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Diretor do presídio paraguaio descreve o mês de Ronaldinho na cadeia

Blas Vera, chefe do Grupamento Especializado da Polícia Nacional, em Assunção, falou a VEJA sobre o comportamento do craque durante os 32 dias de reclusão

Por Alexandre Salvador - Atualizado em 9 abr 2020, 13h16 - Publicado em 9 abr 2020, 09h47

Força. Para Blas Vera, chefe do Grupamento Especializado da Polícia Nacional em Assunção, no Paraguai, essa é a principal característica de Ronaldinho Gaúcho que, ao lado de seu irmão/empresário Roberto Assis, ficou detido no quartel transformado em presídio por 32 dias após a acusação de uso de documentos falsos no país vizinho em 4 de março. O ex-jogador foi transferido na terça 7 para um hotel da capital onde irá cumprir prisão domiciliar.

“Ronaldinho é uma pessoa muito forte. Falei com ele por diversas vezes e ele me dizia que vivia uma situação que qualquer um poderia passar. E que, por alguma razão, aconteceu com ele. Ele tinha certeza do esclarecimento das coisas, mas que era necessário um tempo para que isso acontecesse”, afirmou Blas Vera a VEJA, que há nove meses é comandante do Grupamento.

Amante do futebol, o diretor da instalação cuja capacidade é de 200 presos, ressaltou o bom comportamento das celebridades brasileiras. “Foi uma bela experiência para mim, apesar das circunstâncias que possibilitaram esse encontro (de Ronaldinho) comigo. Mas sempre tratei de manter a calma, pois minha obrigação e responsabilidade neste caso é enorme. Não podia me deixar tomar pela emoção. Já tivemos várias personalidades presas aqui, mas do universo futebolístico, foi a primeira.”

Na ala em que o ex-jogador e seu irmão ficaram alojados, destinada na grande maioria a presos que ainda aguardam um julgamento, as regras são poucas. Não há um horário de acordar, nem grades ou cadeados nas celas. “O interno pode descansar até o horário que desejar. Mas se não acorda cedo, não toma café, entende?”, diz Vera.

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Nos primeiros dias de reclusão, Ronaldinho ainda parecia digerir o que havia passado, na visão do diretor do presídio. “Sempre recomendei a ele fazer caminhadas ou a praticar algum esporte. Aos poucos, ele foi ficando mais animado com a ideia. A primeira vez que jogou futsal com outros detentos, tudo começou com uma caminhada. Depois disso, não parou mais. Praticava esporte quase todos os dias. Primeiro o futsal, depois passou a jogar futevôlei também.”

Blas Vera já teve que lidar com outros presos mais complicados que os irmãos Assis Moreira. Um deles foi um dos maiores traficantes do Paraguai, que depois foi extraditado para o Brasil: Jarvis Gimenes Pavão, que viveu muito tempo na fronteira, entre Pontaporã e Pedro Juan Caballero. “Esses, sim, nos traziam dor de cabeça, pois era preciso dobrar, as vezes triplicar as medidas de segurança”, garante o diretor do Grupamento Especializado.

A cela dividida por Ronaldinho e Assis tinha cerca de 15 metros quadrados (3m x 5m). Além das duas camas de solteiro, seus advogados equiparam o quarto com televisão, ventilador, geladeira e uma cafeteira (regalia que é permitida aos demais presos). O banheiro era comunitário e ficava do lado de fora da cela. “Ele tinha que entrar na fila. Nos primeiros dias, chamava a atenção a muitos o fato de que Ronaldinho tinha que esperar sua vez para usar o banheiro”, relembra Blas Vera.

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A despedida na última terça-feira foi amistosa. Rendeu ao chefe do presídio, inclusive, uma foto de recordação (algo que parece usual a cada visita de Ronaldinho em uma repartição pública paraguaia). “Nessa hora os dois me agradeceram por tudo, disseram que foram muito bem tratados. Eles saíram daqui sem reclamação de qualquer pessoa do Grupamento. ‘Todos são gente boa’, foi o que disseram.”

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