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CEO do MyCujoo pede desculpas, mas crava: ‘provamos a força do streaming’

O português Pedro Presa explicou problemas técnicos em jogo do Flamengo e revelou planos maiores para a transmissão de jogos no Brasil

Por Danilo Monteiro - Atualizado em 7 jul 2020, 19h16 - Publicado em 7 jul 2020, 19h11

No dia 10 de julho de 2016, os irmãos portugueses João e Pedro Presa vibravam com o título inédito de sua seleção na Eurocopa, contra a França. Os dois acompanhavam o jogo pela internet, pois estavam sentados em outro campo de jogo, bem mais acanhado: o estádio José Gomes da Costa, em Alagoas. Naquele dia, a dupla inaugurava no Brasil sua plataforma própria de streaming, o MyCujoo, no jogo entre Murici e Fluminense de Feira, sob olhar de 359 pessoas, o segundo menor público presencial da Série D do Campeonato Brasileiro daquele (por sua vez, a audiência digital dessa partida foi 22 vezes maior, atraindo 8 230 visualizações).

Quatro anos e alguns milhares de transmissões depois, os irmãos Presa obtiveram no domingo passado uma oportunidade ímpar: preparar em apenas dois dias a transmissão do jogo do Flamengo x Volta Redonda, pela semifinal da Taça Rio, o segundo turno do Campeonato Carioca. O extracampo da partida – em meio a briga judicial deflagrada após a Medida Provisória que deu ao clube mandante o direito total sobre suas partidas –, aumentou a pressão sobre a startup, ainda mais com uma novidade: a cobrança de ingressos virtuais, algo inédito até para o MyCujoo no Brasil.

“Quando o Flamengo nos contatou na sexta (dois dias antes do jogo) e nos sugeriu a cobertura exclusiva no mercado nacional e internacional, tentamos entender o por quê. Eles nos disseram que todas as outras plataformas tinham rejeitado fazer o projeto, porque o Flamengo queria cobrar pay-per-view e oferecer o jogo de graça aos sócios-torcedores com pouco tempo. O MyCujoo sabia que havia o risco, mas decidimos ver internamente se tínhamos capacidade e dinâmica para atender o projeto”, explicou Pedro Presa.

O MyCujoo é conhecido por transmitir ligas alternativas de mais de 120 países, além de partidas de futebol feminino e até e-sports. “Não se pode comparar o nosso nível de investimento ao de um Google ou Facebook, ainda estamos na fase inicial da empresa. Fomos aprendendo, melhorando e conseguimos criar uma tecnologia própria, uma plataforma totalmente controlada por nós. Começamos com 55 jogos ao vivo em 2015 e no ano passado fizemos mais de 30 000 jogos em mais de 120 países. Tudo isso engloba uma estrutura muito grande em termos de tecnologia”, contou o CEO.

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Fora a questão legal, a transmissão do último domingo foi motivo de alvoroço em função da cobrança de 10 reais para não-sócios acompanharem a partida – no exterior, a pedida foi de 8 dólares. Diante da procura elevadíssima, o sistema de pagamento não aguentou e diversos torcedores tiveram dor de cabeça para acessar a plataforma. O problema obrigou o Flamengo, horas antes do jogo, a abrir a transmissão no YouTube ou no Facebook, e a ressarcir os pagantes – apesar de sugerir que não o fizessem – , que ajudaram o clube a faturar 1,1 milhão de reais na partida apenas pelo MyCujoo.

“Sabíamos que haveria um volume grande de pessoas que fariam o pagamento, então abrimos a opção no sábado. No domingo, a Ebanx (plataforma de pagamentos) nunca tinha experienciado um volume tão grande de pessoas tentando fazer o pagamento. Duas horas antes do jogo, tínhamos 400 pedidos por segundo – 50% deles, porém, com cartão de crédito falso. Estávamos com capacidade de 30 a 50 pedidos por segundo, a plataforma não aguentou e tivemos problemas até mesmo em quem estava tentando se registrar no site”, justificou Presa.

Bruno Henrique comemora com os companheiros o gol sobre o Volta Redonda, em vitória por 2 a 0, pela semifinal da Taça Rio Alexandre Vidal/CRF/Divulgação

O MyCujoo, em nota, se desculpou com torcedores do Flamengo assim como seu CEO – diversas vezes na entrevista a VEJA. Presa, porém, destacou que o jogo foi um aprendizado e um marco para a plataforma e para o Flamengo, que poderia arrecadar até 4 milhões de reais considerando apenas o público nacional. “Provamos no final de semana a força do streaming. Se não tivéssemos problemas, estimamos que receberíamos entre 300.000 e 400.000 pagantes, o que provaria que o modelo digital está pronto, as pessoas estão dispostas a consumir esse conteúdo”.

A empresa dos portugueses tem planos ambiciosos para o mercado brasileiro e pretende, com novos projetos, transmitir até 20 000 jogos por ano no país. “Neste momento, trabalhamos com 19 federações estaduais brasileiras. Transmitimos conteúdos desde a primeira divisão dos estaduais de menor dimensão até as divisões menores. O mercado brasileiro é super importante para a empresa, estamos atentos a tudo o que está acontecendo em termos de direitos de transmissão e plataforma. Vamos lançar, inclusive, um projeto muito grande – não posso dar detalhes ainda –, mas estimamos transmitir mais de 20 000 jogos no Brasil – exibimos entre 8 000 a 10 000 em 2019”.

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O jogo entre Flamengo e Volta Redonda serviu como um teste para o MyCujoo, que tentará explorar mercados de clubes maiores, mas ainda contando com a parceria de clubes e até mesmo de grandes emissoras. Pedro Presa, em meio aos pedidos de desculpas, destacou que o serviço também foi elogiado e teve respostas positivas de clubes e federações que ainda não fazem parte do seu quadro de parceiros.

“Estamos atentos ao mercado premium (de times maiores). Olhamos para as duas vertentes, a primeira delas é disponibilizar nossa estrutura de streaming, MyCujoo Live Services, para os clubes utilizarem em seus próprios sites. Sei que os torcedores gostam de pôr conteúdo no YouTube para ter mais seguidores que a Liverpool TV e outras, mas na verdade isso não traz valor nenhum ao clube, porque é muito difícil monetizar e controlar esse conteúdo. Com nosso serviço, queremos que clubes e federações possam usufruir da nossa tecnologia em suas plataformas, para ter controle sobre o conteúdo”.

“Também estamos tentando explorar são parcerias estratégicas com media players de dimensão global em determinados países, que já operam no mercado premium. Acreditamos que o digital é muito importante – e é o futuro -, mas o DNA (da televisão) ainda é importante, ainda existem muitas pessoas que só têm acesso ao conteúdo pela televisão, então, o complemento digital ainda vai ter um papel preponderante nos próximos 10 anos no Brasil e em outros países”, finalizou.

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