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Em 2 anos, quartel general de doping russo é transformado em restaurante

A "sede" do maior sistema de trapaça no esporte sofreu uma transformação radical, mas ainda guarda lembranças do esquema orquestrado pelos homens de Putin

Por Alexandre Salvador - Atualizado em 25 jun 2018, 19h17 - Publicado em 25 jun 2018, 10h04

SOCHI – Após a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, em 2014, o parque construído no balneário russo para receber o evento sofreu importantes modificações. Além do Estádio Fisht, cujo uso já estava planejado para a Copa do Mundo quatro anos mais tarde, as instalações foram circundadas por uma pista de corrida, palco de uma etapa do campeonato mundial de Fórmula 1. Fora isso, os ginásios e os prédios tiveram destinações variadas, algumas até radicalmente distintas de sua finalidade inicial.

Ao número 1 e 2 da Rua Mezhdunarodnaya, uma travessa da Avenida Olímpica, hoje fica um restaurante chamado La Punto. De acordo com a descrição oficial, sua cozinha mistura influências europeias, italianas e caucasianas. O gastropub tem dois ambientes, um terraço de verão e um salão de jantar climatizado. Os dois são ligados por um corredor que, em uma situação ordinária, seria apenas um caminho de serviço, mas não no caso do La Punto. Afinal, o estabelecimento, inaugurado em 2016, ocupa exatamente o mesmo local onde foi conduzida a maior farsa da história do esporte: um sistema organizado de manipulação de amostras de urina, com anuência do governo russo, visando a livrar a cara dos atletas que disputaram os Jogos OIímpicos de Inverno, realizado há quatro anos aqui mesmo em Sochi.

O corredor suspeito do La Punto. Atrás de uma dessas portas, aconteceu o maior esquema de doping da história do esporte Alexandre Salvador/VEJA

Quem viu o documentário Icarus, disponível na Netflix (assista ao trailer abaixo), entende a gravidade do episódio e a desfaçatez com que tudo ocorreu: incentivado pelo Estado, os organizadores da Olimpíada de Inverno de 2014 criaram um método para acobertar os trapaceiros russos. Os procedimentos incluíam agentes da FSB, o órgão que sucedeu a KGB, o serviço secreto soviético do qual o presidente Vladimir Putin fez parte no período comunista. Eles transitavam livremente pelo laboratório onde as amostras de sangue e urina dos atletas eram armazenadas. Na sucursal do laboratório, instalada em Sochi durante os Jogos de Inverno, havia membros da FSB disfarçados de cientistas.

A tal sucursal ficava justamente no edifício onde hoje fica o La Punto. No corredor de serviço do restaurante provavelmente ficava instalada uma das salas onde centenas de amostras de urina foram violadas e trocadas por outras, livre de substâncias dopantes. Elas passavam por um pequeno buraco na parede entre uma sala e outra. Antes da revelação do esquema, a Rússia havia saído dos Jogos de Inverno como a primeira colocada do quadro de medalhas – foram 33 ao todo, sendo treze douradas. Após a investigação, conduzida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e pela Agência Mundial Antidoping (Wada), treze medalhas (quatro delas de ouro) foram retiradas dos atletas do país da Copa.

Embora o assunto doping não seja algo que os russos gostem de admitir – para muitos, o esquema trata-se de uma grande intriga dos americanos –, a vergonha internacional pela qual a (turbinada) potência esportiva passou nos últimos anos já é tratada até como piada. Os garçons do estabelecimento, todos vestidos com uniforme completo (camisa, calção e meião) das seleções que disputam o Mundial de futebol, evitam tocar no assunto. Mas para o La Punto, instalado no palco de toda trapaça, o assunto já virou conversa de bar, literalmente.

A carta de coquetéis do restaurante oferece bebidas com nomes que fazem alusão ao episódio. VEJA provou o meldonium, cuja base alcoólica é o absinto. Para quem não sabe, meldonium é o nome do remédio proibido para atletas e que provocou a suspensão da tenista russa Maria Sharapova (que, aliás, é natural de Sochi e possui uma academia de tênis que leva seu nome a poucos metros dali). À base de mildronato, uma droga originalmente recomendada para pessoas que sofrem de doenças degenerativas ou isquemia do coração, seus efeitos em atletas podem ser a melhora da capacidade de produzir energia, o incremento da capacidade de recuperação após o exercício e o auxílio na chamada memória motora, que é a capacidade de nossos músculos “aprenderem” a repetir determinados movimentos. 

O coquetel Meldonium, nome de substância proibida pela Agência Mundial Antidoping Alexandre Salvador/VEJA

Além do meldonium, o La Punto oferece outra bebida com nome alusivo ao escândalo de doping russo. O amostra B leva tequila, sambuca (um licor de anis) e molho de pimenta. No sistema antidoping, o atleta selecionado para o exame colhe urina ou sangue. Esse material é dividido em dois frascos, geralmente rotulados como amostras A e B. O primeiro material a ser analisado é o A. Caso seja detectado qualquer traço de substância ilegal, usa-se a amostra B, para tirar a prova. No sistema organizado de doping russo, ambos os frascos eram violados e seu conteúdo substituído por outro, livres de qualquer agente dopante.

A fachada do La Punto, dentro do Parque Olímpico de Sochi Alexandre Salvador/VEJA

A Rússia sofreu duras sanções após a revelação do esquema: seu principal laboratório de análises clínicas foi descredenciado pela Wada. O comitê olímpico do país foi suspenso pelo COI e seus atletas tiveram que disputar os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, sob bandeira neutra. No Brasil estamos acostumados com escândalos virarem pizza. Por aqui, os russos estão transformando assuntos vergonhosos em cachaça.

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