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Antes de Neymar, o sucesso de Falcão e Zico em times medianos

Os dois ex-jogadores falam de suas experiências na Roma e na Udinese. Ambos fizeram sucesso na década de 80

Falcão, o rei de Roma

Em 1980, foi encerrado o bloqueio de 14 anos do futebol italiano para contratar jogadores estrangeiros. Falcão foi o primeiro craque de uma leva daquela década que desembarcou no país. Ele confessou que a Itália era o sonho de consumo de qualquer brasileiro. Apesar do interesse do Milan, fechou com a Roma, um time de expressão mediana.

Chegou como a esperança do torcedor da Roma em dias melhores. Houve muita festa no aeroporto. A ambição do jogador, entretanto, contrastava com a realidade da equipe na época. Na coletiva de apresentação, disse que gostaria de ser campeão e ouviu algumas risadas dos repórteres, como se isso fosse impossível. A Roma foi campeã italiana em 1982-1983, levando o tão almejado scudetto. Ganhou também as Copas da Itália de 1980-1981 e 1981-1982.

Falcão falou com exclusividade para VEJA a respeito daquele tempo.

Roma eterna
“Na coletiva de apresentação tinha muita gente. Não porque chegava o Falcão, mas porque chegava uma esperança para o time. Estava lotado por causa do imenso interesse. O mercado estava fechado havia 12 anos. Fiz a entrevista e me perguntaram sobre os objetivos na Roma. Eu disse que queria ser campeão. Logo depois, fui fazer a entrevista para os veículos brasileiros. Aí eu perguntei o que eles acharam. O Araújo Neto, correspondente do Jornal do Brasil, falou que eu tinha ido bem em tudo, mas a única crítica era que seria difícil ser campeão, porque havia times melhores. Apostamos um churrasco. Ele não pagou o churrasco, mas pagou um jantar quando conquistamos o título.”

O desafio de Neymar
“Quando eu fui pra Roma, esse era um grande desafio para mim. Ir para Juventus, que era sempre campeã, ou pra Inter, pro Milan, era menos desafiador. A Roma era um grande desafio. Na época, a Roma era diferente de hoje. Ela foi reconstruída para o cenário nacional nos anos 1980, por minha causa, do presidente Dino Viola, do [técnico sueco Nils] Lindholm. Ela começou a crescer no mercado nacional e internacional nos anos 1980. Depois se consolidou com os grandes resultados dos anos 2000, por exemplo. Era jogar num time que não ganhava um campeonato desde 1942. Acho que o pensamento do Neymar está correto. Ele vai pra um time que não ganhou nenhuma competição internacional e vai para uma cidade muito boa, um time muito bom também, vai ser certamente o principal jogador do time e vai ter a possibilidade de conseguir levá-lo a um título importante na Europa. Por isso que eu aprovo. Não vou nem entrar no fator financeiro, que também conta, evidentemente. Nessa nova experiência, ele vai tentar conduzir o time, porque ninguém faz nada sozinho. Mas é evidente que a contratação dele leva o torcedor e a imprensa a acreditar que ele vai ser o jogador que pode pôr o time em condições para disputar o troféu da Liga dos Campeões. Ele tem o sonho muito possível de se tornar o melhor jogador do mundo, na medida que já não terá a concorrência do Messi do lado dele, por exemplo. Eu no lugar do Neymar, teria feito exatamente a mesma coisa.”

Vai dar certo?
“Nenhuma dúvida de que vai dar certo. Acho que ele vai bem lá também. Esse moleque tem muita qualidade. Quando ele estava no Santos e me perguntavam se ele tinha que ir para a Europa, a minha opinião era de que ele tinha que ir, porque teria experiência com jogadores europeus, iria passar a receber uma marcação diferenciada em relação a marcação no Brasil, teria menos espaço para jogar, uma série de coisas. Mas eu fazia uma ressalva quando terminava a frase dizendo que tudo isso era o que eu achava, mas eu via o Neymar tão feliz aqui no Brasil, que achava que o importante era a felicidade dele. Ele tem que estar feliz. Você estando feliz, faz seu trabalho da melhor maneira possível”.

