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Especial Libertadores: ‘O Athletico quer ser o protagonista’, diz Cocito

Vice-campeão em 2005, ex-volante ainda lamenta que a final não tenha sido na Arena da Baixada e acredita que o time atual tenha condições de seguir no topo

Por Alexandre Senechal Atualizado em 11 mar 2020, 09h25 - Publicado em 11 mar 2020, 09h00

Ele ficou marcado no imaginário do futebol por uma entrada forte em Kaká no Campeonato Brasileiro de 2001. Mas é só perguntar para o torcedor do Athletico Paranaense sobre Thiago Marcelo Silveira Cocito, ou apenas Cocito, para entender que o volante foi muito mais do que um jogador violento ou um perna de pau. Cocito é um dos maiores ídolos do Furacão. Foi um dos pilares do time que chegou ao título nacional em 2001 e é o terceiro jogador que mais atuou com a camisa rubro-negra na Libertadores com 19 partidas (atrás de Weverton e Nikão por apenas um jogo).

Em 2005, a glória continental bateu na trave. A derrota para o São Paulo na decisão daquela Libertadores ainda dói para Cocito, que acredita que se a partida de ida da final tivesse acontecido na Arena da Baixada, estádio da equipe em Curitiba, o resultado poderia ter sido diferente. A Conmebol decidiu transferir o duelo para o Beira-Rio, em Porto Alegre, porque o estádio não tinha os 40.000 lugares disponíveis exigidos pelo regulamento – o clube chegou a colocar arquibancadas provisórias, mas tanto a entidade quanto o adversário não aceitaram realizar o jogo no local mesmo assim.

  • Aquela foi a melhor campanha do Athletico na competição. Um feito que Cocito acredita que o time de 2020 pode superar. “Não há limite para o homem que acredita nos seus sonhos, faz de tudo para conquista-los e se estrutura para isso”, afirmou. “O Athletico quer ser o protagonista”, concluiu. Se conseguir o título inédito, o ex-jogador terá sua parcela no feito. Depois de um ano como coordenador das categorias de base, Cocito é hoje coach do DNA CAP, um orientador que ajuda na formação dos jovens jogadores como cidadãos e atletas, respeitando a filosofia de trabalho do clube dentro e fora de campo. Os selecionáveis Renan Lodi e Bruno Guimarães ouviram seus conselhos.

    PLACAR lançará o Guia da Libertadores 2020 neste mês e preparou uma série de entrevistas especiais com os craques que marcaram as campanhas históricas dos times brasileiros (clique aqui para ler todas). Confira, abaixo, o papo com Cocito:

    Disputar a Libertadores foi a maior realização da sua carreira? Quando comecei a jogar futebol, meu sonho era me tornar profissional. Consegui pelo Botafogo de Ribeirão Preto. Aí o sonho virou jogar um Brasileiro da primeira divisão. Tive a felicidade de jogar alguns e ganhar um pelo Athletico. A partir do momento em que comecei a jogar os Brasileiros, a gente já sonha em disputar a Libertadores. Consegui não só jogar, mas chegar a uma final em 2005. Infelizmente nós perdemos para o São Paulo e acredito que se tivéssemos jogado o primeiro jogo na Arena, as coisas teriam sido bem diferentes.

    Qual é a sensação de jogar uma Libertadores? É magnífica. As equipes são muito aguerridas. Costumo dizer que os jogadores sul-americanos não desistem jamais, têm isso como cultura. É uma sensação diferente, principalmente no mata-mata, que os nervos ficam mais à flor da pele. É a maior competição das Américas, por isso é tão sonhada, tão buscada, e que dá condição de poder disputar o Mundial de Clubes. Nós fomos chegando e, se for ver, o Athletico ficou a uma partida do Mundial, se tivesse ganhado a Libertadores. É a competição a ser vencida.

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    Qual sua principal lembrança do torneio? A principal foi chegar a uma final de Libertadores. Tem alguns jogos que considero muito importantes. Na primeira partida da final, fizemos um bom jogo no Beira-Rio. Salvei um gol em um chute do Mineiro, em uma bola que já tinha passado pelo Diego. Mas o que mais marcou foi o jogo contra o Santos, na Arena. Perdemos o Alan Bahia expulso no primeiro tempo e, mesmo assim, conseguimos vencer o Santos, com Robinho, Léo, Ricardinho, uma grande equipe. Eu, o Marcão e outros atletas terminamos o jogo com caibras pela doação em campo, por ter que correr ainda mais por estar com dez homens. Minha esposa fala que foi um dos jogos mais emocionantes, porque a torcida gritou muito meu nome no final.

