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‘Em vez de focar no que o acidente levou, me concentrei no que ele trouxe’

Campeão mundial, Claudia Santos disputa o Remo paralímpico pelo Brasil

“Perdi
uma perna… e achei um sentido para a vida”

Não sinto saudade de ter duas pernas. Porque eu não fazia
jus a elas, sabe? Vivi até os 23 anos sem praticar um único esporte; sem dar um
só passo por outro lugar que não minha cidade natal. Aí, vieram o atropelamento
e a vida com uma perna a menos. Os cinco primeiros anos da nova condição foram
os mais sofridos da minha vida. Em compensação, os últimos 11 têm sido
incríveis. Subo em pódios, caminho por países onde nunca imaginei que pisaria.
Perder uma perna me fez ir mais longe!       

 

Mais
do que perdas, o acidente trouxe ganhos

Quinta-feira,
15 de fevereiro de 2000. Mais um dia de trabalho como telefonista havia chegado
ao fim. Como de costume, às 22h atravessei a primeira pista da rodovia onde
ficava a empresa em que dava expediente e parei no canteiro central. Um carro
me pegou em cheio e minha vista escureceu. Antes de apagar por completo, ouvi
alguém dizer: “Procura a perna dela do outro lado!”.

Foram
47 dias em coma, seis meses internada e cinco anos em recuperação. Fiz 13
cirurgias e senti dores indescritíveis que, olha a ironia, trouxeram sentido
para cada segundo que passo neste mundo. Em vez de focar no que o acidente
levou, me concentrei no que ele trouxe – uma nova chance de viver! Isso me
fortaleceu rapidamente. Lembro que, como de praxe, fui encaminhada para um
psicólogo antes de receber alta. Ele começou perguntando como eu imaginava
viver sem uma perna. “Preciso ir pra casa, tenho uma porção de coisas pra fazer
e uma perna que precisa aprender a andar de novo”, respondi. Você está ótima.
Vai pra casa!”, sorriu o doutor.

Graças
à fisioterapia, um ano depois do acidente eu já andava apoiada em muletas. Por
indicação médica, procurei uma academia pela primeira vez na vida. A ideia era
fazer musculação, mas já no primeiro dia um professor me “convocou” para a aula
de natação. Entrei na água e, ao perceber que conseguia deslizar perfeitamente
por ela, vibrei feito criança: ali, eu estava inteira.

Meses
depois, a convite de um professor, passei a treinar com atletas paralímpicos.
Na minha primeira queda na piscina, perdi feio para uma menina sem uma perna e
um braço… A derrota me deu gana de treinar mais ainda. Um ano depois, em
meados de 2006, fui representar a natação paralímpica num evento. Lá conheci
meu atual treinador, o Zé Paulo, que me convidou a tentar o remo. No início,
desdenhei. “Meu lugar é dentro d’água, não sobre ela”, pensei. Ele tanto
insistiu que fui até a raia Olímpica da USP experimentar a modalidade. Nossa,
odiei!

Cláudia Santos foi campeã mundial em Munique – Divulgação

Com
oito meses de treino, me tornei campeã mundial


seguiu insistindo. Ele via em mim um potencial que eu não enxergava. Só me
animei quando ele garantiu que poderia competir pelo mundial em Munique, na
Alemanha. Nem passaporte eu tinha, mas arrumei um rapidinho. Quem diria: a
menina sem perna que nunca havia saído de Carapicuíba (SP) tinha chances de
competir em terras alemãs!

Treinei
o ano inteiro e, em setembro, participei da minha primeira competição. Remei
como se não houvesse amanhã. A prova acabou. Fiquei em primeiro lugar e não
percebi, pois a narração era toda em alemão. A ficha só caiu quando vi minha
foto estampada no telão. Com oito meses de treino eu já era campeã mundial!
Inesquecível, o filme que passou na minha cabeça enquanto subia naquele
primeiro pódio.

Desde
então, ser remadora virou minha profissão. Sou aposentada por acidente de
trabalho, mas é o esporte que paga minhas contas; tenho uma bolsa federal e uma
do time São Paulo. Minha rotina é remar, comer e dormir. Treino duas vezes por
dia, de segunda a sábado. Como boa profissional, cumpro horários e bato metas.
Meu maior desafio como atleta é encontrar patrocinador, alguém que acredite no
meu potencial. Parece que grandes marcas não enxergam os paralímpicos como
atletas. Precisamos do pódio para chamar atenção e, só então, conquistar um
suporte financeiro estável. Que seja! Se perder uma perna não me paralisou, não
é a falta de grana que o fará. Pois os problemas ganham outro peso quando a
gente para de lutar contra e aprende a viver com. É por ter essas reflexões que
eu prefiro a Claudia de agora a de antes. Não trocaria meu corpo por nenhum
outro. Ele carrega a minha história, é a minha marca registrada. 

Claudia Santos, 39
anos, remadora paralímpica

Cláudia Santos competiu no Remo pelo Brasil nos Jogos do Rio – Buda Mendes

Ficha Técnica – Remo

Claudia Santos, 39 anos – São
Paulo, SP

Deficiência

Perdeu
uma perna em um atropelamento

Conquistas anteriores

Bronze
no Mundial da Coreia do Sul 2013; ouro no Mundial Indoor de Boston 2012; bronze
na Copa do Mundo da Itália 2012; prata na Copa do Mundo de Munique 2012; bronze
na Copa do Mundo da Eslovênia 2010; prata no Mundial da Nova Zelândia 2010;
ouro no Mundial de Munique 2007 

Conquistas Rio 2016

Não
obteve medalha
s