Os valores da transferência de Falcão

A Roma pagou 2,3 milhões de dólares ao Internacional, em agosto de 1980

Valor atual em dólares: 6,7 milhões

Valor atual em reais: 21 milhões

Zico, o Galinho de Udine

Em fevereiro deste ano, aos 63 anos, Zico entrou no gramado do estádio de Friuli, em Udine, e foi ovacionado pela torcida que enchia as arquibancadas na comemoração dos 120 anos da Udinese, time em que o meia foi ídolo nos anos 1980. Uma faixa resumia tudo o que Zico significou para o time e a cidade: “Graças a você, o mundo nos conheceu”. A pequena cidade localizada perto das fronteiras com Eslovênia e Áustria, com população, no inicio dos anos 80, que caberia no Maracanã dos bons tempos, de pouco mais de 100 000 habitantes, foi redescoberta com a presença do ex-flamenguista.

Quando Zico foi para a Itália em 1983, Falcão e outros estrangeiros já haviam arrebatado o país. Times como Juventus, Napoli e a própria Roma desejavam o Galinho, mas ele escolheu ir para a Udinese. O valor foi um recorde no país: 4 milhões de dólares.

A quantia era tão grande, que a Federação Italiana chegou a anular o negócio, alegando que a Udinese não conseguiria comprovar condições financeiras para concretizar a transferência. A negociação só foi confirmada após uma pressão de cunho político feita pela torcida. A manifestação tinha o slogan “Zico ou Áustria”, em alusão ao domínio do Império Austríaco sobre a região de Udine no Século XIX. O imbróglio foi tão grande que envolveu até o presidente italiano da época, Sandro Pertini.

Zico se transformou em ídolo da torcida logo de cara, principalmente pelo sucesso imediato. Contudo, a transferência também gerou algumas críticas. A empresa acionista majoritária da Udinese demitiu 4,5 mil funcionários poucos dias antes da contratação do meia. A transação culminou em protestos, que não deram em nada, e um processo na temporada seguinte, sua segunda e última no clube (1984-1985).

Em campo, Zico teve uma boa primeira temporada. Pelo menos individualmente. Marcou 19 gols e ficou apenas um atrás de Michel Platini, da Juventus, o artilheiro da temporada. O time, porém, sofria na defesa e era muito irregular. A Udinese sofreu 40 gols em 30 jogos, foi a terceira pior defesa da Série A italiana e ficou apenas na nona colocação.

A temporada 1984-1985, sua segunda e última no clube, foi marcada pelo problema com a justiça e as lesões. Para ajudar, a Itália passou pelo pior inverno em 100 anos, o que castigou o corpo de Zico. O resultado: quatro meses longe dos gramados, apenas 15 jogos na Série A, três gols marcados e a Udinese por pouco não foi rebaixada.

Zico voltou para o Flamengo em 1985, em uma negociação de 2,5 milhões de dólares, além da renda de dez amistosos na Europa. O brasileiro ainda teve que abrir mão de um salário cinco vezes maior na Itália para retornar ao Rubro-Negro.

“Cumpri a missão de ajudar a cidade e o time a serem conhecidos pelo mundo inteiro e também pela Itália, o que foi mais importante que dentro de campo, porque não tivemos muitas conquistas. Mas exibimos um belo futebol, alegre. Eles são gratos até hoje por isso”, disse Zico.

Zico aqueceu o rigoroso inverno da Udinese – temperaturas perto de zero grau, um horror para um carioca. Em reportagem de pouco mais de 1min40 no Jornal Nacional, em 29 de julho de 1983, Cid Moreira narrou a chegada de Zico ao aeroporto de Milão, cercada de muitos jornalistas e torcedores que gritavam seu nome. Sozinho – levaria a família um mês depois – o craque teve a bagagem extraviada e seguiria naquela noite ainda para Trieste, para, de lá, seguir de carro por pouco mais de 40 minutos até Udine, acompanhado somente do empresário Lamberto Giuliodori, dono de restaurantes na Itália e empresário de jogadores, que intermediou a venda junto ao Flamengo.

Não houve grandes impactos pessoais e Zico sabia exatamente o que o esperava e o que tinha de fazer. “Conhecia a cidade desde 1980 quando fizemos um amistoso. Pequena, fria, e ainda tive todas as dicas com o Edinho. Fui para jogar futebol, Só isso. Claro que a vida era razoavelmente tranquila. E a cidade mostrou que podia ter em seu time um dos maiores ídolos do mundo e, assim, se tornar conhecida em todos os cantos.”

Perto de Udine, na cidade de Orsaria, foi criado um fã-clube de Zico, que cuida de manter a memória do maior jogador que já passou pela Udinese.

Os valores da transferência de Zico

A Udinese pagou 4 milhões de dólares ao Flamengo, em agosto de 1983

Valor atual em dólares: 9,8 milhões

Valor atual em reais: 30,5 milhões