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Em manifesto, jogadores se dizem contra a Copa América, mas vão jogar

"Em nenhum momento quisemos tornar essa discussão política", escreveram os atletas; afastamento de Caboclo diminuiu tensão no grupo

Por Da Redação Atualizado em 9 jun 2021, 00h44 - Publicado em 9 jun 2021, 00h31

Acabou o mistério. Os atletas da seleção brasileira se manifestaram sobre a participação do time na Copa América após a vitória por 2 a 0 sobre o Paraguai, em Assunção, pelas Eliminatórias, na noite desta terça-feira, 8. Como já se esperava, a possibilidade de boicote ao evento no país perdeu força após o afastamento do presidente da entidade, Rogério Caboclo, acusado de assédio moral e sexual por uma funcionária, e foi descartada. Os atletas, no entanto, se disseram contra a realização do campeonato.

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Os jogadores se manifestaram por meio de um manifesto, no qual destacaram que, “por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada tardiamente no Chile ou no Brasil.” Na mensagem, o time disse ainda que nunca quis tornar o debate político. Confira, abaixo, o manifesto na íntegra.

“Quando nasce um brasileiro nasce um torcedor. E para os mais de 200 milhões de torcedores escrevemos essa carta para expor a nossa opinião quanto a realização da Copa América. Somos um grupo coeso, porém com ideias distintas. Por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada tardiamente no Chile ou no Brasil.

Todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua realização.

É importante frisar que em nenhum momento quisemos tornar essa discussão política. Somos conscientes da importância da nossa posição, acompanhamos o que é veiculado pela mídia e estamos presentes nas redes sociais. Nos manifestamos, também, para evitar que mais notícias falsas envolvendo nossos nomes circulem à revelia dos fatos verdadeiros.

Por fim, lembramos que somos trabalhadores, profissionais do futebol. Temos uma missão a cumprir com a histórica camisa verde e amarela pentacampeã do mundo. Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira.”

Manifesto dos jogadores
Manifesto dos jogadores ./Reprodução

Após a partida, o zagueiro Marquinhos tocou no assunto, mas assim como já havia feito Casemiro depois do jogo contra o Equador, adotou tom de mistério. “Sabemos todo o contexto da Copa América, isso foi muito discutido internamente e externamente. Deixamos claro que em momento algum os jogadores se negaram a vestir essa camisa, sonhávamos desde criança em estar aqui, é o maior orgulho. Fizemos o que tínhamos de fazer e vamos ver o que será decidido. Existe uma hierarquia, estamos cientes do nosso papel.”

Em seguida, na entrevista coletiva, evitou relacionar o ocorrido ao afastamento de Caboclo. “A gente sabe da gravidade do assunto, não cabe à gente a julgar. As pessoas que deveriam julgar já fizeram isso. Vamos fazer a nossa parte, que é jogar bola”, disse. “A gente entende o trabalho de jornalistas e repórteres, mas eles têm que ter cuidado e depois somos julgados por fatos que não são verdadeiros. Como falei antes, é nosso sonho de criança e em momento algum falamos que iriamos nos recusar a vestir a camisa da seleção.”

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Atual campeão, o Brasil estreia na Copa América no próximo dia 13, diante da Venezuela, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília.

  • Entenda o caso

    A saída de Rogério Caboclo arrefeceu as reclamações do elenco e os rumores de uma possível demissão de Tite, que tem ampla aprovação do grupo. No último dia 3, o técnico admitiu em a entrevista coletiva, que havia insatisfação no elenco em relação à mudança da Copa América para o país, o que já havia sido repassado a Caboclo na véspera pelos líderes do elenco, como Neymar, Marquinhos, Casemiro, Alisson e Thiago Silva. Um dia depois, após a vitória contra o Equador pelas Eliminatórias, o capitão Casemiro sinalizou “respeito à hierarquia”, mas disse que atletas se posicionariam de forma direta, alimentando a possibilidade de boicote (afinal, se concordassem com a CBF, não teriam sobre o que se posicionar).

