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Corintiano e vítima de Raí: Biurrun, o único brasileiro do Athletic Bilbao

Nascido em São Paulo, ex-goleiro deixou o Brasil com apenas cinco anos e fez sua carreira nos grandes do País Basco, que se enfrentam neste domingo

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 9 fev 2020, 12h51 - Publicado em 9 fev 2020, 07h30

SAN SEBASTIÁN – O Athletic Bilbao mantém há mais de 100 anos a política de limitar a contratação de estrangeiros – apenas atletas nascidos ou formados no País Basco estão aptos a vestir as cores vermelha e branca no estádio San Mamés. No entanto, devido a uma combinação inusitada de circustâncias, um brasileiro passou não só pelo Athletic quanto por seu rival, a Real Sociedad, que na época também estava fechada ao mercado estrangeiro. Em visita pelo País Basco para acompanhar o dérbi deste domingo 9, que começa às 10h (de Brasília), PLACAR se encontrou com Vicente Biurrun, ex-goleiro nascido em São Paulo. Apesar de ter deixado o Brasil com apenas cinco anos, ele diz torcer pela seleção brasileira nas Copas do Mundo e também pelo Corinthians.

Aos 60 anos, Biurrun é hoje agente de futebol e segue vivendo em San Sebastián, bem distante do bairro do Brás, onde nasceu. Fez carreira nos clubes do País Basco: debutou pela Real Sociedad, passou pelo Osasuña, e, enfim, pelo Athletic, onde viveu seus melhores momentos e chegou à seleção basca (equipe nao reconhecida pela Fifa) e também à espanhola. Passou ainda pelo Espanyol, onde guarda más lembranças de um encontro com o São Paulo, de Raí e companhia. Em puro castelhano (jamais aprendeu português), Biurrun contou sua história a PLACAR:

Vicente Biurrun
Figurinha de Vicente Biurrun na década de 80 .

Como sua família foi parar no Brasil? Meu pai era torneiro mecânico e foi para o Brasil em um momento de dificuldades para tentar fazer dinheiro. Minha mãe foi depois e nascemos eu e meu irmao no bairro do Brás, na rua 21 de abril, em 1959. Vivi em São Paulo até os cinco anos, infelizmente o negócio não funcionou e em 1964 minha família decidiu voltar para o País Basco.

E depois disso nunca mais voltou a sua terra natal? Nunca. Meu irmão foi recentemente, disse que é um bairro bem pobre e que nossa casa já não existe mais. Sou basco, mas por essa casualidade de ter nascido ali sempre tive muita simpatia pela seleção brasileira nas Copas do Mundo e também pelo Corinthians.

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Então o senhor é corintiano? Eu brinco que é meu time de lá. Não sei por que, tenho uma foto muito pequeno com uma camisa branca e preta do Corinthians e uma bola no pé. Então sempre digo que no Brasil torço para o Corinthians.

E quais foram suas referências do futebol brasileiro? Várias. Pelé, Zico… Minha primeira recordação é a Copa de 70, aquele time com Jairzinho. Depois vieram vários craques.

E enfrentou algum desses craques brasileiros? Sim, me lembro que em 1991, joguei contra o São Paulo daquele jogador famosíssimo, nao me lembro o nome… Raí! Foi um torneio Cidade de Barcelona, o São Paulo era um dos melhores times do mundo. Perdemos de 4 a 2, Raí marcou um gol. Não é uma das minhas melhores recordaçoes.

Como começou sua história no futebol? Vim com cinco anos para San Sebastián. Aqui, como no Brasil, se joga muito futebol no praia, e eu também comecei ali. Meu pai jogava e eu treinava com ele no gol. Joguei em vários times de praia até que a Real Sociedad me chamou para o juvenil. Cheguei ao time principal em 1981 e participei do segundo título da Real Sociedad. Nessa época não havia como jogar, pois o titular era Luís Arconada, o melhor goleiro do país, mas foi um período em que aprendi muito.

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E como chegou até o rival Athletic Bilbao? Antes eu passei pelo Osasuña, outro clube da região, onde estive por três temporadas e joguei a Copa da Uefa. E aí sim fui contratado pelo Athletic, o que diminuiu um pouco essa cobrança por jogar no rival. Em Bilbao vivi o melhor momento da minha carreira, joguei durante quatro anos seguidos.

Com qual dos dois se sente mais identificado? A Real sempre foi meu clube, da minha cidade, mas acontece que vivi meu auge no Athletic, fui mais feliz ali.

Quais são as principais diferenças entre os clubes? Creio que os torcedores do Athletic sao mais eufóricos, mais fiéis ao time da cidade. Aqui em San Sebastián as pessoas são mais frias. Cada um tem sua história. A Real Sociedad é um time que trabalha melhor sua categoria de base, na minha opinião. O Athletic olha mais para os vizinhos. Por sua filosofia de só contratar bascos, tem de buscar os melhores da região e por isso é tão antipopular por aqui.

O senhor também é um dos poucos que atuaram pela seleção espanhola e pela basca, não? Sim. Não cheguei a participar de jogos oficiais pela seleção espanhola, fui reserva do Zubizarreta, outro grande goleiro basco. Fiz amistosos antes da Copa de 1990, mas foi no fim não fui chamado. Ao menos me deram um relógio de consolação, dei de presente para minha mulher (risos).

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E havia problemas entre os bascos e os atletas de outras regiões da Espanha? Na minha época nunca houve nada, nos davamos berm com catalães, madrilhenos, a relação era boa, até porque havia muitos bascos no time. Acho que talvez exista mais problema hoje.

O que faz agora? Sou agente de futebol. Depois que deixei os campos em 1995, um amigo me propôs que o ajudasse e gostei, estou há 25 anos no ramo. Hoje mesmo estava vendo uma partida juvenil para captar talentos. Busco atletas de 12 a 20 anos.

Algum palpite para o dérbi de hoje?
Hombre… Nos dérbis, fico feliz qualquer que seja o resultado (risos).

Vicente Biurrun, ex-jogador do Athletic Bilbao e da Real Sociedad
Vicente Biurrun, ex-jogador do Athletic Bilbao e da Real Sociedad La Liga/Divulgação

(PLACAR está em Euskadi (País Basco, em euskera) para conhecer a cultura do futebol local. Confira bastidores das passagem por Bilbao, Eibar, Vitoria e San Sebastián nos stories no Instagram da revista

 

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