    Quais as maiores dificuldades da competição? Os estádios hostis, a arbitragem? O clima de hostilidade não somente dentro do campo. Os times sul-americanos têm torcedores fanáticos, mas a torcida do Athletico não deixa a desejar. Os jogadores de lá já aprendem a competir desde criança. Aqui queremos que os meninos se divirtam um pouco mais na iniciação e tiramos um pouco dessa carga. São atletas que competem do início ao fim do jogo, independente das circunstâncias e do placar. Em relação à arbitragem, o que favorece eles é a questão do idioma. Isso dá a eles mais intimidade para interagir com os árbitros. Mas não podemos ter isso como muleta.

    Cocito, do Atlético Paranaense, contra o São Paulo, Campeonato Brasileiro, Morumbi. Renato Pizzutto/Placar

    Até onde acha que o Athletico pode chegar nessa edição? Não há limite para o homem que acredita nos seus sonhos, faz de tudo para conquista-los e se estrutura para isso. Tem que ter fome. Fazer cada jogo como o último da vida. O Athletico entra em todas as competições buscando títulos. Pode até não acontecer, mas a vontade tem que ser essa. Quem diria que o Athletico de 2001 seria campeão brasileiro? Ninguém, somente nós. Quem está dentro tem que acreditar e estar comprometido. Aí ninguém mais de fora precisa acreditar. O Athletico tem feito isso e foi por isso que ganhou a Sul-Americana e a Copa do Brasil. Os alicerces foram bem feitos e agora precisamos lapidar cada vez mais para chegar o mais longe possível nesta Libertadores.

    Como você vê esse novo momento do Athletico, com a mudança da marca e os títulos inéditos conquistados? O Athletico tem a filosofia de buscar atletas sem expressão e com toda a estrutura que o clube tem, lançar, montar suas equipes. O clube se profissionalizou, tem uma estrutura física que cresce a cada dia, tem todo um staff que pensa no desenvolvimento do cidadão integralmente. Essas coisas fazem diferença. O Athletico é o que é devido a essa filosofia. Conseguimos muitas conquistas lá atrás, tivemos o vice da Libertadores. Agora estamos na onda do protagonismo. O Athletico quer ser protagonista. Por isso que mesmo após essas conquistas recentes, o clube vem buscando melhorar sempre. Sempre buscando a excelência. Quando parar de sonhar, crescer e evoluir, os outros vêm e ultrapassam.

    Te surpreende o clube ter chegado a esse patamar? Esse momento não é surpresa nenhuma por todo esse trabalho que o Athletico fez e continua fazendo na sua estruturação como um todo. Fico felicíssimo como torcedor do clube e também por poder estar vivendo tudo isso. Cheguei a trabalhar como coordenador da categoria de base e hoje sou coach do DNA CAP, para ajudar a formar os meninos como cidadãos e atletas dentro da filosofia que o clube quer implementar dentro e fora de campo.

    Como vê o momento do Flamengo, atual campeão? Acha que o clube pode estabelecer uma hegemonia no continente? O Flamengo tem praticamente três times com muita qualidade, porém só um joga. Tem um ótimo treinador e estão conseguindo minimizar os egos e as vaidades, e se comprometendo muito com o que é determinado por ele. Só que tudo passa. É uma grande equipe, mas não vejo como imbatível. Já mostrou suas fragilidades. Quanto mais alto uma equipe está, mais ela tem que lutar para se manter no topo. Dentro de campo são 11 contra 11 e não tem muito segredo. Com confiança e personalidade, as coisas se equiparam. Mesmo assim, sem dúvidas é o time a ser batido.

    A final única foi muito debatida, mas acabou chamando atenção do público no mundo todo ano passado. O que você achou desse novo formato? Quando começa a competição, o regulamento está pré-estabelecido e não tem o que reclamar. Os torcedores é que sentem um pouco, por terem que se deslocar para uma cidade que não é a sua. É uma sensação diferente. Quando é um jogo só, pode pegar os atletas em um dia ruim e não tem nem chance de recuperar. Às vezes o melhor time nem chega na final no mata-mata. Se fosse pontos corridos, essas competições seriam diferentes. Mas não seriam tão apaixonantes. Porém, nos pontos corridos, geralmente a melhor equipe, mais bem preparada, é a campeã.

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