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Caso Ronaldinho: o que se sabe sobre a prisão do ex-jogador no Paraguai

Ídolo do Barcelona e seu irmão e empresário Assis seguem detidos em Assunção, acusados de terem usado documentos paraguaios falsificados

Por Da Redação - Atualizado em 12 mar 2020, 12h15 - Publicado em 9 mar 2020, 13h14

Ronaldinho Gaúcho e seu irmão e empresário, Roberto de Assis, estão presos preventivamente desde o último sábado 7, em Assunção, no Paraguai, sob a acusação de terem usado passaportes falsos para ingressar no país. A defesa do ex-jogador do Barcelona e da seleção brasileira entrou com um recurso para que os irmãos Assis possam cumprir prisão domiciliar. O pedido, no entanto, foi negado pela Justiça paraguaia na terça-feira, 10. Nesta quinta 12, um novo recurso foi solicitado, mas os irmãos Assis devem seguir presos por até cinco dias.

Seus advogados apresentaram uma imóvel no Paraguai que seria usado para a prisão domiciliar. O juiz do caso não acatou o argumento e citou o risco de fuga – caso retornassem ao Brasil, os irmãos não poderiam, por lei, ser extraditados para o Paraguai.

A empresária paraguaia Dalia López, responsável pelo convite a Ronaldinho para participar de eventos no país e suspeita de participação na confecção dos documentos falsos está foragida. Seus advogados afirmam que Dalia pretende se entregar, mas ainda negociam garantias. O empresário brasileiro Wilmondes de Souza Lira, apontado como o homem que entregou os documentos a Ronaldinho e Assis, está detido na mesma prisão que a dupla, o Agrupación Especializada da Polícia Nacional, em Assunção. 

No último fim de semana, o jornalista paraguaio Hernán Rodríguez divulgou uma foto de Ronaldinho na prisão. O ex-jogador de 39 anos aparece sorridente, de regata e chinelos. Ronaldinho divide cela com Assis e vem recebendo refeições especiais por meio de seus advogados. Nos últimos dias, ele distribuiu autógrafos a pessoas que foram à penitenciária visitar parentes. Confira, abaixo, os motivos da prisão e a cronologia dos fatos:

Por que Ronaldinho foi preso?

Ronaldinho e Assis foram alvo de uma batida policial na noite de quarta-feira, 4, em um hotel na cidade de San Lorenzo, nos arredores da capital Assunção, depois de ser constatado que ambos entraram no Paraguai utilizando um passaporte e uma cédula de identidade adulteradas – ainda que, de acordo com as normas do Mercosul, precisassem apenas de um documento brasileiro válido para entrar em qualquer país da região.

De acordo com o boletim de ocorrência, ao qual VEJA teve acesso, Ronaldinho e Assis alegaram que foram ao Paraguai a convite de Nelson Belotti, empresário brasileiro e dono do cassino Il Palazzo, nos arredores da capital Assunção. Segundo os próprios, eles foram contatados por uma entidade chamada “Fraternidade Angelical”, da empresária Dália López, para a participação de uma série de eventos, incluindo o lançamento do livro do ex-jogador.

Também foram detidas duas mulheres, identificadas como María Isabel Gayoso e Esperanza Apolonia Caballero, apontadas como donas dos documentos adulterados. Em entrevista ao diário ABC Color na sexta-feira, o advogado Adolfo Marín, que integra a equipe que defende Ronaldinho, afirmou que o jogador não agiu de má fé. “Ele poderia ter entrado no país com seus documentos brasileiros. Não é perito em documentos. Ele pensou que havia recebido documentos (paraguaios) de cortesia, de maneira honorária”, justificou o advogado.

O promotor Osmar Legal, quem pediu a manutenção da prisão preventiva de Ronaldinho e Assis, alegando “risco de fuga e que o Brasil não extradita seus cidadãos”, revelou que dupla é suspeita de ter cometido outros crimes além do uso de documentos falsos. “Ainda não podemos adiantar passos das investigações, mas há indícios de que outros crimes foram cometidos”, afirmou Legal ao Globoesporte.com.

Um dos advogados de Ronaldinho chegou a tratar como “grande incógnita” os motivos que o levaram a usar um documento paraguaio falso se poderia entrar no país com seu RG brasileiro. O promotor do caso levantou uma suspeita. “Um brasileiro com documentação paraguaia poderia ter a vantagem de participar de negócios em algumas empresas no país, que não seriam dadas sem a cidadania paraguaia.”

Antecedentes criminais

Aposentado desde 2015, quando deixou o Fluminense, o melhor jogador do mundo nos anos de 2004 e 2005 vem ocupando as páginas policiais nos últimos meses. No ano passado, Ronaldinho chegou a ter seu passaporte apreendido depois que a Justiça do Rio Grande do Sul moveu ação contra ele, por danos ambientais, em 2015. Ronaldinho e Assis foram condenados pela construção ilegal de um trapiche na orla do rio Guaíba, em Porto Alegre, sem licença ambiental.

