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Como João Doria tornou-se o inimigo número 1 do futebol paulista

'Shopping pode e futebol não?' é a pergunta que os clubes de São Paulo fazem após decisão do governador de proibir os treinos até 1º de julho

Por Luiz Felipe Castro, Alexandre Senechal - Atualizado em 17 jun 2020, 18h29 - Publicado em 17 jun 2020, 17h45

João Doria vem se tornando persona non grata entre os dirigentes do futebol paulista. Nesta quarta-feira 17, os clubes se preparavam para obter o sinal verde para a retomada dos treinos após três meses de parada em razão da pandemia de coronavírus. Os cartolas, porém, foram surpreendidos com o anúncio do governador de São Paulo, que só autorizou o retorno das atividades em 1º de julho. A revolta causada pela decisão de Doria nos dirigentes pode ser resumida com uma questão: “Por que shoppings já estão abertos e centros de treinamento devem permanecer fechados?”

Doria ressaltou que o retorno ocorrerá com uma lista de medidas de contenção para a disseminação do vírus, como teste do tipo PCR de jogadores e comissão técnica, assim como medição de temperatura de todos os presentes nas práticas. “Esses protocolos referem-se apenas aos treinamentos, a retomada das partidas será avaliada em fases posteriores e sempre em conjunto com a Federação Paulista de Futebol e a Confederação Brasileira de Futebol”, disse o governador durante o anúncio desta quarta.

A federação paulista reagiu rápido e, em comunicado, disse que “o anúncio, com o distante reinício das atividades, causou estranheza, já que o Protocolo de Retomada Gradual aos Treinos preza, em primeiro lugar, pela saúde de todos envolvidos. Assim, os profissionais do futebol, que dependem de seu condicionamento físico para exercer suas atividades, seguem impedidos de trabalhar, sem que haja uma explicação plausível e científica.” A FPF convocou uma nova reunião com os 16 clubes da Série A do Campeonato Paulista para 15 horas desta quinta para tentar buscar outras soluções.

A nova fase de reabertura do comércio, inclusive, foi o que acelerou o acordo entre os clubes para retomar as atividades. Até mesmo aqueles mais cautelosos, como o Palmeiras, concordaram que a medida de Doria abria uma brecha e poderia representar a salvação para as equipes que sofrem com a fuga de receitas causadas pela parada. Em nota no início do mês, a FPF chegou a citar claramente a “flexibilização da quarentena anunciada pelas autoridades públicas paulistas, inclusive com liberação a shoppings, que contam com cuidados menos rigorosos do que os previstos pelo protocolo do Futebol Paulista”, como um fator a ser levado em conta.

Clubes procurados pela reportagem nesta quarta-feira admitiram insatisfação. “Acho um absurdo liberar shopping e vetar uma atividade que envolve 40 pessoas testadas e com protocolo rigoroso, que não existe na casa de ninguém. É o fim!”, afirmou Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, atual tricampeão e que enfrenta grave crise financeira.

“Se depender do Doria, esse Paulista não acaba nunca, né”, afirmou Sidney Riquetto, presidente do Santo André, clube que detinha a melhor campanha do torneio até a paralisação em 16 de março e que já perdeu três jogadores cujos contratos chegaram ao fim. “A cada novo dia de adiamento, corro risco de perder mais atletas. Planejávamos voltar a treinar semana que vem, mas foi tudo por água abaixo por motivos que só o Doria pode explicar”, completou. Os dirigentes paulistas haviam ouvido do deputado Delegado Olim, presidente do STJ-SP, que estava tudo acertado com o governo do estado para o retorno da atividades nesta semana.

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O médico Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, considera que o momento pede normas de isolamento mais rígidas para todos os setores. “Ainda não era o momento nem de se liberar shoppings, nem futebol. Flexibilização não significa liberar tudo, mas infelizmente as pessoas estão encarando dessa forma. Nós ainda estamos em um momento que o número de casos, embora esteja crescendo menos, ainda está em crescimento, assim como o número de óbitos, então ainda temos que observar um pouco mais antes de liberar tudo como está sendo solicitado.”

O estado de São Paulo voltou a bater o recorde diário de mortes por coronavírus nesta quarta-feira, 17. Nas últimas 24 horas, foram registradas 389 mortes em toda a região, o maior número da série histórica. Os falecimentos totais desde o início da pandemia são 11.521.

Protocolos e treinos ‘clandestinos’ – Outro fator que causa discórdia entre os clubes é o fato de o Red Bull Bragantino ter rompido um acordo de cavalheiros feito ainda nas primeiras semanas de parada, de que os clubes retornariam às atividades todos juntos. Há duas semanas, porém, o clube conseguiu uma autorização da prefeitura de Bragança Paulista e realizou os primeiros treinos – depois alegou ter parado com as atividades, devido ao desconforto causado.

Na ocasião, Marquinhos Chedid, presidente do clube do interior, que recebeu uma valoroso aporte da empresa austríaca de energéticos que o rebatizou, disse que o clube vem realizando apenas atividades físicas e tinha o intuito de “abrir as portas aos outros clubes”. Nesta quarta, Chedid admitiu surpresa com a decisão de Doria, mas disse que esperaria a próxima reunião para se posicionar publicamente, postura idêntica a de diversos outros clubes procurados pela reportagem.

Um cartola que pediu anonimato disse que não apenas o Bragantino retornou às atividades, como “uma dúzia de clubes do interior”, de forma clandestina. Uma pessoa próxima às tratativas de retorno do futebol de São Paulo classificou como “política” a decisão do governador paulista.

A decisão ocorreu horas depois de a federação carioca de futebol autorizar o retorno do Estadual já a partir de quinta-feira 18, ainda que alguns clubes do Rio sequer tenham retornado aos treinamentos. O Flamengo, cada vez mais próximo do presidente Jair Bolsonaro, é o principal entusiasta do retorno do futebol, enquanto Botafogo e Fluminense já anunciaram que entrarão na Justiça se forem obrigados a jogar semana que vem – e tiveram sua postura elogiada pelo governador paulista.

Restam duas rodadas para o final da primeira fase do Paulista, que tinha o Santo André como clube de melhor campanha até a parada em 16 de março, e mais quatro jogos das fases finais. De acordo com o protocolo apresentado pela FPF e pelos clubes, quando a bola voltar a rolar, as equipes devem permanecer alojadas em um mesmo local, até o fim de suas campanhas. Os jogos certamente serão realizados sem torcida, como já ocorre em campeonatos europeus.

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