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Dono, técnico e jogador: Roberto ‘Shouse’, na elite do futsal aos 65 anos

Chefe do único clube da região Norte da Liga Futsal conta os segredos de sua longevidade e sonha até em entrar para o Guinness Book

Por Danilo Monteiro - Atualizado em 26 out 2018, 11h25 - Publicado em 26 out 2018, 09h38

A maior estrela da Liga Futsal segue sendo o veterano ala Falcão, que neste fim de semana se despedirá da seleção brasileira, aos 41 anos. No entanto, um jogador 24 anos mais velho que o craque canhoto do Sorocaba também deu o que falar na edição de 2018 do torneio. Não propriamente por sua habilidade, mas por sua persistência. Roberto Martins, de 65 anos, não poupou esforços (e nem dinheiro) para realizar seu sonho: jogar com o clube paraense do qual é proprietário – a Shouse Futsal –, na liga mais competitiva da modalidade no país. A aventura de se expor em quadra em idade avançada lhe rendeu contestações e prejuízos financeiros, mas Roberto não se arrepende e projeta até entrar para o Guinness Book, o Livro dos Recordes.

O jogador mais velho da Liga Futsal é administrador da System House, uma empresa de tecnologia sediada em Belém, no Pará. Além da carreira empreendedora, Roberto se destacou em outra modalidade, o remo, e conquistou campeonatos locais, dos 17 aos 37 anos. O fim da carreira nas águas gerou problemas a Roberto, que ficou parado por cinco anos e teve de conviver com o aumento de peso. Com ajuda de amigos e funcionários, ele decidiu formar a equipe de futsal da Shouse, uma adaptação do nome de sua empresa. “Não imaginava que fosse envolver tantos recursos financeiros, mas é bom cometer alguma loucura quando surge a possibilidade de realizar um sonho.”

Roberto Martins em ação na Liga Futsal Shouse/Divulgação

Pai de quatro filhos, avô de quatro netos, administrador, presidente, técnico e jogador, Roberto só conseguiu disputar a Liga Futsal de 2018 ao bancar de seu próprio bolso 97% das despesas do clube – “centenas de milhares de reais”, segundo ele – e conciliar todos os afazeres para se manter preparado para os jogos. A falta de recursos acarretou em um desempenho péssimo da equipe (um empate e 17 derrotas no torneio), com raros momentos de destaque do dono-jogador. Nada que diminuísse a satisfação de Roberto por “inspirar jovens e mostrar que pessoas mais velhas também podem fazer coisas boas”.

Sua animação deve se estender ainda para o ano que vem, já que Roberto pretende colocar a Shouse novamente na liga e seguir “correndo atrás dos garotos”. Para isso, buscará apoio financeiro no Ministério do Esporte, pois não tem mais condições financeiras para arcar com todas as despesas. Confira, abaixo, a entrevista completa com Roberto Martins, o dono e jogador da Shouse.

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Como surgiu a ideia de criar a Shouse? Comecei a jogar futsal com meus filhos e amigos e começamos a disputar torneios amistosos, mas a brincadeira só durou um ano, porque percebemos que nosso nível era bom e que era possível jogar no Campeonato Paraense. Recebemos um incentivo do presidente da federação – na época, o coronel Astrogildo Piedade – e federamos o clube que viria a ter o nome de Shouse em 1997.

Como a equipe entrou na Liga Futsal? Desde 2004, o clube começou a subir de nível no âmbito regional, conquistamos dois títulos estaduais e duas edições da Copa Norte. Em 2015, a liga queria expandir para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e enviou uma correspondência para a Federação Paraense pedindo indicações de clubes que cumpriam com suas obrigações financeiras, estivessem em dia com as certidões e bem ranqueadas. A Liga nos convidou para participar do campeonato de 2017, mas perdemos a vaga para outros clubes do Sul e Sudeste. Mas em novembro do ano passado, quando eu já não achava que teríamos a oportunidade de jogar, a Liga entrou em contato e nos convidou para o campeonato de 2018. Nem pensei duas vezes, aceitei na mesma hora.

Por que a Liga escolheu a Shouse sobre clubes tradicionais como Remo e Paysandu? O convite da Liga foi para todos os clubes. Paysandu e Remo são muito fortes no futebol, mas não têm toda essa força no futsal adulto. Eles não têm um time fixo, são fortes apenas nas categorias de base. Nestes clubes, o futsal não é visto com tanto carinho, não há investimento. A dominância no futsal paraense, nos últimos dez anos, está com Shouse e Esmac.

