Clique e assine a partir de 8,90/mês

Broncas por cai-cai e lado professor da família moldaram novo 9 da seleção

Poliglota, precoce e determinado, atacante paraibano Matheus Cunha espera aproveitar a primeira chance na seleção adulta

Por Klaus Richmond - Atualizado em 9 out 2020, 10h45 - Publicado em 8 out 2020, 12h52

Matheus Cunha, 21, era um nome quase desconhecido por brasileiros até agosto do último ano. Tudo começou a mudar quando viralizou pelas redes sociais o gol que marcou na vitória por 4 a 2 do RB Leipzig sobre o Bayer Leverkusen, em 6 de abril, pela Bundesliga. O giro rápido, seguido por uma finalização digna de atacantes de primeiro nível na Europa, encobrindo o goleiro adversário, acabou como um dos dez selecionados pela Fifa ao Prêmio Puskás de 2019, atribuído ao gol mais bonito da temporada.

O prêmio não veio, ficou nas mãos de outro jovem, o húngaro Danilo Zsóri, do Debreceni, mas pouco mais de um ano depois o paraibano de João Pessoa ganhou a maior recompensa da curta carreira até aqui. Cunha foi o escolhido por Tite para a seleção brasileira na vaga deixada por Gabriel Jesus, atacante do Manchester City, cortado por lesão. O Brasil estreia nesta sexta-feira (9), contra a Bolívia, às 21h30 (de Brasília). No dia 13, o adversário será o Peru, em Lima.

“Depois de tudo o que você passa, tudo o que você luta para chegar aqui vemos que não foi fácil”, disse o atacante. A trajetória do atacante até a 9 de seleção – a numeração foi confirmada na quarta-feira, 7, pela CBF – foi moldada, principalmente, por precocidade e uma educação rígida dos pais, Luziana Cunha e Carmelo Carneiro da Cunha.

Carmelo é professor, dá aulas de química até hoje e tem na família duas irmãs que também lecionam. A cobrança por priorizar estudos ao futebol foi a primeira das exigências em casa. “O Matheus tinha bolsa no Colégio Marista, muito tradicional aqui em João Pessoa, e isso era algo que valorizamos demais. Ele jogava, surgiam muitos convites, mas não abríamos mão da escola por nada”, conta Carmelo.

O jogador foi criado no bairro da Torre e deu os primeiros passos no Esporte Clube Cabo Branco, time local já extinto. Após chamar atenção pela facilidade com que fazia gols, foi convidado a jogar pelo CT Barão, tradicional formador de talentos em Recife. A avó materna, que morava na capital pernambucana, o recebeu. Com 14 anos, recebeu uma proposta do Coritiba.

“Eu disse ao Matheus: você quer ir mesmo? Pois já saiba de antemão que vai escutar que é negro. E você é negro mesmo. Vão te chamar de Paraíba, também, mas lembre-se que você é paraibano mesmo. Precisa se aceitar, ninguém pode te atingir”, recorda a mãe Luziana. Longe da família pela primeira vez, no Sul do país mostrou bem mais do que a melhor face de artilheiro. Distante dos pais, se aproximou da psicopedagoga Rosemara Fernandes, responsável na época pelo acompanhamento escolar e educacional dos jovens no clube.

“Não foi um processo fácil. Ficávamos horas e mais horas por telefone”, pondera Luziana. Rose, como é conhecida, viu em Cunha um cenário quase inédito em anos de trabalho: um jovem que tinha facilidade e gosto por estudar, mesmo jogando futebol em alto nível. Resolveu preencher o tempo da então promessa com aquilo que já vivia dentro da própria família, o lado professor.

View this post on Instagram

A resenha vai ser grande 🥴🤣🤩 @luzicunha @carmelo.cunha

A post shared by Matheus Cunha (@mathcunha_) on

Continua após a publicidade

“O Matheus tinha um diferencial, estava muito à frente dos demais com relação a questão cognitiva. Era um menino muito inteligente, muito carismático. Então, criei um projeto para ele dar aulas, ensinar os meninos que tinham dificuldade em disciplinas que para ele eram extremamente fáceis como matemática e física”, relata Rosemara.

