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‘Em ricocheteio do destino, uma arma me disparou para a vida’

Conheça a história de Alexandre Galgani, do Tiro Esportivo paralímpico

“A vida me apontou novos alvos”

Ser jogador de basquete
e, talvez, chegar à NBA (liga profissional dos Estados Unidos). Era nisso que
eu mirava aos 18 anos! Era para isso que treinava quatro vezes por semana.
Porém, um mergulho mal dado fez cada plano que eu tinha sair pela culatra. Fiquei
paraplégico e os alvos sumiram todos de foco. Só ressurgiram anos depois
quando, num outro ricocheteio do destino, uma arma me disparou para a
vida. 

    

Eu só conseguia mexer os olhos

Sábado de sol, churrasco
na casa dos meus pais. Subo na cascata que deságua na piscina e mergulho de
cabeça. Furioso, meu pai me manda nunca mais fazer aquilo! Obediente, saio da
água e salto da beirada, como manda o figurino. Bato a cabeça no fundo e
imediatamente perco os movimentos do corpo inteiro. Boio até a superfície e
falo para um amigo: “Acabei de quebrar o pescoço, só mexo os olhos. Me tira
daqui!”.

Foram seis meses de
internação, várias cirurgias. Demorei um ano para conseguir sentar. Durante
três anos fiz fisioterapia o dia inteiro. Para evitar frustrações, reduzi
minhas expectativas a zero. Parei de sonhar. O que viesse era lucro. Só voltei
a fazer planos quando retomei os
movimentos dos braços e dos punhos. É o
suficiente para que, dentro de casa, eu consiga fazer tudo sozinho. Na rua já
não tenho tanta autonomia. Preciso de ajuda para ir ao banheiro, por exemplo.
Por isso, meus amigos, um dos meus irmãos ou minha mãe sempre me acompanham.

O apoio da família opera
milagres, em casos como o meu. Graças à minha, terminei o colegial e me formei
em Direito. Aos 25 anos, comecei a trabalhar
como atendente de call center. Nas horas vagas, praticava tiro com meu pai –
ele aprendeu no exército e ensinou a mim e aos meus dois irmãos quando éramos
moleques. Usava uma arma carabina apoiada no braço esquerdo e com o direito
atirava – como não mexo os dedos, puxo o braço e os punhos de forma que meu
dedo indicador ative o gatilho.

Ao me ver, um cara do clube sugeriu, em 2013, que eu tentasse o tiro
profissional. E me indicou diretamente o técnico da seleção brasileira de paratletas,
em Curitiba (PR). Fiquei empolgado e meu pai, mais ainda. No mesmo final de
semana fomos atrás de entender como adaptar minha cadeira de rodas para apoiar
uma arma de competição, que é mais pesada. Por fim, transformamos o quartinho
de ferramentas lá de casa em local de treinamento.

Alexandre na prova carabina classe SH2 – Marco Antonio Teixeira

 A minha mira agora é Tóquio 2020

Determinado a virar um excelente paratleta, segui
(e sigo até hoje) a dica que um atleta me deu: se meu adversário treina duas
vezes por semana, eu preciso treinar quatro para superá-lo. Passei a praticar
mira todo santo dia. Acordava às 5 h, treinava até às 8 h e ia trabalhar. À
noite, treinava mais uma hora, antes de dormir. Hoje treino ainda mais, são seis horas por dia, de segunda a sábado.
Para isso, preciso de um acompanhante. É ele quem recarrega a arma depois de
cada tiro. O resto eu faço sozinho.

Minha técnica me
garantiu o 1º lugar na Copa Brasil de
Tiro Esportivo em 2014! Lá, o
técnico da seleção brasileira, aquele que me orientou em 2013, me
convidou para sua equipe. Passei a
representar o Brasil nos campeonatos internacionais, patrocinado pelo comitê! Na
minha classificação para os Jogos Paralímpicos do Rio, eu só tinha seis meses
de treino.

Foram dias inesquecíveis. Momentos de muita emoção e aprendizado, que eu
curti do início ao fim. Quando entrei para a primeira prova, a de carabina de
ar em pé, a torcida gritou meu nome em coro. Posso viver 200 anos que relembrar
essa cena sempre deixará minha pele arrepiada. Não consegui chegar ao pódio em
nenhuma das duas provas das quais participei (a segunda foi carabina de ar
deitado). Mas foi tudo tão intenso que, em vez de sair frustrado, eu fiquei cheio
de energia para treinar. Tóquio 2020 já está na minha mira!

Alexandre Augusto Galgani, 33 anos, tiro esportivo

Alexandre Galgani esteve nos Jogos do Rio de Janeiro – Graziella Batista

Ficha Técnica – Tiro esportivo

Alexandre Augusto
Galgani, 33 anos – Americana, SP

Deficiência

Perdeu os movimentos da perna e de parte dos braços ao
lesionar a coluna

Conquistas
anteriores

Bronze na Carabina de Ar 10m em pé e na Carabina de Ar 10m
deitado na Copa do Mundo de Fort Benning (EUA) 2016; bronze na Carabina .22 50m
deitado na Copa do Mundo de Fort Benning 2015

Conquistas Rio
2016

Não obteve medalhas