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Especial Libertadores: ‘O Santos poderia ter umas dez taças’, diz Pepe

Bicampeão da América e do mundo em 1962 e 1963, ídolo alvinegro lamenta que o clube tenha priorizado excursões ao torneio continental

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 4 mar 2020, 15h28 - Publicado em 3 mar 2020, 09h00

José Macia, o popular Pepe, é o segundo maior artilheiro da história do Santos com 405 gols – só atrás, claro, de seu eterno parceiro Pelé –   dono de dezenas de títulos, incluindo duas Libertadores e dois Mundiais de Clubes com o clube alvinegro e e duas Copas do Mundo com a seleção brasileira. Aos 85 anos, o “Canhão da Vila” segue vivendo no litoral paulista e lembra com orgulho daqueles tempos de glória. Mas, às vésperas da estreia do Santos na Libertadores, diante do Defensa y Justicia, na Argentina, às 19h15 desta terça-feira 2, lamenta as circunstâncias da época que o impediram de brigar por mais títulos continentais.

A Libertadores foi criada em 1960 e teve o Peñarol como primeiro campeão. O Santos estreou no torneio continental em 1962 e já abocanhou duas taças seguidas, batendo primeiro o clube uruguaio e, no ano seguinte, o Boca Juniors, em plena La Bombonera. O time de Pelé, Pepe, Coutinho e companhia ainda disputaria as duas edições seguintes e em ambas cairia na semifinal em jogos duríssimos e polêmicos contra Independiente e Peñarol, respectivamente.

  • Na época, a truculência dos adversários, arbitragens suspeitas, logística ruim e a falta de retorno financeiro tornavam a Libertadores pouco atrativa para os clubes brasileiros. A prioridade era o Campeonato Paulista (torneio que Pepe venceu 11 vezes como jogador e mais duas como técnico), assim como as excursões para o exterior, que rendiam fortunas e prestígio internacional – em 1969, um dos três anos em que Santos de Pelé abriu mão de participar da Libertadores, o famoso time vestido de branco foi capaz de parar duas guerras na África. Em entrevista a PLACAR, que neste mês lançará o guia da Libertadores 2020, Pepe recorda este período:

    Qual a importância que o Santos dava para a Libertadores na década de 60? Naquela época, muitos jogadores do nosso time serviam também a seleção brasileira e as viagens eram um grande desgaste. Fazíamos excursões em janeiro e fevereiro pela América e maio e junho íamos para a Europa. Era importante ganhar a Libertadores porque ela te levava ao Mundial e isso rendia ao Santos muito mais prestígio e retorno financeiro. Mas sempre houve essa preocupação dos dirigentes, eles não queriam que corrêssemos riscos jogando na América do Sul.

    O senhor se refere à truculência dos adversários? Também. A verdade é que era mais difícil ganhar a Libertadores do que o Mundial, porque havia muita rivalidade, principalmente com argentinos e uruguaios, que jogavam bem e batiam muito. Naquela época não tinha tanta fiscalização, tantas câmeras, as arbitragens eram ruins, o adversário deixava o campo ruim de propósito para atrapalhar o toque de bola do Santos. Mas o Santos era um time valente, sinto um orgulho enorme de ter feito parte desse time.

    Pepe, durante premiação da Bola de Prata Miguel Schincariol/Dedoc

    Era mais difícil enfrentar os uruguaios ou os argentinos? Os dois eram difíceis, mas acho que as partidas contra o Peñarol foram mais duras, por causa da rivalidade. O Boca e o Independiente jogavam bem e deixavam jogar, os uruguaios batiam mais, ameaçavam, aquela coisa. Na época a gente não tinha como conhecer tanto os adversários, às vezes um representante do Santos ia ver os jogos e nos dar dicas, mas eles nos conheciam melhor, porque vários de nós éramos campeões do mundo pela seleção brasileira.

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    Além do talento, quais eram as principais características deste Santos? Era um time de muita personalidade. O Pelé, claro, era o melhor de todos, mas tínhamos ainda o Zito, um capitão com enorme liderança e que nos guiava nos momentos difíceis. O Santos sempre teve um ataque perigoso, goleador. Muita gente, inclusive, dizia que a defesa era vulnerável, o que não é verdade. Tínhamos só jogadores de seleção, como Gilmar, Mauro, Calvet… mas como éramos um time extremamente ofensivo, a defesa acabava ficando mais exposta. Eu era um ponta-esquerda que jogava do meio-campo para frente, minha preocupação era fazer gols e passar as bolas para o Pelé e para o Coutinho.

    Por que o Santos abriu mão de participar das edições de 1966, 1967 e 1969, para as quais estava classificado? Os dirigentes achavam que não era interessante. Por questões financeiras, o Santos preferiu priorizar as excursões internacionais para conseguir bancar seus sete ou oito jogadores de seleção. Se tivéssemos focado mais na Libertadores, acho que nossa geração poderia ter ganhado umas dez taças… Dez talvez seja exagero, mas pelo menos umas cinco vezes, com certeza.

    Acredita que o Flamengo tem condições de igualar o seu Santos e ser bicampeão? Eu acho que tem, esse Flamengo tem sim, vem jogando um ótimo futebol.

    Pepe ao lado de Neymar, em 2011, ano em que o Santos conquistou seu terceiro título da Libertadores Renato Pizzutto/Dedoc

     

     

     

     

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