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‘E se’: o que teria acontecido se o desfecho de um lance fosse diferente?

Num exercício de futurologia que só a quarentena permite, PLACAR traçou cenários imaginários para episódios que mudariam a história do futebol

Por Da Redação - Atualizado em 1 abr 2020, 16h14 - Publicado em 1 abr 2020, 15h46

“O ‘se’ não joga.” A frase é costumeiramente repetida pelos boleiros dos quatro cantos do planeta quando questionados sobre momentos decisivos que definiram os rumos de um jogo ou de um campeonato. Mas “e se”, de fato, pudéssemos mudar o destino de uma partida com o poder da imaginação? Em um exercício de futurologia paralela, enquanto a bola não volta a rolar em razão da pandemia de coronavírus, PLACAR selecionou oito fatos históricos e imaginou o que poderia ter acontecido se tivessem um desfecho diferente do script original.

E se aquela bola de Renato Augusto na Copa de 2018 tivesse entrado?

Kazan, Rússia: 6 de julho de 2018. O Brasil foi eliminado da Copa de 2018 diante da Bélgica, nas quartas de final, mesmo tendo finalizado 14 vezes contra apenas um chute dos belgas no segundo tempo. A chance perdida que ainda martela a cabeça da torcida brasileira é o chute de Renato Augusto, aos 34 do segundo tempo, em que a bola passou à direita da trave de Thibaut Courtois por alguns milímetros. Caso essa bola tivesse entrado, o Brasil teria empatado o jogo em 2 a 2 com cerca de 15 minutos restantes no tempo normal – sem contar uma possível prorrogação -, com a Bélgica abalada física e psicologicamente. É bem provável, portanto, que o Brasil saísse classificado. Renato Augusto, que entrou no segundo tempo daquela partida e já havia marcado um gol, seria o herói da classificação e possivelmente retornaria ao time titular – sua saída, por problemas físicos, é apontada até mesmo pelo técnico Tite como um dos fatores de desequilíbrio da equipe na campanha do último Mundial. A adversária na semifinal seria a França, numa espécie de “final antecipada” e nova chance de revanche por 1986, 1998 e 2006. Fazer esse prognóstico pode ser polêmico, mas em uma hipotética final contra a Croácia, só uma zebraça evitaria o hexa. Hoje criticados, Tite e Neymar poderiam ter tido seus momentos de consagração em solo russo.

Chute de Renato Augusto passou raspando a trave Stefan Matzke/Corbis/Getty Images

E se Cássio não tivesse espalmado aquele chute de Diego Souza?

Um dos “e se” mais famosos do futebol brasileiro. Depois de um empate em 0 a 0 em São Januário, Corinthians e Vasco decidiam uma vaga na semifinal da Libertadores de 2012, no Pacaembu. É bem plausível cravar: se a ponta dos dedos de Cássio não tivesse incrivelmente evitado o gol de Diego Souza, aos 17 minutos do segundo tempo, muito provavelmente a equipe carioca teria avançado. Devido à regra do gol fora de casa, o Corinthians precisaria de dois gols, e ainda com todo o peso nas costas por jamais ter conquistado a América. Na vida real, Paulinho marcou, de cabeça, aos 42 do segundo tempo, o gol do triunfo por 1 a 0 que levou o Corinthians à semifinal diante do Santos de Neymar, antes do título contra o Boca Juniors. Palpite: se Diego Souza marcasse, o Vasco seria novamente campeão da Libertadores (ou Neymar teria levado o Peixe a um novo bi da América, igualando a marca de Pelé); o Corinthians entraria em crise e continuaria sem o troféu até os dias atuais; Cássio teria história bem mais curta (e menos vitoriosa) no alvinegro paulista e Tite, provavelmente sacado após a segunda eliminação consecutiva em Libertadores, jamais teria chegado à seleção brasileira.

Cássio mandou para escanteio com a ponta dos dedos Renato Pizzutto/Placar

E se Neymar tivesse ido para o Real Madrid aos 14 anos?

