram e-mails vazados por Rui Pinto que mostraram como o Manchester City tentou driblar o fair play financeiro, mecanismo criado pela Uefa para manter a “saúde financeira” do futebol.

    Em suma, clubes não podem gastar mais do que arrecadam, nem depender majoritariamente do aporte de seus proprietários. Esta segunda exigência incriminou o City. Descobriu-se que o proprietário da equipe, Sheikh Mansour bin Zayed Al Nahyan, da família que governa os Emirados Árabes Unidos, financiou a maior parte do exorbitante patrocínio do clube. Sua empresa, a Abu Dhabi United Group, pagou 71,5 dos 81,1 milhões de euros que constavam como aporte da companhia aérea Emirates. O atual bicampeão inglês anunciou que vai recorrer à Corte Arbitral do Esporte (CAS) para tentar reverter o banimento e, assim, evitar um prejuízo incalculável, já que provavelmente suas principais estrelas, como o técnico espanhol Pep Guardiola e o meia belga Kevin de Bruyne, não permaneceriam em um time que não disputa a badalada Champions League. Desde a entrada da fortuna árabe em 2008, o City, até então visto como um clube mediano da Inglaterra, conquistou quatro de suas seis ligas inglesas e gastou mais de 2 bilhões de euros em contratações, segundo dados do Transfermarkt.

    Portista e fã de seu “alvo” Cristiano Ronaldo

    Rui Pinto assistiu à repercussão de sua denúncia pela TV, sozinho na cela lisboeta onde vive há quase um ano. Em recente entrevista ao Spiegel, ele contou que mantém amizade com os guardas e às vezes joga bola sozinho num pequeno jardim anexo. O esporte sempre foi uma paixão do rapaz nascido na cidade litorânea de Vila Nova de Gaia, fã de Cristiano Ronaldo – quem, ironicamente, se tornaria um dos principais alvos de seus vazamentos – e torcedor do FC Porto. Depois de abandonar o curso de História na Universidade do Porto, ele viajou para um intercâmbio estudantil em Budapeste, onde fixou residência e desenvolveu a condição de hacker autodidata.

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    Na capital húngara, manteve o Football Leaks no ar por quatro anos até ser detido no início de 2019 quando voltava do supermercado com o pai e a madrasta. Ao contrário de Edward Snowden, analista de sistemas americano que trabalhou na Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos e se tornou célebre ao divulgar documentos ultrassecretos sobre a vigilância a cidadãos comuns, e que hoje vive em asilo político na Rússia, Pinto, o ‘Snowden da bola’, jamais conseguiu qualquer tipo de apoio diplomático.

    “Não me considero um hacker, mas um cidadão que agiu em nome do interesse público. A minha única intenção era revelar práticas ilícitas que afetam o mundo do futebol”, afirmou Pinto, já preso, à Spiegel. Um de seus advogados é o francês William Bourdon, que também defendeu Snowden e Julian Assange e garante que o português deveria estar solto. “Acreditamos que suas motivações são tão puras quanto as de Snowden. Ele não tem interesse algum por dinheiro,” afirmou o advogado, em entrevista coletiva. Pinto tem o respaldo de diversos grupos jornalísticos e organizações de apoio a denunciantes e sempre se mostrou disposto a colaborar com a Justiça dos países envolvidos, mas não convenceu os juízes portugueses até o momento.

    A lei local prevê proteção apenas a delatores que tenham pertencido à organização contra a qual fizeram denúncias, o que não é o caso de Pinto. “A soma de dois males nunca pode produzir um bem”, considerou a juíza de instrução criminal Cláudia Pina, que, no entanto, baixou de 147 para 90 os crimes pelos quais Pinto é acusado. Mais até do que questões ético/cibernéticas, pesa contra Pinto alguns fatos “mal explicados”. Ele é acusado de ter tentado extorquir o fundo de investimentos Doyen Investments Sports, pedindo mais de 500.000 euros para não publicar suas irregularidades. O hacker considera a atitude uma “ingenuidade” de sua parte, mas jura que jamais aceitaria a quantia e que fez a “oferta” apenas para ver até onde a empresa iria para manter seus segredos. Também é suspeito de ter desviado 300.000 euros de contas do Caledonian Bank, sediado nas ilhas Caimã. Alegou ter devolvido a quantia e que estava apenas testando o uso de paraísos fiscais.

    Torcedores do Borussia Dortmund estenderam faixas de apoio a Rui Pinto
    “Lute por transparência”: torcedores do Borussia Dortmund estenderam faixa de apoio a Rui Pinto Catherine Ivill/Getty Images

    Os alvos do hacker – Ainda que por linhas tortas, não há como negar: Rui Pinto abalou estruturas corruptas do futebol. Grandes estrelas como, Lionel Messi, Cristiano Ronaldo e o técnico José Mourinho tiveram seus problemas com o Fisco espanhol e outras questões íntimas escancaradas. Antes do City, clubes como o poderoso Chelsea e o pequeno Twente, da Holanda, foram punidos severamente pela Fifa e pela Uefa, respectivamente. O Paris Saint-Germain, que é gerido pelo governo do Catar, foi acusado de irregularidade semelhante à do City (maquiar contas com dinheiro dos proprietários),  mas escapou por pouco. Documentos do Football Leaks mostraram que até Gianni Infantino, então cartola da Uefa e atual presidente da Fifa, e o então presidente francês Nicolas Sarkosy, deram uma mãozinha nos bastidores ao PSG, que voltou a ser investigado depois de manobrar para contratar Neymar e Kylian Mbappé. A Uefa tentou reabrir o processo, mas o caso foi encerrado após o PSG ir ao CAS alegando “erro de procedimento”. O banimento ao City, no entanto, aperta o cerco ao “novo rico” parisiense.

    O Football Leaks também divulgou dados que não são ilegais – imorais, talvez – como o salário recorde de Messi com o Barcelona (100 milhões de euros por temporada). Um de seus primeiros alvos, aliás, é bem conhecido dos brasileiros. Em 2015, o Football Leaks divulgou o vencimento de 5 milhões de euros, mais bônus por premiação, de Jorge Jesus, hoje técnico do Flamengo. Na época, o “Mister” havia acabado de trocar o Benfica pelo Sporting. Em dezembro do ano passado, Jesus e outras 41 pessoas expostas optaram por não prestar queixa com contra Rui Pinto. Houve até um inusitado caso de vazamento “do bem”: o volante francês N’Golo Kanté recusou a sugestão do Chelsea de receber seus vencimentos de direito de imagem por meio de uma offshore sediada nas Ilhas Jersey – o que representaria uma “economia” de 1 milhão de euros em dedução de impostos – e pediu para fazer tudo dentro da lei britânica.

    As denúncias de Pinto também extrapolaram o noticiário esportivo. Por acaso, enquanto investigava falcatruas no futebol africano, encontrou documentos que originaram o chamado Luanda Leaks, que expôs os negócios obscuros de Isabel do Santos, filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos e mulher mais rica do continente. O julgamento de Rui Pinto ainda não tem data marcada e, segundo seu advogado, pode contar com a participação de Edward Snowden, que topou depor a favor do português, direto da Rússia, via videoconferência. Até lá, o debate segue: Pinto é herói ou vilão?

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