Pouco depois de disputar a primeira Copa São Paulo, ainda na reserva, Matheus foi destaque na Dallas Cup, conhecido torneio de base disputado nos Estados Unidos, ao lado de equipes como o Manchester United. Observado por olheiros do FC Sion, da Suíça, avisou o clube que aceitaria a proposta para deixar o país com apenas 18 anos e sem sequer jogar profissionalmente.

“O Matheus jogava em qualquer posição na linha de frente, era incrível. Oferecemos um projeto de carreira para que ele e mais quatro jovens talentosos ficassem, mas ele enxergou uma oportunidade, estava muito determinado a ir”, conta André Leite, coordenador das categorias de base do Coritiba.

Fora do país, Matheus surpreendeu a todos com uma evolução precoce. Aprendeu a falar idiomas rapidamente – atualmente tem fluência em francês, espanhol, inglês e alemão – e demonstrou pouco impacto com uma nova cultura. “O Matheus tinha uma energia incrível fora de campo e ficávamos impressionados como alguém tão jovem conseguia resolver jogadas em poucos segundos. Ajudou muito ele o fato de termos um grupo de brasileiros e um português, o Carlitos, conosco”, conta o zagueiro brasileiro André Neitzke, atualmente no FC Schaffhausen, da segunda divisão local.

O atacante português, que jogou no Benfica e foi ídolo local, tornou-se um dos principais conselheiros do jovem talento. No país, ajudou na evolução de Cunha um novo posicionamento dentro de campo. Enxergando a necessidade de jogar com um centroavante, o técnico suíço Maurizio Jacobacci resolveu testá-lo na função. O brasileiro teve atuação marcante na partida contra o FC Thun, em março de 2018. O time venceu por 7 a 2.

“Ele ia muito bem pelos lados, mas com a finalização que tinha e a boa estatura o treinador optou por fazer esse teste. Foi a melhor coisa que aconteceu para ele. Nessa função ele age por instinto, sabe muito o que fazer”, lembra o zagueiro Paulo Ricardo, ex-companheiro de FC Sion, atualmente no Figueirense.

O sucesso de Matheus na Europa foi moldado, também, por broncas da mãe Luziana. Quando foi assistir ao filho jogar pela primeira vez na Europa não poupou críticas pelo fato de achar que estava se jogando muito dentro de campo. “Sou linha dura mesmo. Foi nessa época de falarem do Neymar ser cai-cai, mas não tinha nada a ver com ele, amo o Neymar. Falei para o Matheus parar com isso, para não fazer cena, não. Ele falou: mas eu faço gol e levo bronca? Eu disse: leva”, relembra.

Matheus Cunha deixou o Sion com 33 jogos e dez gols marcados, negociado com o RB Leipzig. No clube alemão, apesar do gol que concorreu ao Puskás, não conseguiu o espaço que almejava.

Valorizado após passagens de destaques pelas seleções de base – foi o artilheiro do Brasil na campanha do Pré-Olímpico, disputado na Colômbia, com cinco gols –, surpreendeu ao informar ao Leipzig que estava disposto a aceitar uma proposta para se transferir para o Hertha Berlin por 20 milhões de euros (94 milhões de reais à época) em janeiro. O clube fazia campanha modesta na Bundesliga, enquanto o Leipizig chegaria às semifinais da última Liga dos Campeões da Europa.

“O Matheus é assim, muito determinado. Vai muito fundo nos objetivos que tem e jogar mais era um deles”, diz a mãe do jogador. No Hertha, Matheus chegou ao ápice. Tem a melhor média de gols da carreira: 7 em 14 jogos, um a cada 145 minutos, além da condição de titular absoluto. Cunha, aliás, tem a melhor média no ano entre todos os atacantes convocados por Tite, superando Neymar, Richarlison, Everton, Firmino e Rodrygo.

Precoce e determinado, o novo 9 da seleção brasileira quer ficar. Pela seleção sub-23, são 14 gols em 16 jogos.

Matheus Cunha, em ação pelo Hertha Berlin: 7 gols em 14 jogos Jan-Philipp Burmann/Getty Images
Continua após a publicidade
Publicidade