É verdade que o senhor quer entrar no Livro dos Recordes? Em 2006, meu filho estava assistindo a um programa com vencedores do Guiness Book e me perguntou se eu já tinha verificado se era o jogador mais velho do mundo. Respondi que não e que nem precisava fazer isso, mas ele foi atrás, fez uma consulta formal. Certo dia, recebi uma correspondência em casa pedindo para entrarmos em contato para confirmar algumas informações, chegamos a conversar, mas, por falta de fatos novos, acabou caindo no esquecimento. Quem sabe retomamos isso no final deste ano. Para mim, não importa esse título, meu maior interesse é motivar os mais novos.

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A Liga exige maior cuidado com sua parte médica? A Confederação Brasileira de Futsal exige que atletas com mais de 35 anos façam três exames: eletrocardiograma, ecocardiograma e um ergométrico. Em 2014, tive um problema com então presidente Aécio de Borba Vasconcellos e o então vice-diretor Renan Tavares, pois eles queriam proibir jogadores acima de uma certa idade de disputar campeonatos da CBFS. Foi uma briga longa, cheguei a ficar de fora de torneios, mas conseguimos vencer e pude voltar a jogar os torneios da CBFS.

Qual foi o momento mais marcante? Nosso primeiro jogo no Mangueirinho, em Belém, um ginásio único, com padrão internacional. Foi um amistoso contra o Corinthians, eles estavam com o time completo. Foi nosso primeiro contato com o futsal classe A. Nesse jogo, quando acabou o primeiro tempo, estávamos perdendo apenas por 1 a 0 e jogando bem. O clima no vestiário era ótimo, eu estava eufórico, afinal o Corinthians era um dos favoritos ao título. E eu estava marcando jogadores de seleção brasileira, jogadores com porte físico bem mais elevado, então aquele momento no vestiário me marcou muito. O problema foi depois de voltar para o segundo tempo… Além de jogador, eu estava treinando o time e com o bom resultado no primeiro tempo, eu caí no erro de subir o time para o ataque e tomamos de 6 a 0 (risos).

Roberto Martins (esq) na partida contra o Corinthians, no Mangueirinho Shouse/Divulgação

O senhor tem algum auxiliar ou comanda a equipe sozinho? Tenho um auxiliar, o Ronaldo Arruda, mas ele assina as súmulas dos jogos da Liga Futsal como treinador. Ele é um cara com um histórico esportivo muito bom, já foi campeão paraense. Além de treinador, é um parceiro, um amigo, porque não é fácil para um cara com o histórico dele, aceitar de forma pública que ele é o treinador da equipe, mas não exerce essa função na prática.

Como o senhor define quando entrar e sair de quadra? Em todas as partidas, se eu não estiver contundido, suspenso ou tenha feito treinos péssimos, eu normalmente entro em quadra.

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“Como eu também faço o trabalho de técnico, eu sou muito crítico com as minhas atuações. Quando o Roberto treinador percebe que o Roberto jogador não está mais conseguindo acompanhar, é hora de mudar.”

Isso já causou algum problema no grupo? Não, eles me respeitam. Além de membros do time, são meus amigos, tanto que alguns jogadores estão lá comigo há 14 anos, alguns são como meus filhos, eu os ajudo também fora de quadra a se formar, se profissionalizar. Somos a família Shouse. Sempre digo que quando eu morrer, se eu chegar no inferno, vou dizer: “Não vou entrar, está aqui meu cartão e tem muito crédito de bondade”.

E como era a relação com os adversários? Houve desrespeito? Eu sou uma pessoa teimosa, competitiva, quero jogar sempre, mas quando fico cansado e até mesmo por causa da idade, eu paro de acompanhar os jogadores na marcação e, em algumas oportunidades, torcedores no Pará ficavam gritando ‘vai cuidar do neto’ e coisas deste tipo, mas não perco a cabeça porque é natural, são torcedores. Posso garantir que na Liga nunca houve nenhum tipo de desrespeito, foi muito gratificante, levamos 17 pancadas durante o torneio, mas atingi meu objetivo social. Tirei muitas fotos com crianças, pessoas mais velhas, fui um bom exemplo para eles.

