Clique e assine com até 92% de desconto

Exclusivo: brasileiro relata como foi a volta do futebol na Alemanha

O meia atacante Raffael, do Borussia Mönchengladbach, conversou com PLACAR e traz detalhes da preparação e bastidores da volta das partidas no país europeu

Por Miler Alves Atualizado em 16 Maio 2020, 20h22 - Publicado em 16 Maio 2020, 20h02

Neste sábado histórico para o futebol mundial, PLACAR traz com exclusividade um rico relato feito pelo meia atacante brasileiro Raffael de Araújo, jogador do Borussia Mönchengladbach, equipe que voltou aos gramados nesta tarde pelo Campeonato Alemão. O cearense de 35 anos joga na Alemanha desde 2013 e não mudou de time desde então. Ele compartilhou parte de sua rotina, drasticamente afetada pela pandemia do coronavírus, ao longo desta semana decisiva.

Mesmo aliviado em voltar à sua atividade profissional, Raffael sabe que vive dentro de uma bolha, a exceção em meio à crise sanitária. “Meu sentimento é de tristeza. Eu nunca imaginei que isso poderia acontecer, é muita gente morrendo, muita gente passando fome, muita gente desesperada”, diz o jogador que atua na Bundesliga. “Sinceramente, às vezes me dá uma agonia, me dá um sentimento de tristeza profunda. Já cheguei ao pontode chorar por causa disso tudo que está acontecendo.”

Sem poder treinar no último mês, Raffael disse que seu período de quarentena foi similar ao da maioria das famílias. “Durante o período que eu fiquei em casa, fiz um pouco de tudo. Cozinhei, joguei videogame e brinquei com meus filhos. Também falei muito com meus parentes e amigos.” Mas obviamente o camisa 11 do Mönchengladbach, time do noroeste da Alemanha, teve que cuidar de seu condicionamento físico. Seu clube passou um material com instruções a serem seguidas e entregou equipamentos para os treinos nas casas dos jogadores.

“Eles passaram uma programação de treinamentos. Além de um grupo no WhatsApp, a gente usa uma ferramenta da empresa SAP. É um programa de computador que todos têm acesso, até os treinadores e fisioterapeutas. As informações chegavam através dessa plataforma. O clube também mandou uma bicicleta ergométrica na casa de cada jogador para nos ajudar a manter a forma”, afirma Raffael. Sobre o protocolo de saúde, o brasileiro revelou os jogadores e comissão técnica se isolaram em um hotel por cerca de uma semana. Antes desse isolamento, todos foram testados, inclusive os familiares. “Fiz o teste, na verdade vários testes.”

Leia o relato completo de Raffael de Araújo abaixo:

Segunda, 11 de maio
Elenco e comissão técnica do Borussia Mönchengladbach se mudaram para um hotel perto de seu estádio, de modo a cumprir um período de isolamento mínimo antes da primeira partida de retorno da Bundesliga. Raffael levou apenas coisas essenciais: “Trouxe roupas do clube, minha bíblia, alguns livros e o Playstation. Esse não pode faltar”. Um andar inteiro do hotel foi separado e, antes de se acomodarem, todos tiveram de se submeter ao teste para Covid-19. Em cerca de duas horas, os resultados estavam prontos. “Anteriormente, alguns jogadores dividiam quarto, mas agora todo mundo tem o seu. Já na nossa chegada recebemos uma programação da semana toda. O horário do café da manhã, almoço, tudo certinho até o dia do jogo.”

A temperatura dos jogadores é aferida por uma máquina logo na entrada do centro de treinamento da equipe Acervo Pessoal/VEJA

Terça, 12 de maio
A convivência com os demais companheiros de time nesse “novo normal” é bem diferente das viagens ou concentração anteriores. “Ao sair do quarto para o refeitório ou para a sala de fisioterapia, usamos máscaras e temos que manter distância de uns dos outros. É regra. Nas refeições, mantemos respeitamos o espaço de 2 metros. O esquema é de buffet, os jogadores se servem à vontade, mas sem tocar em nada. Há um vidro com um buraco para inserir o prato. Um funcionário do hotel fica do outro lado e nos servem a comida.”

Continua após a publicidade
  • Quarta, 13 de maio
    A conduta durante os jogos começa a ser passada aos atletas do Borussia Mönchengladbach. “Hoje tivemos uma palestra e nela o treinador disse que, caso fizermos um gol, não é para ter o contato entre os jogadores”, disse Raffael. O camisa 11 confidenciou ainda que será difícil se acostumar com essa parte do protocolo. “O gol é o momento mais importante de uma partida de futebol, vai ser muito estranho. Nem consigo imaginar qual será minha reação quando marcar ou no gol de algum companheiro meu. Vamos ver o que vai acontecer. Será bem curioso.”