    Atletas e comissão não gostaram da mudança de última hora, depois que Colômbia e Argentina, sedes originais da Copa América, desistiram de recebê-lo devido a tensões sociais e altas taxas de Covid-19 (ambos problemas que o Brasil também enfrenta). A medida foi vista como desnecessária, por se tratar de um torneio com pouca relevância no momento (será disputado pela quarta vez em seis anos), somada à exaustão dos atletas devido ao apertadíssimo calendário em tempos de pandemia. O desejo dos atletas era antecipar as férias ou adiantar as partidas atrasadas das Eliminatórias e, assim, evitar o protagonismo em uma decisão que foi se tornando cada vez menos esportiva.

    Apesar de o acordo que trouxe a Copa América ao Brasil ter sido costurado pela CBF com o governo de Jair Bolsonaro, a insatisfação dos atletas não representava uma crítica direta à postura do presidente da República (muitos, aliás, são apoiadores do capitão). Na verdade, elenco e comissão estavam mais insatisfeitos com a maneira como Rogério Caboclo vinha tomado suas decisões, sem consultar aqueles que, de fato, sofrem com o calendário e se colocam em risco em meio à pandemia. Eles souberam via imprensa que a competição seria jogada no país e não gostaram de ter de responder por uma medida essencialmente política, enquanto os reais responsáveis se calavam.

    O presidente da CBF, Rodrigo Caboclo -
    Encrencado, Caboclo vinha evitando a imprensa Kaio Lakaio/Placar

    O mandatário da CBF, por sua vez, driblava os microfones por outras razões, que vieram à tona com a divulgação da acusação de assédio moral e sexual, revelado pelo Ge.com. A relação de Caboclo com o grupo, incluindo comissão técnica, nunca foi além de “cordial”. Recentemente, um áudio vazado de 2018 levou ainda mais desconfiança ao ambiente. No material, divulgado pela ESPN Brasil, Caboclo conversa com Edu Gaspar, então coordenador de seleções, sobre a renovação de contratos após a Copa da Rússia e, além de admitir que seu antecessor Marco Polo Del Nero, banido pela Fifa por corrupção, ainda dava palpites na entidade, o mandatário cogitou manter Tite no cargo, mas realizar mudanças na comissão técnica, incluindo a saída de Cleber Xavier, o braço-direito do treinador.

    A mudança não se concretizou, mas o vazamento evidenciou que não há confiança total no trabalho da comissão. Recentemente, também vazou o interesse da CBF em contratar o ex-jogador espanhol Xavi Hernández ou Muricy Ramalho como auxiliares de Tite (ambos rejeitaram as propostas). Questionado sobre o tema na última quinta, Tite se limitou a dizer que as ofertas foram verdadeiras e com seu consentimento, mas sem entrar em detalhes, no único momento em que realmente aparentou incômodo.

    Caboclo era, portanto, o principal alvo das discórdias dentro da entidade e desde a seu afastamento, a CBF trabalhou para aparar as arestas e manter a Copa América de pé, sob forte pressão da Conmebol, enquanto tenta solucionar diversos problemas de logística em tempo recorde  – o campeonato começa dia 13, em Brasília. O presidente interino Antônio Carlos Nunes, o coronel Nunes, deve manter posição meramente decorativa, assim como fez entre 2017 e 2019, quando substituiu Del Nero e colecionou gafes, cabendo aos outros vices e dirigentes, como o próprio Juninho, maior autonomia nas decisões.

    No domingo, a federação argentina divulgou um comunicado garantindo presença no evento, o que praticamente encerrou as chances de haver um posicionamento conjunto das seleções em protesto à Copa América. A possibilidade também foi praticamente ignorada por jornalistas estrangeiros que cobrem as outras seleções. Para equipes como Bolívia e Venezuela, jogar a competição representa um aporte essencial nas finanças, além de uma importante vitrine para os atletas. Diante de tudo isso, a possibilidade do boicote ruiu.

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