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‘Fui totalmente surpreendida’, diz treinadora demitida do Palmeiras

Ana Lúcia Gonçalves foi desligada depois de bons resultados e disse não entender motivos do clube, único grande de SP a manter time feminino "terceirizado"

O Palmeiras anunciou nesta terça-feira, 23, a demissão de Ana Lúcia Gonçalves, treinadora da equipe feminina de futebol que no último domingo 21 garantiu a classificação à primeira divisão do Campeonato Brasileiro e avançou à segunda fase do Estadual. O desligamento depois de cinco meses de bons resultados pegou a própria experiente técnica de surpresa. Em contato com VEJA, Ana Lúcia disse estar “tentando entender” o ocorrido e negou qualquer ligação com o fato de o cargo de treinador da CBF estar vago, um dia depois da demissão de Vadão.

Em nota oficial, o Palmeiras, que mantém um time de futebol feminino “terceirizado”, em parceria com a prefeitura de Vinhedo (SP), citou uma “readequação na filosofia de trabalho do departamento” para explicar a saída de Ana Lúcia e também da supervisora Renata Pelegatti. Para Ana Lúcia, porém, o gestor do futebol feminino, Alberto Simão, deu outra justificativa. “Ele apenas alegou ‘incompatibilidade’. A resposta que me foi dada foi essa e também estou tentando entender. Fui muito surpreendida com essa demissão.”

A treinadora, que passou por Audax, Guarani e Ponte Preta antes de liderar o projeto do Palmeiras em 2019, negou problemas pessoais com a diretoria. “Não houve desentendimento nenhum, não tenho nada para falar do Palmeiras. Houve discussões normais com o coordenador, questões de trabalho, porque ele não conhecia a realidade do futebol feminino, mas não imaginava que chegaria a este ponto.”

Ela disse ter ligado para Cícero Souza, gerente de futebol da equipe masculina, que está em Mendoza acompanhando o time no jogo desta noite contra o Godoy Cruz, pela Libertadores. “O Cícero, que foi quem me contratou, disse que quando voltar da Argentina vai me receber para tentarmos entender o que houve. As jogadoras estão abaladíssimas. Me despedi delas hoje à tarde no treino e elas não aceitaram e não entenderam de forma alguma.”

Ana Lúcia garante, no entanto, que sua demissão não tem relação com a saída de Vadão da CBF. “Não, acabou coincidindo, mas não recebi convite nenhum, ninguém da CBF falou comigo. Foi uma decisão do Palmeiras de me demitir, alegando “incompatibilidade” e nada mais. Não houve mais conversa.”

Time ‘terceirizado’

O Palmeiras foi o último dos quatro grandes de São Paulo a investir no futebol feminino – o Corinthians é o atual campeão brasileiro, o Santos é a maior referência da modalidade e o São Paulo, que também montou time este ano, tem a atacante Cristiane como sua principal estrela. A união com o time que já existia em Vinhedo, sob o comando de Ana Lúcia, atendeu a uma obrigação: a partir de 2019, todos os 20 participantes da Série A do Brasileiro masculino foram obrigados a manter um time de futebol feminino – adulto e de base. 

Por isso, o Palmeiras firmou parceria com Vinhedo e se comprometeu a bancar salários e outras necessidades estruturais do time, além de fornecer uniforme, com recursos obtidos via lei de incentivo ao esporte. Mas apesar de ser o clube com maior poderio financeiro do país, se negou a ceder suas instalações ao clube, que treina e manda seus jogos em Vinhedo, a 75 km da capital. O time é único invicto da Série A/2 do Brasileirão e se garantiu nas semifinais e, consequentemente, na Série A ao eliminar a Chapecoense.

Ana Lúcia disse que nunca esteve com Maurício Galiotte, presidente do clube, nem com Leila Pereira, dona da Crefisa, patrocinadora do clube, mas evitou criticar o clube. “O Palmeiras vem desenvolvendo um trabalho bom, nos dá uma estrutura muito legal, as meninas são bem assistida em todos os aspectos. Tudo que foi conversado foi cumprido, não tenho o que falar neste sentido.”