O interesse do Real Madrid em contratar Neymar – que é reiterado a cada nova janela de transferências – vem de longa data e nunca esteve tão perto de um final feliz como há 14 anos. Então um adolescente talento da base do Santos, o franzino atacante foi convidado para visitar o gigante espanhol por seu empresário da época, Wagner Ribeiro, o mesmo que havia levado Robinho ao clube merengue. Neymar fez duas semanas de testes e encantou a todos com seus dribles, tanto que chegou a ter sua inscrição protocolada junto à federação espanhola. O garoto de 14 anos, porém, acabou retornando ao Santos – versões dão conta de que o Real Madrid não quis desembolsar os 60 milhões de euros pedido pelo estafe do jogador. O que teria acontecido se Neymar tivesse ficado na Espanha? Certamente o Santos teria menos títulos (o craque brilhou nas conquistas de três Paulistas, uma Copa do Brasil, uma Libertadores e uma Recopa Sul-Americana). Como estrearia como profissional entre as temporadas de 2009 e 2010, Neymar enfrentaria o melhor Barcelona de todos os tempos, mas talvez formasse uma dupla infernal com Cristiano Ronaldo que poderia impedir algumas glórias catalãs. Talvez tivesse mais Champions e até Bolas de Ouro. Ou ainda: num clube com tamanha exigência e competição por posição, poderia ter demorado a estourar e talvez tivesse uma trajetória mais discreta no futebol.

Neymar e seu pai em visita às instalações do Real Madrid, aos 14 anos de idade //Arquivo pessoal

E se Wright não tivesse expulsado cinco atleticanos contra o Flamengo?

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Um dos jogos mais polêmicos da história do futebol nacional teve como protagonista o árbitro carioca José Roberto Wright. Atlético Mineiro e Flamengo terminaram a primeira fase da Libertadores de 1981 empatados em oito pontos no Grupo 3 e, como apenas um avançaria à semifinal naquele formato, houve um jogo desempate, em campo neutro, o Serra Dourada, em Goiânia. O jogo era quente, repleto de rivalidade, e virou um caos a partir dos 30 minutos do primeiro tempo. Wright expulsou o craque atleticano Reinaldo de forma direta por falta dura em Zico. Um minuto depois, deu vermelho para Eder depois de uma trombada – o jogador queria repor uma bola rapidamente. Iniciou-se ali uma confusão, com invasão de gramado pelos dirigentes dos dois clubes. O árbitro ainda expulsaria Palhinha, Chicão e João Leite, encerrando o jogo e decretando a vitória do Flamengo por W.O. O que aconteceria se Wright houvesse dado apenas um amarelo para Reinaldo? A única certeza é que não estragaria um ‘jogaço’ desta forma, nem criaria uma mágoa incurável por parte dos alvinegros de Minas. Talvez o Atlético não tivesse de esperar mais 32 anos para conquistar a América e o Flamengo de Zico não tivesse chegado à glória com os títulos da Libertadores e do Mundial.

José Roberto Wright durante jogo entre Atlético Mineiro e Flamengo, pela Taça Libertadores. J. B. Scalco/Placar

E se Romário não tivesse sido cortado da seleção em 1998?

A Copa do Mundo da França, em 1998, se desenhava como o palco de uma das duplas de ataque mais avassaladoras da história do futebol mundial. Um ano antes, Ronaldo e Romário barbarizaram com a seleção brasileira nos títulos da Copa América e da Copa das Confederações. Em 19 jogos, somaram 14 vitórias, três empates e apenas duas derrotas. A dupla marcou no período 33 gols (18 do Baixinho, 15 do Fenômeno). O sucesso poderia ter se repetido em solo francês não fosse uma lesão de Romário – que fez desandar de vez a já conflituosa relação com o técnico Zagallo e o coordenador de seleções Zico. O corte do camisa 11 aconteceu dias antes da estreia, em uma coletiva de imprensa que Romário chegou a chorar ao falar do edema na batata perna. Ele garantia que retornaria a tempo de disputar o Mundial – e cumpriu, tanto que chegou a atuar pelo Flamengo no mesmo período. Com Romário na vaga de Bebeto, ou até de Leonardo, numa formação mais ofensiva, as chances do Brasil certamente aumentariam. Sem tanta pressão, Ronaldo talvez nem tivesse sofrido uma convulsão às vésperas da final. Jamais saberemos. O certo é que se Romário tivesse seguido na seleção, dificilmente teríamos visto as polêmicas caricaturas nas portas dos banheiros de um café de propriedade do Baixinho (e que lhe renderam até um processo na Justiça).

Os jogadores da Seleção Brasileira, Ronaldo e Romário durante torneio na Arábia Saudita - 22/12/1997
Ronaldo e Romário atuaram juntos pela seleção durante todo o ano de 1997 Henri Szwarc/Bongarts/Getty Images

E se Ronaldinho Gaúcho tivesse voltado para o Grêmio?

