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Do Grajaú a Baku: Richard, um brasileiro na seleção do Azerbaijão

Nascido em São Paulo, meia de 29 anos faz sucesso no Oriente, onde conquistou seis títulos nacionais e desafiou grandes craques

Richard Almeida de Oliveira é um meio-campista paulistano desconhecido no Brasil, mas que faz sucesso na longínqua Europa Oriental. Em outubro, ele viveu seu melhor momento ao marcar dois importantes gols pela seleção do Azerbaijão na disputa da Copa das Nações. A história profissional do atleta canhoto começou no time do Santo André, vice-campeão paulista em 2010. Hoje, aos 29 anos, Richard acumula seis títulos nacionais seguidos, cinco no Azerbaijão e um no Cazaquistão – e quer seguir fazendo história no Oriente.

Natural de Parque Grajaú, zona Sul de São Paulo, Richard disputou poucas partidas pelo Santo André e foi beneficiado por uma parceria do clube do ABC paulista com o Gil Vicente, de Portugal. Após dois anos na Península Ibérica, chegou ao Qarabag, do Azerbaijão, em 2012 e, logo em seu ano de estreia, foi artilheiro do clube na temporada 2012/2013, com 14 gols, sempre usando a camisa 20. Curiosamente, esse foi o único ano em que não foi campeão, terminando na segunda colocação. Nos cinco anos seguintes, foi campeão Azeri e em 2018 já conquistou o Campeonato Cazaque, em seu primeiro ano pelo Astana.

Casado com Camyla Pamela, que conheceu em seu bairro, tem uma filha, Manuela, e espera a segunda, Valentina, que deve nascer no começo de fevereiro de 2019. Com a família tranquila no antigo território soviético, Richard não pensa em retornar ao Brasil no momento. E desfruta de oportunidades marcantes, como enfrentar craques do Chelsea e da seleção alemã – da qual perdeu “apenas” de 5 a 1. “Até brinquei depois do jogo que nosso saldo foi melhor que o do Brasil”, diverte-se, lembrando o 7 a 1 de 2014.

Richard Almeida, do Qarabag, comemora após marcar gol de pênalti durante partida contra o Tottenham, pela Liga Europa. (Bryn Lennon/Getty Images)

Veja, abaixo, a entrevista completa:

Com foi a mudança do Santo André para o futebol europeu? Chegamos à final do Campeonato Paulista com o timaço dirigido pelo Sérgio Soares, mas tive poucas chances. Na partida contra o Rio Claro fui expulso com 15 segundos em campo, no meu primeiro dia como profissional (risos). Ao final do torneio, o Santo André negociou diversos jogadores, como Rodriguinho e Bruno César. Isso abriu espaço para eu jogar e nos primeiros quatro jogos da Série B tive oportunidade de ser titular. Nosso presidente (Ronan Maria Pinto) tinha uma amizade com um empreendedor do Gil Vicente e fizeram uma parceria para a ida de alguns jogadores para Portugal. Fomos Júnior Caiçara, Ramazotti e eu em contrato de empréstimo.

Como foi a passagem por Portugal? Caiçara, Ramazotti e eu ficamos dois anos por lá. No primeiro ano já conquistamos a segunda divisão portuguesa. Eles queriam nos contratar para jogar a primeira divisão, mas o Gil Vicente não pagou na data certa. Para não voltarmos ao Santo André e disputar a Série C do Campeonato Brasileiro, ficamos mais um ano por empréstimo. Fomos finalistas da Taça da Liga contra o Benfica e perdemos a decisão por 2 a 1.

O que te levou ao Azerbeijão? Quando acabou o Campeonato Português, o Qarabag mandou uma proposta de compra concreta para mim. Fui para o clube em 2012 e lá começou minha caminhada. No começo estava tudo certo para eu jogar na Polônia, no Legia Varsóvia, mas no mundo do futebol você vai dormir em um lugar e acorda no outro. Foi tudo muito rápido. Acordei com meu empresário me ligando, falando de uma oferta muito boa do Azerbaijão, mas meu pai não queria deixar que eu fosse, com medo de ameaças de bomba. Mas financeiramente eu não poderia negar.

