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Copa América: Como era o Brasil e o mundo no último título da Argentina

Se 1993 parece distante para você, imagine para um torcedor argentino. VEJA relembra os grandes acontecimentos daquele ano na política, cultura e esporte

Por Alexandre Senechal - Atualizado em 2 jul 2019, 11h42 - Publicado em 2 jul 2019, 11h00

São 26 anos. O último título de alguma relevância da seleção argentina aconteceu no longínquo ano de 1993, quando a equipe liderada pelo cabeludo atacante Gabriel Batistuta bateu o México na finalíssima da Copa América disputada no Equador. Desde então, nossos vizinhos e rivais não repetiram o gesto de levantar uma taça e esse jejum assombrou todas as gerações subsequentes. Em um quarto de século, muita coisa mudou no Brasil e no mundo (outras, nem tanto). Horas antes do confronto decisivo desta terça-feira contra a seleção brasileira, VEJA relembra os fatos relevantes daquela época na política, na cultura e no esporte na lista abaixo. Confira:

A gestação do Real

Fernando Henrique Cardoso (Ministro da Fazenda), e Pedro Malan, durante coletiva no Ministério da Fazenda – 30/03/1994
Neg.: 94-5587
Gustavo Miranda / Agência O Globo Gustavo Miranda/Agência O Globo

Fernando Henrique Cardoso ainda era o Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e tinha como missão central acabar com a hiperinflação que corroía o poder aquisitivo dos brasileiros – em 1993, o índice acumulado do ano bateu os 2.477%. Ao lado do então presidente do Banco Central, Pedro Malan, e com a participação de economistas como Edmar Bacha, André Lara Resende, Gustavo Franco e Pérsio Arida, FHC iniciou um programa para estabilizar a economia. Naquele ano, a moeda vigente no país mudou de Cruzeiro para Cruzeiro Real, e que logo após seria atrelada à unidade real de valor (URV), indexador de preços que serviu de base para a criação do Real em 1994.

O “Fusca do Itamar”

O presidente Itamar Franco dentro de um Fusca na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, 1993
O presidente Itamar Franco dentro de um Fusca na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, 1993 Masao Goto Filho/AE/VEJA

O Fusca já era considerado antiquado naquela época. Tanto que havia deixado de sair das fábricas brasileiras da Volkswagen em 1986. Itamar Franco, o político mineiro que assumiu a presidência após o impeachment de Fernando Collor, se assustou com os preços dos carros no Salão do Automóvel e pediu ao mercado um veículo mais acessível ao bolso da população. Para ajudar, o presidente aprovou a lei do carro popular, que dava isenção de impostos para a produção de modelos desse tipo, e assim nasceu o “Fusca do Itamar”. A velha nova, entretanto, não causou grande comoção. O Fusca foi apenas o 18º automóvel mais vendido em 1993 – o Gol, da mesma fabricante alemã, foi o líder de emplacamentos.

A prisão do homem-bomba de Collor

02-12-1993: O empresário PC Farias, tesoureiro da campanha eleitoral de Fernando Collor de Mello e acusado dos crimes de corrupção que motivaram o impeachment do ex-presidente. Preso em Bancoc, Tailândia, onde estava foragido, volta para o Brasil escoltado pela Polícia Federal Ormuzd Alves/Folhapress/Folhapress

Digna de roteiro, a fuga de Paulo César Farias, o nebuloso tesoureiro da campanha de Fernando Collor à presidência, criador de um esquema que movimentou mais de 1 bilhão de dólares dos cofres públicos, movimentou o ano de 1993. PC foi indiciado em fevereiro em dez inquéritos, por corrupção ativa, emissão de notas frias, falsidade ideológica, evasão de divisas e exploração de prestígio. Desapareceu na véspera da decretação de sua prisão preventiva – ele saiu do país em um avião bimotor, pelo Paraguai – e só foi encontrado em novembro na Tailândia, onde foi preso e enviado de volta para o Brasil. O final dessa história todos se recordam: PC Farias acabou morto em 1996 ao lado da namorada, em uma casa de praia no litoral de Maceió.

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O sortudo “Anão do Orçamento”

20-09-1991: O deputado federal João Alves Ailton de Freitas/Folhapress/Folhapress

A relação promíscua entre políticos e as maiores empresas da construção civil do Brasil não é exclusividade dos dias atuais. Há duas décadas, um grupo de parlamentares se envolveu em fraudes em emendas pagas com recursos da União. O escândalo, revelado em 1993 graças a uma Comissão Parlamentar de Inquérito, ficou conhecido como o caso dos “Anões do Orçamento” – a alcunha decorre do fato de os envolvidos serem deputados sem grande expressão, portanto “anões” no sistema político brasileiro. O deputado João Alves, acusado de liderar o esquema de desvio, atribuía seu patrimônio de 5 milhões de dólares ao absurdo de ter ganhado muitas vezes na loteria. “Deus me ajudou”, chegou a afirmar o político, que acabou renunciando ao mandato para evitar a cassação na Câmara. Alves morreu em 2004.