Em outubro de 2019, Ronaldinho conseguiu reaver o passaporte ao pagar uma multa ambiental de 6 milhões. Um mês antes, recebeu o título de embaixador do turismo brasileiro pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). Mesmo preso, Ronaldinho mantém o cargo que, segundo a Embratur, é apenas “simbólica e honorária”. O ex-jogador é um confesso apoiador do governo do presidente Jair Bolsonaro

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Também no ano passado, surgiram suspeitas de envolvimento de Ronaldinho em um suposto esquema de pirâmide financeira, fraude que tem como base a indicação de novos investidores atraídos pela promessa de retorno rápido e alto. A empresa 18kRonaldinho, criada em 2015 como “uma marca unissex de relógios esportivos” e que tinha o ex-jogador novamente com o cargo simbólico de embaixador, prometia a seus clientes rendimentos de até 2% ao dia, supostamente baseados em operações com a criptomoeda Bitcoin.

Cronologia dos fatos:

Quarta-feira, 04/03

Ronaldinho Gaúcho e Assis desembarcam pela manhã no Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi. Durante a noite, fiscais do MP do Paraguai e do Ministério do Interior vão ao hotel onde o ex-jogador estava hospedado para investigar uma suspeita de que os irmãos Assis entraram no país utilizando passaportes e identidades falsas. Os documentos e os celulares da dupla foram apreendidos, e os dois ficam sob vigilância no hotel após prestarem os primeiros esclarecimentos. O empresário Wilmondes Sousa Lira foi detido neste dia.

Quinta-feira, 05/03

Ronaldinho e Assis foram intimidados a depor na Promotoria contra o Crime Organizado. Uma multidão aguardava pela passagem do ídolo mundial, que chegou a distribuir fotos e autógrafos até mesmo dentro da delegacia. O promotor Federico Delfino confirmou que os documentos utilizados por eles foram adulterados. Diante da repercussão negativa, o diretor de migração do país, Alexis Penayo, renunciou ao cargo. Ronaldinho e Assis se mostraram dispostos a colaborar com a investigação e foram liberados para retornar ao hotel. No dia seguinte, deveriam comparecer a uma audiência.

Sexta-feira, 06/03

Ronaldinho e Assis compareceram ao Juizado Penal de Garantias, onde o juiz Mirko Valinotti não aceitou sugestão do MP de liberar os brasileiros e deu prazo de dez dias para uma definição. O caso passou para a promotoria que analisa crimes fiscais e lavagens de dinheiro e o novo promotor, Osmar Legal, pediu a prisão preventiva dos irmãos Assis.

Sábado, 07/03

Ronaldinho e Assis chegaram algemados ao Palácio de Justiça de Assunção para uma audiência com a juíza Clara Ruíz Díaz. Depois de cerca de seis horas, a Justiça paraguaia decidiu manter a ordem de prisão preventiva, que pode durar até seis meses. A magistrada alegou risco de fuga por se tratar de cidadãos estrangeiros, enquanto os advogados de Ronaldinho trataram a  decisão como “arbitrária” e prometeram entrar com recurso.

Domingo, 08/03

Ronaldinho e Assis passaram o dia na prisão e receberam visitas de advogados e até do ex-zagueiro paraguaio Carlos Gamarra, com passagens por Inter, Corinthians, Flamengo e Palmeiras. Ao longo do dia, o ídolo do futebol mundial distribuiu autógrafos às pessoas que entravam na prisão para visitar parentes. O empresário Wilmondes Sousa Lira foi transferido para a mesma penitenciária.

Segunda, 09/03

A defesa de Ronaldinho e Assis solicitou a alteração da pena para prisão domiciliar e uma nova audiência foi marcada para a terça-feira 10. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, telefona para autoridades paraguaias para obter informações sobre o caso.

Terça, 10/03

Pela manhã, o juiz Gustavo Amarrilla, não acatou o pedido da defesa do ex-jogador, que pretendia cumprir pena em regime domiciliar. Ronaldinho e Assis não puderam comparecer à audiência. Seus advogados apresentaram uma imóvel no Paraguai que seria usado para a prisão domiciliar. O juiz do caso não acatou o argumento e citou o risco de fuga – caso retornassem ao Brasil, os irmãos não poderiam, por lei, ser extraditados para o Paraguai.

Quarta 11/03

No dia de visitas de familiares, a quantidade habitual de entradas foi bem acima do normal e Ronaldinho distribuiu autógrafos com os presentes. O ex-craque também recebeu convites para se juntar a uma das várias equipes que competem no torneio Agrupación de futsal de detentos, do qual o troféu é um leitão de 16 quilos.

Quinta-feira 12/03

A defesa solicitou novamente a libertação de Ronaldinho e Assis junto a um tribunal de apelação. Uma nova resposta, no entanto, não deve sair em menos de cinco dias.

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