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Brechó do Futebol: paraíso de boleiros e boêmios em Porto Alegre

De dia, ponto no centro histórico da capital gaúcha funciona como loja com quase 4.000 camisas; de noite, entram em campo as cervejas artesanais

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 22 set 2017, 11h50 - Publicado em 31 ago 2017, 10h28

Porto Alegre, que nesta quinta-feira recebe a seleção brasileira, é uma cidade que vive intensamente o futebol. O Beira-Rio e a Arena do Grêmio são os principais templos esportivos da capital gaúcha dividida por colorados e tricolores, mas é numa simplória rua no centro histórico que funciona um paraíso para amantes da bola – e de cerveja. O Brechó do Futebol é, à luz do dia, uma loja com quase 4.000 camisas, e, à noite, um aconchegante bar temático, que nasceu da dificuldade de um estudante gremista em pagar as contas. Quinze anos depois, a loja-bar se tornou lucrativa para o dono – e extremamente prazerosa para os visitantes.

A entrada do brechó é uma espécie de metáfora da capital gaúcha: de um lado, uma parede vermelha de camisas do Inter e do outro o azul-celeste do Grêmio. Na sequência, é o amarelo da seleção brasileira que domina o ambiente. A partir daí, a loja se torna uma colorida viagem no tempo. Há camisas das mais variadas épocas, equipes e preços. Algumas, inclusive, jamais vão deixar o local. “Tem camisas que eu deixo escondidas, porque não quero correr o risco de ter de vender”, brinca Carlos Caloghero, criador e dono do brechó, que funciona neste ponto há sete anos. Entre as mais valiosas, destacam-se itens usados por Pelé (no Santos e na seleção), por Falcão (no Inter), e Everaldo (do Grêmio).

Brechó do Futebol Camisas de ex-craques são sucesso no local

Camisas de ex-craques são sucesso no local Luiz Castro/VEJA.com

Para quem curte um futebol mais ‘underground’, a loja também é perfeita: camisas de clubes de Bulgária, Japão, Sérvia, Austrália, África do Sul, China, Escócia e de outros países estão por toda a parte, misturadas entre Zidanes, Romários e Ronaldos. Algumas das camisas chegam pelas mãos de conhecidos de atletas profissionais. “Às vezes aparece até ex-mulher de jogador querendo negociar.” Os uniformes da América do Sul, sobretudo os da década de 90, são os preferidos do dono. “Fico triste quando elas vão embora”, conta Carlos, na cadeira de seu “escritório”, cercado por uma mesa de pebolim (ou totó ou Fla-Flu dependendo do Estado), e uma geladeira com cervejas e whisky.

O jeito despojado – camiseta e bermuda são seus uniformes de trabalho – engana, pois Carlinhos, como é conhecido, se tornou um empreendedor de sucesso. Em 2002, quando ainda cursava Relações Públicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, precisava de dinheiro e teve os primeiros contatos com sites que vendiam camisas de futebol. Apostou no segmento e decidiu se aventurar. “A primeira camisa que vendi foi uma da Itália, para um guri em São Caetano do Sul, por 80 reais.” Hoje, seus itens mais preciosos podem custar até 8.000 reais. Aos 35 anos, também se tornou sócio de um hostel e três bares – um funciona embaixo do brechó.

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Brechó do Futebol Carlos Caloghero, o chefe do Brechó do Futebol, com suas principais relíquias

Carlos Caloghero, o chefe do Brechó do Futebol, com suas principais relíquias Luiz Castro/VEJA.com

Mas Carlinhos gosta mesmo é de escambo. “A loja é ideal para pessoas que já não usam mais uma camisa e querem trocar, desde que sejam oficiais e em bom estado.” Ele, claro, trabalha com boa margem de lucro: compra por 70 reais as camisas que venderá por 100, por exemplo. Mesmo sem muito marketing – nos próximos meses, pretende renovar a identidade visual do local e inaugurar um site –, o brechó ganhou ares ‘cult’ e se tornou referência no mercado de camisas. No início desta semana, assessores dos laterais Marcelo e Daniel Alves, que conheceram o brechó pela internet e estão na cidade para os jogo da seleção contra o Equador, passaram pela loja para fazer negócio: trocaram camisas preciosas, usadas pelos craques em jogos oficiais, por outras relíquias, como uma camisa do Flamengo da década de 80.

Apesar das visitas constantes (na Copa do Mundo de 2014, houve uma invasão de turistas e recordes de vendas), o brechó vende muito mais pela internet, em suas páginas no Facebook e no Mercado Livre. Carlinhos diz que sua meta com o brechó não é enriquecer. No último mês, por exemplo, diz ter vendido 50.000 reais em camisas e gastado 69.000 em “investimentos”. “Estamos com quase 4.000 camisas e até o fim do ano quero chegar a 5.000.” Seus planos são ainda mais ambiciosos: “Estou comprando livros, chuteiras, bolas. Quero ampliar e transformar o brechó numa espécie de museu do futebol.”

Futebol e cerveja

Brechó do Futebol em Porto Alegre Foto:

Foto: Luiz Castro/VEJA.com

A loja de camisas fecha às 19h e a partir daí o bar começa a encher no andar de baixo. O local é decorado com flâmulas de clubes, pôsteres, bandeiras e centenas de recortes de revistas (incluindo diversas edições de PLACAR). Tem quatro grandes TVs, que transmitem jogos dos campeonatos nacionais e internacionais – os de Inter e Grêmio, claro, são os que mais mobilizam os clientes. O principal atrativo, no entanto, são as cervejas artesanais.

São dez torneiras de diferentes chopes, vendidos entre 12 e 45 reais, além de outros rótulos de cervejas artesanais. As pizzas, servidas individualmente a 15 reais em média, de sabores como carne de panela e gorgonzola caramelizada, também fazem bastante sucesso. Nesta quinta, os donos esperam movimento máximo com a presença da seleção brasileira na cidade para a partida contra o Equador, na Arena do Grêmio.

Brechó do Futebol em Porto Alegre Paredes do bar são decoradas com flâmulas e recortes de revistas

Paredes do bar são decoradas com flâmulas e recortes de revistas Luiz Castro/VEJA.com

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