Um aperto de mão histórico na Casa Branca

O primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e o líder palestino Yaser Arafat se cumprimentam em Washington - 13/09/1993
O primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin e o líder palestino Yaser Arafat se cumprimentam em Washington – 13/09/1993 Cynthia Johnson/Liaison/Getty Images

1993 foi o ano em que Bill Clinton tomou posse como o 42º presidente dos Estados Unidos. Logo no início de seu mandato, o ex-governador do Arkansas protagonizou um encontro histórico. Ele foi o mediador das conversas entre o então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, e o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat. O cumprimento público entre dois inimigos históricos, realizado nos gramados da Casa Branca, a sede do governo americano na capital Washington, representava a esperança de se atingir a paz no Oriente Médio. Embora seja uma imagem emblemática, o entendimento entre palestinos e israelenses nunca foi atingido na prática.

O que bombava na música, no cinema e na televisão em 1993

I Will Always Love You foi a música mais tocada do ano, segundo a revista americana Billboard, especializada na indústria musical. A música, entoada originalmente por Dolly Payton em 1974, fez sucesso na voz da diva americana Whitney Houston. A cantora regravou a canção para a trilha sonora do filme O Guarda-Costas, do qual foi protagonista. Já nas paradas brasileiras, Que Se Chama Amor, do grupo de pagode Só Pra Contrariar, foi a faixa mais escutada em território nacional.

O Brasil entrava na rota dos shows internacionais

Madonna durante a turnê
Madonna durante a turnê “The Girlie Show” no estádio do Morumbi, em São Paulo, em 1993 Antonio Milena/VEJA

Ir a algum grande show no Brasil já tornou-se hábito quase corriqueiro. Há 26 anos, porém, não era algo tão comum assim. O ano de 1993 marcou justamente a chegada das megaturnês internacionais ao país. Entre outubro e dezembro daquele ano, astros como Madonna, Michael Jackson e Paul McCartney se apresentaram ao vivo para os brasileiros. Michael Jackson cantou duas vezes no estádio do Morumbi. Madonna também fez dois shows: o da foto acima, em São Paulo, e outro no Maracanã, com direito a arriscar algumas palavras em português e vestir uma camisa do Flamengo.

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Ano da consagração do diretor Steven Spielberg

Cena do filme ‘Jurassic Park’, de 1993 Murray Close/Getty Images/Getty Images

Dois filmes dirigidos por Steven Spielberg foram sucesso de bilheteria em 1993. Jurassic Park trouxe os dinossauros para as telas dos cinema e arrecadou 914 milhões de dólares – a maior receita da indústria cinematográfica até o lançamento de Titanic, em 1997. Já A Lista de Schindler era uma motivação pessoal de Spielberg: filho de judeus, o diretor quis retratar os sofrimentos sofridos na Segunda Guerra Mundial. Os dois foram premiados no Oscar do ano seguinte e a história sobre o Holocausto rendeu a primeira estatueta de melhor diretor para Spielberg.

Na TV brasileira, o que fazia sucesso era a novela Renascer

Em Renascer, de 1993, da Rede Globo, o fazendeiro Zé Inocêncio (Antônio Fagundes) tinha uma relação de ódio com o filho João Pedro (Marcos Palmeira, na foto acima).
Em Renascer, de 1993, da Rede Globo, o fazendeiro Zé Inocêncio (Antônio Fagundes) tinha uma relação de ódio com o filho João Pedro (Marcos Palmeira, na foto acima). veja.com/VEJA

Uma das novelas de maior sucesso daquela década foi ao ar em 1993. Escrita por Benedito Ruy Barbosa, Renascer tinha como trama principal a briga de José Inocêncio (interpretado por Antônio Fagundes) com seu filho mais novo João Pedro (papel de Marcos Palmeira). A morte da esposa durante o nascimento do caçula fez o fazendeiro criar ódio do menino e a história se desenvolve a partir da relação entre os dois protagonistas. A produção da Globo venceu o Troféu APCA e o Troféu Imprensa de melhor novela do ano.