Como é sua preparação física? Esse é o maior problema. Eu tenho uma empresa, então preciso dar maior atenção para ela. Pela minha idade, o ideal seria uma preparação mais elaborada e intensa. Nosso time treina três vezes por semana e eu participo de todos os treinos, mas ainda não é o suficiente. Para o ano que vem, decidi que terei um período mais ou menos sabático na empresa e me dedicar à Liga. Tenho uma vida regrada, só saio para eventos que envolvam reunião de familiares e me alimento basicamente de frutas, legumes, frango e carne. Nem açaí entra na minha dieta, porque o nosso açaí puro é diferente do açaí do Sul – servido em pouca quantidade, com granola e banana –, ele é pesado e dá sono depois de tomar.

“Se conseguirmos participar da Liga no ano que vem, podem me cobrar uma melhor preparação. Aos 66 anos, vou estar correndo atrás dos garotos.”

Roberto contra o Sorocaba Shouse/Divulgação

A Shouse recebeu o Magnus Sorocaba, time do Falcão, mas ele não foi à Belém. Como o senhor lidou com isso? Esse foi um dos grandes problemas que nós tivemos, o descrédito. Dentre as maiores despesas que tivemos, estava o Mangueirinho. Nós esperávamos um retorno de público melhor. Tivemos sorte que em nossos primeiros jogos em Belém foram contra times top. Infelizmente, nosso jogo contra o Magnus Sorocaba marcou a plateia, aqueles que não conheciam tanto de futsal. Fizeram várias propagandas que o Falcão iria jogar, mas, às vésperas do jogo, fomos informados de que ele não viajaria por causa de uma lesão e isso criou o descrédito, a gente anunciava uma coisa e entregava outra. No jogo seguinte, contra o Joinville, atual campeão, era triste de ver um ginásio com capacidade de 12.000 pessoas praticamente vazio, com umas 200 pessoas.

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O senhor acha que tem como melhorar o público? Tem sim. Nesse ano, tive de honrar meus compromissos com a Liga Futsal, que exige muito dos clubes, e priorizei as despesas. Por causa disso, não pude chamar outros jogadores, não pude investir em uma estrutura melhor. Em janeiro, chamamos os cinco melhores atacantes de Belém, acertamos valores e tudo. Infelizmente, os dois grandes patrocinadores que mostraram interesse em nos ajudar, nos mandaram um ofício avisando que seus recursos seriam destinados a outros eventos. Isso nos prejudicou muito e não conseguimos acertar com nenhum dos cinco jogadores.

O senhor se arrepende de alguma coisa? Não. A Shouse me dá um prejuízo financeiro muito grande, é uma despesa grande, tiro dinheiro do próprio bolso para honrar meus compromissos, mas era um sonho jogar a Liga Futsal, não me arrependo de nada. Minha esposa poderia estar achando ruim, mas ela me deu muito apoio.

Qual o motivo dos problemas financeiros? Falta interesse dos patrocinadores de Belém, lá só existe o futebol, sobra muito pouco para outras modalidades, por isso temos essa dificuldade. Quem nos ajuda é a prefeitura, por meio de uma lei de incentivo, mas são valores baixos para a Liga Futsal, não representa nem duas viagens que temos de fazer. Também recebemos ajuda de uma loja de materiais esportivos e uma pequena empresa de serviços médicos de Belém.

A Shouse volta para a Liga Futsal em 2019? Estou com um projeto chamado “Shouse na Liga Nacional”. O objetivo é angariar recursos no Ministério do Esporte para nos ajudar a retornar ao torneio no ano que vem. A Liga Futsal tem interesse na nossa volta, agora só depende do nosso projeto e de patrocinadores. Se tivermos condição financeira – eu não tenho mais como pagar as despesas – a vaga é nossa.

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O senhor planeja continuar jogando no ano que vem? Com certeza. Eu tive muita sorte, minha constituição física permite minha musculatura tenha um tempo de recuperação muito abaixo da minha idade. Minha musculatura responde a estímulos como a de um homem na faixa de 35 anos. O que eu preciso mesmo é de tempo para me preparar melhor.

Equipe da Shouse posa para foto durante a Liga Futsal 2018 Shouse/Divulgação
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