    Quinta, 14 de maio
    A proximidade da partida contra o Eintracht Frankfurt, no sábado, já mudou o clima da concentração. “Estou ansioso, todos estão, na verdade. Ontem, no treinamento, fizemos um treino coletivo: é o segundo coletivo em duas semanas desde a paralisação. Foi muito bom ter contato com a bola, me sentir como se estivesse num jogo.” O meia atacante sabe que a equipe não está com a condição física mais adequada, mas ressaltou que este problema será enfrentado por todos os clubes. “A meu ver, só a partir do segundo ou terceiro jogo é que alcançaremos o auge da condição física.”

    O Borussia Mönchengladbach preparou um ofício com o protocolo detalhado, tanto da viagem quanto da chegada ao estádio, para seu jogadores Acervo Pessoal/VEJA

    Sexta, 15 de maio
    Na véspera da partida, quinto dia longe da família, Raffael sentiu o impacto do isolamento. “Deu vontade de passar em casa antes de viajar, porque moro a 15 minutos do clube. Queria ir lá só dar um beijo no meu filho e na minha esposa”. Mas a quarentena é imperativa: quem furar o protocolo, não viaja (o jogo é fora de casa, contra o Eintrach Frankfurt. “Fizemos outra bateria de exames para Covid-19 antes de treinarmos pela última vez”, disse o brasileiro. “Diferentemente das outras viagens, apenas os jogadores vieram no ônibus. Uma van trouxe o restante da comissão técnica. Cada ocupou um par de bancos, sem vizinhos de assento. Só pudemos tirar a máscara quando o ônibus entrou em movimento.”

    O ônibus que conduziu os atletas até Frankfurt não fez a viagem totalmente lotado. A comissão técnica usou um transporte a parte Alexander Scheuber/Getty Images

    Sábado, 16 de maio
    Dia de jogo, marcado para as 18h (horário local, 13h de Brasília). Raffael detalhou o que mudou na rotina prévia. “Após o almoço, recebemos nos quartos o uniforme e chuteiras. Deveríamos estar prontos para o jogo antes mesmo de chegar ao estádio. Então, embarcamos no ônibus no mesmo esquema de distanciamento social usado no dia anterior.”

    O uniforme de jogo foi deixado durante o almoço no quarto de cada atleta pela equipe de roupeiros do Borussia Acervo Pessoal/Getty Images

    Antes da pandemia, as equipes chegavam no local do jogo cerca de 1h30 antes da partida. Desta vez, o meia atacante brasileiro disse que foi tudo mais rápido. “Ficamos uns 10 minutos no vestiários. Logo em seguida, subimos para o gramado e fazer o aquecimento.” O camisa 11 estava entre os reservas e, para respeitar a distância de dois metros entre cada jogador, os suplentes usaram parte dos assentos das arquibancadas. “Cada reserva vestia máscara e tinha sua própria garrafinha de água.”

    Raffael (camisa 11, ao centro) ficou no banco de reservas neste sábado Michael Probst/Getty Images

    Raffael viu de fora do campo sua equipe vencer o Eintracht Frankfurt por 3 a 1 e encostar nos líderes do Alemão. O cearense de 35 anos contou que as comemorações foram menos efusivas. No banco de reservas, mesmo entre os adversários o vazio das tribunas foi tema da resenha “mascarada”. “Comentei com o Gelson Fernandes (jogador do Eintracht Frankfurt), que me disse que além da dificuldade de estarem atrás no placar, o time da casa sentia que não tinham apoio para buscar a virada. Ainda mais para eles, que possuem uma torcida barulhenta e no estádio cabem umas 50 000 pessoas.”

    Já na estrada, retornando para Mönchengladbach, Raffael fez uma reflexão sobre sua jornada, dentro e fora de campo. “Quando surgiu esse vírus aqui, a população e os governantes se uniram. A primeira preocupação no país se tornou a pandemia. O povo alemão é muito consciente, então quando foi proposto o protocolo de isolamento, eles o seguiram à risca. Não se via ninguém na rua, diferentemente do que acontece no Brasil”, disse o jogador brasileiro, que concluiu. “Torço para que o nosso país veja o sistema implementado aqui e que nossa situação melhore o mais rápido possível.”

    Continua após a publicidade
    Publicidade