E como foi a adaptação à cultura, língua e alimentação nesse novo país? (O Azerbaijão é uma ex-república soviética que faz divisa com Geórgia, Armênia e Irã, e é banhado pelo mar Cáspio, onde se encontra a capital Baku). Ao chegar lá foi um choque, porque eu sequer sabia falar inglês. A religião deles é diferente, a cultura, a comida. Nunca comi tanto carneiro na vida. Hoje, não consigo sequer comer mais. Tem muito Kebab de carneiro, carne de cavalo, coisas às quais não estamos acostumados. Nos primeiros anos, tanto o treinador quanto os jogadores me ajudaram. Eles perceberam que eu era uma boa pessoa, um bom jogador, e tinha chegado para ajudar o time. Até hoje tenho um carinho por eles, que sentem minha falta e pedem para que eu volte. O maior sinal disso foi quando acabou o campeonato, que o presidente do clube agradeceu a mim, minha família. Só tenho a agradecer o olheiro que me levou ao Azerbaijão e dizer que esses seis anos foram os melhores da minha vida. Melhorei como pessoa e como jogador. A cultura deles me ensinou a ser mais humilde, respeitar o próximo, ajudar. Eu acho que isso foi o mais importante.

Richard Almeida, do Qarabag, durante partida contra o Atlético de Madri, pela Liga dos Campeões. (Shot For Press/ Action Plus/Getty Images)

Você começou a carreira como um meia mais ofensivo. Por que optou por recuar? Eu era o número 10 do time, mas virei segundo volante com a chegada do Chumbinho, que jogou no São Paulo, no meu segundo ano de Qarabag. O treinador perguntou se eu gostaria de jogar como segundo volante, e eu aceitei. Gosto de pegar na bola toda hora, de armar a jogada.

Gurban Gurbanov, que hoje treina a seleção do Azerbaijão, é a pessoa mais influente em sua carreira? Sim, foi ele quem viu meus jogos em Portugal e pediu minha contratação ao Qarabag. Ele é quem manda por lá. Existe o presidente, mas ele deu carta branca a Gurbanov, que está há 10 anos na equipe (desde 2018, divide o trabalho entre o Qarabag e a seleção do Azerbaijão), para contratar quem ele quiser. Ele tem muita moral no país e ganhou neste ano o posto de treinador da seleção.

Pelo Qarabag, você disputou a última edição da Liga dos Campeões e jogou contra Atlético de Madri, Chelsea e Roma. Como foi essa experiência? São minhas melhores lembranças. No ano passado formamos um time muito bom, com o atacante sul-africano Ndlovu, o meia Pedro Henrique, que chegou por empréstimo do PAOK (Grécia) e dois jogadores espanhóis (Míchel e Dani Quintana). Sempre sonhei em jogar a Liga dos Campeões, pois assistia pela televisão, mas nunca imaginei disputá-la. Fiquei muito emocionado, chorei. Era um sonho realizado para mim e para a minha família, pela batalha desde pequeno. Quando fomos jogar contra o Chelsea lá eu fiquei emocionado demais. Jogar contra Willian, Hazard, jogadores de seleção, foi uma honra (foi a estreia do time na fase de grupos, em Londres, e terminou com vitória dos ingleses por 6 a 0).

Richard Almeida, do Qarabag, disputa bola com Willian, do Chelsea, pela Liga dos Campeões. (John Walton/PA Images/Getty Images)

E como se deu sua mudança para o Cazaquistão? Representou um crescimento esportivo para você? No Qarabag eu tinha tudo. O futebol do Azerbaijão dá uma estrutura muito boa para os jogadores. São oito times no torneio, todos com qualidade, pagando ótimos salários aos jogadores, todos pagos em dia, mas a proposta do Astana foi muito boa e eu não podia rejeitar. Eu já havia dito ao treinador em janeiro deste ano que não renovaria meu contrato com o Qarabag, porque eu queria jogar em outro lugar, viver outra cultura. Estava tudo certo para eu jogar no Al Jazira, dos Emirados Árabes Unidos, mas o treinador do Astana (Roman Hryhorchuk), que dirigia o Gabala (rival do Qarabag) foi para o Azerbaijão na época e pediu a meu empresário uma reunião. Eu neguei diversas vezes ir ao Astana, mas no final chegou uma oferta em que eu e meus familiares estudamos e acabei assinando um contrato de dois anos. Como sou um jogador pouco conhecido no Brasil e nas grandes ligas europeias, resolvi ficar por aqui. O campeonato aqui é bom, mas desejo retornar ao Qarabag, não sei se no próximo ano, pois os dirigentes de lá me querem de volta. Talvez eu fique mais um ano. A única parte ruim aqui é o frio.

(O campeonato Cazaque é disputado por 12 clubes entre março e novembro devido ao intenso inverno no fim do ano. A última rodada será disputada neste domingo, mas o Astana já se sagrou campeão de forma antecipada).

