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Família da roça e meia na base: conheça Diego Carlos, zagueiro da seleção

Convocado pela primeira vez, o jogador do Sevilla virou defensor a pedido de Pita e pensava em parar para ajudar a pagar as contas em casa

Por Klaus Richmond Atualizado em 4 nov 2020, 18h40 - Publicado em 4 nov 2020, 12h42

“Você vai sair de lá para vir comer carne moída aqui? Pode ir embora, viu”. A reação espontânea de Alex Mazza, então técnico do sub-17 do América-SP, há pouco mais de uma década, aconteceu assim que viu o zagueiro Diego Carlos sentado à porta do estádio Benedito Teixeira, em São José do Rio Preto, semanas após chegar do Desportivo Brasil. Camisa 10 na base do clube, ele não queria recomeçar como zagueiro e pensava em largar o futebol para trabalhar e ajudar a família.

Convocado por Tite após os cortes de Éder Militão e Rodrigo Caio por lesão, o zagueiro de 27 anos que hoje brilha no Sevilla – responsável pela jogada no gol do título do clube espanhol na última final da Liga Europa, contra a Inter de Milão – passou por dificuldades até chegar à seleção brasileira.

“Ele era um menino do interior, tinha saudades e sempre muita preocupação em ajudar a família. Estava com o preparador físico do clube e demos essa bronca nele. Os pais eram pessoas simples, cortadores de cana, muito trabalhadores. Queria largar tudo para ir ajudá-los”, conta Mazza a PLACAR. “E ele não queria jogar de zagueiro de jeito nenhum”, acrescenta.

“Quando foi aprovado no América-SP, com 16 anos, ele não pôde jogar o Paulista, pois o prazo para inscrições havia encerrado. Ele morava no alojamento, mas muitas vezes comentava em parar para ir ajudar a família, muito sofrida. Pusemos na cabeça dele que não poderia desistir, que o futebol era a melhor forma de ajudá-los”, conta Dario Papa, então supervisor da base do clube e que atualmente trabalha na empresa que cuida da carreira do jogador.

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Que momento que sensação maravilhosa, obrigado meu Deus por me proporcionar algo tão maravilhoso assim na minha vida. 🙌 🇧🇷💛 @cbf_futebol

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Natural de Barra Bonita, no interior paulista, Diego viveu infância humilde em Dois Córregos (a 286km de São Paulo). Antes do futebol, ajudava os pais com o trabalho na roça, vendia picolés na cidade e também trabalhava em uma fábrica, embalando e pintando móveis. Só jogava futebol nas ruas, descalço.

Passou a jogar em um time local, após realizar um teste com uma chuteira emprestada, maior do que o número que usava. Chamou atenção do América-SP e viu tudo mudar quando Pita – então coordenador da base do Desportivo Brasil, clube de Porto Feliz que pertencia à Traffic – acompanhava um treinamento. Impressionado com a força física do jogador, pediu ao treinador para que testasse o então meio-campista como zagueiro.

“Vi um meia muito forte, mas sem muita mobilidade. Imaginei que poderia ser um zagueiro de alto nível, pois tinha excelente técnica, vinha entre os zagueiros para organizar todo o jogo. Ele não queria, mas por insistência dos treinadores aceitou. Não cabia em uma posição, mas entrava perfeitamente em outra. Levamos ele na hora como zagueiro”, conta o ex-jogador, atualmente coordenador de captação do São Paulo. “Ele jogava de cabeça erguida, tinha ótima saída e batia o tiro de meta quase de uma área a outra”, relata Alex Mazza.

No Desportivo, ganhou espaço como zagueiro e visibilidade que chamou atenção do São Paulo. Jogou uma Copa São Paulo pelo clube e subiu aos profissionais em maio de 2013, com Ney Franco, ao lado do também zagueiro Lucão, do volante Allan e do meia-atacante Lucas Evangelista.

Jamais foi utilizado pelo clube. Era a sétima opção entre os zagueiros, e preferiu sair a renovar contrato. “A passada do Diego era muito boa, subiu rapidamente ao profissional. Tinha um biotipo acima da média, mas a concorrência era grande na época”, lembra o técnico Marcos Vizolli, que treinava o sub-20, hoje auxiliar fixo do clube paulista.

Diego passou por Paulista e Madureira, sem sucesso, e foi para Portugal. Jogou por Estoril e Porto B até a chegada ao Nantes, onde viveu a sonhada guinada na carreira. Na passagem, ficou marcado por um episódio curioso em que se chocou de forma involuntária com o árbitro Tony Chapron que, no chão, tentou acertar um chute no brasileiro. Em seguida, o expulsou de campo. O episódio rendeu na suspensão do juiz pela direção de arbitragem da Ligue 1.

No Sevilla, o jogador hoje é nome mais cobiçado para uma transferência. Com multa rescisória estipulada em 75 milhões de euros (501 milhões de reais pela cotação atual), pode se tornar em breve o terceiro zagueiro mais caro do mundo, atrás somente de Matthijs de Ligt, contratado pela Juventus em 2019 por 85,5 milhões de euros, e Virgil Van Dijk, que chegou ao Liverpool em 2018 por 84,7 milhões de euros.

Agora, consolidado, Diego será o 16º zagueiro diferente testado por Tite desde o início de seu trabalho, em junho de 2016. Ele já era observado pela comissão do treinador e tentará provar que pode assumir de vez uma vaga na seleção.

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