E no esporte? Em 1993, vimos as últimas vitórias de Ayrton Senna

Ayrton Senna comemorando a vitória no Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 - 28/03/1993
Ayrton Senna comemorando a vitória no Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 – 28/03/1993 Marcos Rosa/VEJA/

A temporada da Formula 1 de 1993 foi a última a ser completada pelo piloto brasileiro Ayrton Senna, tricampeão mundial. Com uma McLaren problemática, Ayrton perdeu o título para Alain Prost e a sua imbatível Williams, mas mesmo assim protagonizou grandes momentos. Senna obteve a sexta vitória da carreira nas ruas estreitas do principado de Mônaco, um recorde ainda imbatível. Naquele ano, Ayrton consolidou sua genialidade para guiar um carro de corrida em pista molhada: foi debaixo de chuva que ele terminou em primeiro lugar nos Grandes Prêmios do Brasil (a segunda vitória em casa) e da Europa (quando foi de quinto a primeiro apenas na primeira volta). O brasileiro Rubens Barrichello estreou na categoria naquele ano, pilotando uma Jordan.

Primeiro tricampeonato de Michael Jordan com o Chicago Bulls

Michael Jordan: camisa com o número 23 tornou-se sua referência
Michael Jordan: camisa com o número 23 tornou-se sua referência Jonathan Daniel/Getty/VEJA

Se hoje exaltamos a dinastia estabelecida pelo Golden State Warriors, há duas décadas era uma outra franquia da NBA que cominava a liga americana de basquete. O Chicago Bulls de Michael Jordan ganhava em 1993 seu terceiro título seguido – bateu o Phoenix Suns por 4 a 2 nas finais – e o camisa 23 foi eleito o melhor jogador da decisão nas mesmas três temporadas. O time de Chicago repetiria o feito entre 1996 e 1998, com Air Jordan novamente sendo brilhante e decisivo nas conquistas.

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O melhor time do planeta era brasileiro

Ronaldão e Zetti celebram a conquista do Mundial Interclubes sobre o Milan em 1993 Phil O'Brien/EMPICS via Getty Images/Getty Images

Em 1993, o São Paulo seguia uma máquina de conquistar títulos. A equipe de Telê Santana conquistou o bicampeonato da Copa Libertadores da América e do Mundial Interclubes – no Japão, o Tricolor paulista venceu o poderoso Milan por 3 a 2. Também era destaque o Botafogo, vencedor da Copa Conmebol em cima do Peñarol, do Uruguai, nos pênaltis. No futebol nacional, o ano foi de dominação alviverde: o Palmeiras começava a colher os frutos da parceria com a empresa italiana Parmalat e encerrou seu jejum de 17 anos sem títulos. O time comandado por Vanderlei Luxemburgo saiu da fila logo com três taças: o Campeonato Paulista, o Torneio Rio-São Paulo e o Campeonato Brasileiro.

Romário garantiu o Brasil na Copa, assegurando o sonho do tetra

Romário após marcar um de seus gols na vitória da seleção brasileira contra o Uruguai, por 2 a 0, em jogo válido pela Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro Pisco del Gaiso/Folhapress/Folhapress

Romário não tinha a melhor relação com o então técnico da seleção Carlos Alberto Parreira. O treinador deixou o atacante de fora da equipe durante boa parte das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. O risco de não se classificar para o Mundial pela primeira vez na história fez com que Parreira mudasse de ideia. O treinador chamou o camisa 11 de volta na fase decisiva do classificatório. Os dois gols contra o Uruguai, no Maracanã, carimbaram o passaporte brasileiro rumo aos Estados Unidos. O tetra veio no ano seguinte com mais um show de Romário.

1993 foi um ano de alegria…

Argentina celebra sua vitória sobre o México na final da Copa América em junho de 1993 Shaun Botterill/ALLSPORT/Allsport

A Argentina vivia uma fase muito diferente. Havia ganhado a Copa América em 1991 e foi para o torneio de 1993 mais uma vez sem Diego Maradona, ainda o grande craque do país. Para se ter uma ideia, o hoje técnico Diego Simeone, conhecido por ser um volante vigoroso durante a carreira, era o camisa 10 daquele time. Com o atacante Gabriel Batistuta e o goleiro Sergio Goycochea em grande fase, o time despachou o Brasil nas quartas de final nos pênaltis e venceu o México na decisão para ficar com seu último título

… e de vergonha para a Argentina

Freddy Rincón durante a goleada da Colômbia sobre a Argentina por 5 a 0 – 05/09/1993 Cortesia/Revista El Grafico/FIFA/Divulgação

Dois meses depois do título da Copa América, a Argentina tomou uma goleada de 5 a 0 da Colômbia, em casa, teve que jogar a repescagem para se classificar para a Copa do Mundo do ano seguinte. Velhos conhecidos da torcida brasileira fizeram quatro gols. Freddy Rincón (ex-Palmeiras e Corinthians) e Faustino Asprilla (ex-Palmeiras) marcaram duas vezes cada. Adolfo Valencia completou a goleada. No final do ano e com Maradona em campo, os argentinos superaram a Austrália em dois jogos e se garantiram no Mundial.

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