Richard Almeida, do Astana (amarelo), disputa lance com Serhiy Sydorchuk, do Dínamo de Kiev, em partida da Liga Europa (Sergei Supinsky/AFP)

Como foi o processo de naturalização para você jogar pela seleção do Azerbaijão? Desde o meu primeiro ano lá eles manifestaram desejo em me ter na seleção, mas eu não podia por não ter familiar que viesse do país. Por isso, tive de esperar quatro anos e meio para dar entrada no passaporte azeri na Fifa. Quando consegui, o treinador da seleção na época, o ex-ídolo croata Robert Prosinecki (terceiro colocado na Copa de 1998, que dirigiu o time do Azerbaijão entre 2014 e 2018), que jogou no Real Madrid e Barcelona e também fala espanhol, me convidou para tomar um café e perguntou sobre a naturalização. Eu respondi que estava encaminhada e, se ele quisesse, jogaria pelo time com maior prazer, porque foi onde construí minha vida. Tudo que tenho na minha vida devo ao Azerbaijão, ao Qarabag. O Prosinecki e o presidente da Federação ligaram para o treinador do Qarabag e me convidaram para visitar a AFFA (Associação de Federações do Futebol do Azerbaijão) e meu treinador me convenceu, porque é uma honra jogar na seleção.

Mas você se sente um representante azeri? Claro, comecei a jogar pela seleção porque amo o Azerbaijão e quero ajudar o país. Claro que também gostaria de jogar pela seleção brasileira, mas eu estou “no fim do mundo” aqui, né? Caso estivesse na Itália ou na Espanha, as chances eram maiores, mas financeiramente para mim não vale a pena ir para esses países.

Como foi sua estreia pela seleção? Foi nas Eliminatórias para a Copa do Mundo em 2017, contra a Irlanda do Norte. Também joguei contra Alemanha, República Checa, Noruega, San Marino…

Qual foi a partida mais marcante? Contra a Alemanha, né? Para mim foi incrível, a mesma sensação que tive na Champions League. Assistir àqueles caras jogando no Campeonato Alemão, Inglês, e depois jogar contra eles… escutar o hino de qualquer país que seja, enfrentar uma grande seleção, é algo que nunca tinha imaginado na vida. Cheguei onde poucos chegaram.

Vocês perderam a partida de 5 a 1. Foi melhor do que o resultado do Brasil, né? Rapaz. Eu até brinquei no vestiário: “pelo menos perdemos só de 5 a 1”, ficamos com um saldo melhor, né? (risos).

Em outubro, você marcou seus dois primeiros gols oficiais pela seleção, na Copa das Nações, na vitória de 3 a 0 contra Ilha Faroe. Qual foi a sensação? Foi emocionante. Já tenho três gols pela seleção (o outro veio em empate de 1 a 1 contra a Macedônia, em amistoso disputado em março 2018) e me satisfaz porque eu ajudo o país. Faria tudo por ele. Temos dois jogos importantes em novembro pela Copa das Nações, contra Ilhas Faroe em casa e contra Kosovo, fora. Brigamos para sermos os primeiros do grupo justamente contra o Kosovo (O Azerbaijão é segundo colocado com seis pontos, a dois do Kosovo. Ilhas Faroe têm quatro e Malta tem dois. O primeiro colocado da chave garante vaga nas semifinais da quarta divisão e garante acesso à terceira divisão na próxima disputa). Kosovo tem um time muito bom, com vários jogadores que disputam a Liga Alemã e, por isso, são melhores que os jogadores do Azerbaijão.

Richard Almeida posa para foto com sua esposa Camyla e a filha Manuella (Facebook/Reprodução)

Tem desejo de voltar a jogar no Brasil? Depois que joguei a Liga dos Campeões, apareceram umas quatro oportunidades de jogar no Brasil. Diretores do Atlético-PR entraram em contato comigo para saber da minha situação, pois eles precisavam de um volante que jogasse em todo o campo, mas eu teria de me adaptar, pois estou jogando há muitos anos fora e o negócio não foi para a frente. Outros três clubes tiveram interesse, mas preferi ficar na Europa pela criação da minha filha, para minha esposa e eu aprendermos melhor o inglês, mais sobre a cultura.

Ao término de sua carreira, você voltará ao Brasil ou viverá no Azerbaijão? Prefiro voltar para o Brasil. Não gosto muito de frio. Falo para minha esposa que quero morar na praia. Passei tantos anos fora do Brasil, visito apenas uma vez por ano, durante minhas férias, que estão chegando. Mas a vida nos guarda surpresas. Não sei se vou me tornar treinador. Posso até trabalhar no Qarabag.