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‘E cá estou eu, conquistando o pódio paralímpico de natação pelo Brasil’

Susana Schnarndorf superou o MSA e conquistou a prata pelo Brasil em 2016

“Um
corpo saudável não me traria até aqui”

“Você vai morrer daqui a três meses”, cravou um dos tantos
médicos que teimavam em determinar minha data de validade. Era 2005 e eu havia
acabado de ser diagnosticada com MSA, doença degenerativa de múltipla falência
dos sistemas. Nos quadros mais otimistas, após manifestá-la, os pacientes vivem
por três anos. O sistema nervoso definha pouco a pouco, levando embora a
mobilidade e tudo o que ela possibilita. Mais do que me forçar a largar a
natação, a corrida e as pedaladas que tanto amava, a doença me privou de
trivialidades como escovar os dentes e pentear o cabelo sozinha. Eu me perdi de
mim. Por quatro anos tudo o que fiz foi chorar, com dó da mulher atrofiada que
me encarava no espelho. Quando percebi que lágrimas não levariam a MSA embora,
voltei à piscina… E nela me reencontrei. Lá se vão 11 anos, muito mais tempo
do que qualquer doutor ousou prever. E cá estou eu, conquistando o pódio
paralímpico de natação pelo Brasil. Indo mais longe do que talvez jamais me
levaria o corpo livre de MSA que habitei um dia.

Encontrei minha
“cura” na piscina

Sou formada em educação física, já
fui nadadora convencional e participei de 13 Ironman – prova de triathlon que
inclui 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida. O esporte está
no meu DNA. Enquanto as meninas usavam as bonecas para brincar de casinha, eu
pintava uniformes nas minhas e as fazia competir. Treinar desde os oito anos me
garantiu os títulos de campeã gaúcha e recordista dos 400 metros e 800 metros
livre, 200 metros borboleta e 400 metros medley. É, eu me realizei muito na
piscina – e tive três lindos filhos fora dela.

Só que a vida não pede passagem e, de uma hora para outra, tudo ruiu.
Começou com meu casamento de 12 anos sendo vencido pelo desgaste. Em meio à dor
da separação inesperada e com uma filha pequena nos braços, passei a sofrer com
estranhos engasgos. Os primeiros médicos diagnosticaram esses sufocamentos como
síndrome do pânico. Duvidei. Sentia que não era algo passageiro. E estava
certa.

Em questão de semanas, eu, que corria e pedalava o dia inteiro, passei a
fazer força até para falar. Foi quando descobriram: eu tinha MSA. A doença se
manifestou de forma tão agressiva que alguns especialistas me deram de três a
seis meses de vida. Todo mundo sabe que vai morrer, mas ter data para isso
acontecer mexeu com a minha força interior. Apagaram minha luz.

 Passei por todas as fases do luto.
Negação, raiva, autopiedade… Ora, como não sentir pena de mim, quando tive de
mandar meus filhos irem morar com o pai, em 2007? Na época, eu precisava de
ajuda até para levar o garfo à boca. Já não conseguia cuidar de mim, imagina de
três crianças! Foi o pior dia da minha vida. Voltar para casa e encontrar os
brinquedos deles espalhados pelo chão… Descrente, escrevi cartas de despedida
para cada um. Hoje, cada dia sem entregá-las é uma vitória!

O tratamento englobava remédios, antidepressivos e fisioterapia.
Os médicos insistiam para que também fizesse hidroginástica. Só cedi em 2008,
quando cansei de ter dó de mim mesma. Em 2010, um treinador me viu na aula e
sugeriu que eu tentasse o esporte de maneira profissional. Já curada da
depressão, topei. Em dezembro do mesmo ano viajei para o Canadá para minha
primeira competição paralímpica. Venci os 400 metros livres e 200 metros
medley. Era dia 25, Natal. E eu me dei de presente uma nova Susana, que vive em
mim até hoje.

Susana Schnarndorf foi ouro no Mundial de Montreal, em 2013 – Washington Alves

Eu escolheria
passar por tudo de novo

Perder a capacidade de me bastar para o trivial me trouxe novos valores.
Acordar virou uma dádiva. Vibro com pequenas conquistas diárias, como conseguir
assinar meu nome sem ninguém por perto para segurar o papel. Aproveito e
agradeço cada segundo de vida.

Levo uma rotina ironicamente corrida. Levanto antes das 6h para tomar a
medicação do dia. Como fico enjoada na sequência, tiro uma horinha para meu
corpo melhorar. Treino das 8h30 ao meio-dia. Vou para casa no meu próprio
carro, compro meu almoço e descanso por uma hora. Às 16h30, já estou na piscina
de novo e lá fico até às 19h. Volto, janto e me preparo para dormir e começar
tudo de novo.

A rigidez muscular me obriga a fazer muita força para mexer o lado
esquerdo do corpo. Tenho só 40% da capacidade respiratória – falar é um
esforço! – e sofro de distúrbio de sono. Mas não reclamo: estou viva. Os
médicos desistiram de fazer previsões, pois elas não me norteiam. Como você e
todo mundo, enfrento meus medos diariamente. A diferença é olhar nos olhos
deles, não deixar que me dominem.

E se por isso eu inspirar uma pessoa que seja, já valeu mais do que
qualquer medalha. Como diz meu filho: “Mãe, teu sonho não é mais só teu, é de
muita gente que nada com você”. Pois quando mergulho levo todos que acreditam
em mim para a raia. Puxo o ar com mil pulmões! Se pudesse escolher entre a
Susana de antes e a de agora, eu passaria por tudo de novo. Assim como a Susana
livre da MSA não estaria aqui contando que chegou ao pódio Paralímpico Rio 2016
para receber a medalha de prata no revezamento misto 4 por 50 metros ao lado de
três feras: Daniel Dias, Clodoaldo Silva e Joana Silva. Ali, nosso time venceu.
E cada um de nós vence diariamente.

Susana Schnarndorf,
48 anos, nadadora paralímpica

Susana Schnarndorf na prova de peito no Mundial de Montreal, em 2013 – Washington Alves 

Ficha Técnica – Natação

Susana Schnarndorf, 48 anos – Porto
Alegre, RS

Deficiência

Portadora
de MSA – doença degenerativa de múltipla falência dos sistemas

Conquistas anteriores

Ouro
nos 100m peito e bronze nos 400m livre no Mundial de Montreal 2013; bronze nos
400m livre nos Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara 2011. Dona de cinco
títulos brasileiros no triatlo, 13 participações no Ironman e diversas
conquistas internacionais, entre elas, representar o Brasil nos Jogos
Pan-Americanos de 1995, em Mar del Plata

Conquistas Rio 2016

Prata
no revezamento misto 4x50m com Daniel Dias, Clodoaldo Silva e Joana Silva