Com o tempo livre na penitenciária do Paraguai, Ronaldinho e seu irmão Assis talvez estejam refletindo sobre algumas das decisões erradas que tomaram nos últimos anos. Uma das mais controversas (porém não criminosas) certamente foi o retorno do pentacampeão ao futebol do Brasil, em 2011. Dez anos depois de deixar o Grêmio pela porta dos fundos, Ronaldinho teve a chance de se redimir com seu clube do coração. As negociações para seu retorno ao Tricolor gaúcho avançaram – segundo o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, até um brinde com champanhe foi feito entre as partes. O presidente gremista Paulo Odone ordenou que caixas de som fossem instaladas no velho estádio Olímpico, para o anúncio do retorno de um dos seus filhos mais ilustres. Tudo terminou em rancor e frustração depois que o Grêmio desistiu da contratação ao saber da postura de Assis, que estaria fazendo um “leilão” com outros clubes, entre eles Palmeiras e Flamengo. Ronaldinho acabou desembarcando no Rio e decretando a condição de persona non grata em sua cidade natal (pelo menos na metade azul de Porto Alegre). Como ainda tinha lenha para queimar, o meia provavelmente teria conquistado títulos pelo Grêmio e certamente teria reconquistado o respeito no Sul. Em contrapartida, dificilmente teria ganhado a simpatia dos torcedores do Atlético Mineiro, clube pelo qual conquistou uma Libertadores depois que a aventura no Flamengo fracassou.

Torcida do Grêmio protesta contra Assis e Ronaldinho Gaúcho por recusar a proposta de voltar a jogar pelo Grêmio. Edison Vara/Placar

E se o pênalti de Fábio Costa sobre Tinga tivesse sido marcado?

Outro “e se…” bastante popular aconteceu na antepenúltima rodada do Brasileirão de 2005. No Pacaembu, Corinthians e Internacional empataram em 1 a 1, com gols de Tevez e Rafael Sobis, e o clube paulista manteve uma vantagem de três pontos sobre o Colorado. Aos 28 minutos do segundo, porém, um lance entrou para a história: Fábio Costa claramente atropelou Tinga dentro da área; o árbitro Márcio Rezende de Freitas não só não assinalou a penalidade como ainda expulsou o volante do Inter com segundo amarelo, alegando suposta simulação. Se a penalidade seria convertida e se ela definiria o jogo, nunca saberemos, mas outros fatores contribuem até hoje para a revolta gaúcha. O Brasileirão daquele ano foi marcado pelo escândalo de manipulação dos resultados desvendado por VEJA, que levou o árbitro Edilson Pereira de Carvalho à prisão. O STJD decidiu anular todos os 11 jogos apitados por ele, incluindo duas derrotas do Corinthians – que acabou recuperando quatro pontos na reedição dos jogos manchados pela corrupção. Com todos esses acontecimentos, o clube alvinegro foi o campeão brasileiro de 2005 com 81 pontos, três a mais que o Inter.

Fábio Costa, do Corinthians, derruba Tinga na área do Pacaembu: campeão com asterisco Pablo Rey/Placar

E se o São Caetano tivesse conquistado a Libertadores?

O ano de 2002, por muito pouco, não registrou uma das maiores zebras de todos os tempos. O São Caetano, pequeno clube do ABC paulista que hoje disputa a Série D do Brasileiro e a segunda divisão estadual, vivia o ponto mais espetacular de sua história de conto de fadas. Depois de dois surpreendentes vice-campeonatos do Brasileirão, o time conseguiu chegar à final da Libertadores diante do tradicional Olimpia, do Paraguai, despachando Universidad de Chile, Peñarol e América do México nas fases anteriores. O time que tinha entre seus destaques o goleiro Sílvio Luiz, os volantes Marcos Senna e Adãozinho, o meia Anaílson e os atacantes Aílton e Somália chegou à finalíssima no Pacaembu com enorme vantagem depois de ter vencido o jogo de ida, em Assunção, por 1 a 0. Apoiado por torcedores dos rivais paulistas, o simpático Azulão flertou com a glória, mas terminou derrotado por 2 a 1 no tempo normal e, posteriormente, perdeu a taça nos pênaltis. Se tivesse vencido a Libertadores, o São Caetano faria um surreal duelo no Mundial de Clubes com o galáctico Real Madrid de Zidane, Ronaldo e cia. Alguns de seus atletas provavelmente teriam encantado importantes clubes europeus. O São Caetano ainda teria sucesso nos anos seguintes – foi campeão paulista em 2004 – mas um título continental poderia ter lhe dado maior sobrevida entre os grandes do país. Outra certeza: neste universo paralelo, torcedores corintianos teriam que aturar as piadas dos rivais pelo fato de um pequeno clube do ABC ter conquistado a América antes do Timão. Isso até 2012, desde que Cássio pegasse a bola de Diego Souza, é claro.

Adãozinho era um dos destaques do “Azulão” Alexandre Battibugli/Placar
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