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As certezas e as dúvidas sobre a retomada do futebol no Brasil

Plano de terminar campeonatos em campo, sem torcida, passa por complexas questões sanitárias e econômicas. O fato é: a bola não volta a rolar tão cedo

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 8 Maio 2020, 13h21 - Publicado em 8 Maio 2020, 12h51

Apesar do desejo do presidente da República, Jair Bolsonaro, do Ministério da Saúde e de algumas poucas federações e clubes de acelerar este processo, não há previsão de retomada do futebol brasileiro em meio à pandemia de coronavírus – que, segundo a maioria dos especialistas, ainda não chegou a seu pico no país. As férias coletivas, antecipadas de dezembro para abril, chegaram ao fim e dirigentes de todas as regiões têm se reunido por meio de teleconferências para discutir possíveis cenários.

A maior novidade vem do Sul do Brasil, onde os atletas de Internacional e Grêmio foram liberados para retomar os treinamentos, seguindo protocolos bastante rígidos. Em meio a inúmeras dúvidas em relação ao futuro do futebol, há poucas certezas: a de que a festa nas arquibancadas, essência do jogo, será vetada (os primeiros jogos pós-paralisação certamente acontecerão com portões fechados), de que os cofres de todas as equipes serão duramente afetados e a evidente constatação de que estamos bem longe da situação da Alemanha, que autorizou o reinício de sua liga ainda este mês.

Com mais ou menos firmeza nos discursos, há consenso de que, para que a bola volte a rolar, é preciso garantir a segurança de todos os envolvidos. Na última segunda-feira 4, a Federação Paulista de Futebol e os clubes da Série A1 decidiram, de forma unânime, que os treinos só serão retomadas quando a Secretária Estadual de Saúde autorizar e, para manter o equilíbrio na disputa, todos devem voltar às atividades no mesmo dia. Nos bastidores, já se comenta que, em um cenário otimista, só é possível vislumbrar um jogo valendo daqui a 45 dias.

Com exceção do estado do Amazonas, a possibilidade de cancelamento dos Estaduais não é cogitada – apesar de ser o menos relevante esportivamente, o torneio caseiro é o mais fácil de ser realizado, por questões logísticas óbvias. Em São Paulo, os clubes chegaram a assinar um termo de compromisso de continuidade do torneio para que pudessem receber parte da última parcela do acordo com a TV Globo, dona dos direitos de transmissão – a emissora alegou que também enfrenta dificuldades com patrocinadores próprios e por isso suspendeu o pagamento integral. A quantia, ainda que menor, ajuda a aliviar a crise financeira de todos os clubes, dos menores aos gigantes.

Em São Paulo, discutem-se, possíveis formas de encerrar as seis rodadas restantes (duas da primeira fase, um jogo de quartas de final, um de semifinal e duas finais). Uma das ideias é a de levar as equipes e árbitros para sedes pré-determinadas, onde seriam realizadas as partidas restantes. Neste caso, as equipes ficariam confinadas (sem poder retornar para suas casas) até o encerramento de suas participações – os finalistas, portanto, teriam de ficar três semanas enclausurados, ideia que divide opiniões. “Eu vejo essa opção como mais prudente, seria ideal escolher cidades no interior para receber os jogos. Não creio que os jogos aconteçam na capital, onde a situação do coronavírus é bem mais grave”, afirma o ex-atacante Washington Mascarenhas, presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Município de São Paulo (SIAFMSP), presente na última reunião.

Há mandatários de clubes, no entanto, que discordam. “Tem bastante coisa em jogo, classificação, rebaixamento, premiações. A última rodada, por exemplo, tem de ter os jogos no mesmo horário”, lembra Marquinhos Chedid, presidente do Red Bull Bragantino. Um clube do Paulistão, justamente o de melhor campanha até então, já sabe que não poderá atuar em casa: o Santo André será impedido de jogar no estádio Bruno José Daniel, no ABC, que foi transformado em um hospital de campanha – assim como o mais tradicional palco da cidade, o Pacaembu.

No Rio de Janeiro, há mais pressa, mas não menos confusão. Depois de o Ministério da Saúde se manifestar a favor da volta do futebol, a federação do estado (Ferj) divulgou um comunicado no último domingo 2, no qual autorizou os clubes a retomarem as atividades em seus centros de treinamento, seguindo rígidos protocolos de segurança, como a realização de constantes testes para Covid-19. A resolução, porém, foi vetada pelo governo do estado e pela prefeitura do Rio.

  • Enquanto dirigentes de Fluminense e Botafogo já se manifestaram claramente contra a volta do futebol neste momento, o Flamengo é um de seus principais entusiastas, apesar de a morte do massagista Jorginho, funcionário do clube havia 40 anos, vítima de coronavírus, ter abalado profundamente o CT Ninho do Urubu. Para piorar, na última quarta-feira, 38 funcionários do atual campeão brasileiro e da América, entre eles três jogadores do elenco profissional, testaram positivo para Covid-19. Os nomes não foram divulgados. Em nota, a diretoria ressaltou seu desejo de “colaborar com o importante retorno às atividades do futebol no menor prazo possível.”

    Ainda no Rio, Diego, o capitão rubro-negro, e Leandro Castán, líder do Vasco, foram um dos diversos atletas de elite que participaram de um vídeo produzido pela Federação Nacional de Atletas Profissionais (Fenapaf) para protestar contra o Projeto de Lei (PL) 2125/20, de autoria do deputado federal Arthur Maia (DEM-BA) que, entre outras coisas, cogita reduzir, de forma unilateral, em 50% a multa rescisória dos profissionais, em caso de demissões.

    “Mudar as leis sem ouvir a gente? Isso não é legal. Estamos aqui e precisamos ser ouvidos com atenção. Afinal de contas, somos uma democracia. O povo brasileiro ama e quer o futebol de volta, nós também. Nossas famílias precisam de nós. Somos todos pelo trabalho, mas precisamos pensar na saúde de todos nós”, diz um dos trechos do discurso, que ressalta a insatisfação com a PL e também certo receio da classe em retornar aos gramados.

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    O veterano goleiro Fernando Prass, do Ceará, diz ser impensável cogitar a retomada do futebol no Nordeste atualmente. “Depende muito de estado para estado. Aqui no Ceará a situação está gravíssima. Não adiantaria o jogador ou o clube quererem jogar, são as autoridades sanitárias quem tem de decidir.” Uma das vozes mais aguerridas do país na defesa dos direitos dos atletas, Prass diz que todos “tem de dividir a conta”. “Ninguém quer ter seu salário reduzido, mas temos de entender que é um momento de exceção. É uma simbiose, a gente também depende dos clubes.” O goleiro de 41 anos ainda lamentou a postura do governo. “O Brasil hoje além de viver uma crise sanitária vive uma crise política. A guerra política vem sendo colocada acima de questões mais importantes e isso acaba afetando em tudo.”

    Os Estados mais afetados pela pandemia descartam completamente a retomada de atividades em maio. O Campeonato Amazonense já foi oficialmente encerrado, enquanto o de Rondônia só será retomado em novembro. As federações de regiões menos combalidas, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pressionam pela volta, mas isso só acontecerá com a autorização das autoridades sanitárias, o que não deve ocorrer antes de junho.

    Em Minas Gerais, o prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, foi bem claro em relação ao assunto: “Pensar em futebol agora é coisa de débil mental”, disse, à ESPN Brasil. O governador da Bahia, Rui Costa, seguiu linha semelhante, em live nas redes sociais. “No final de maio há a previsão de esgotamento de leitos na Bahia. Serve para responder? É didática a resposta.”

    Há como ter um olhar otimista em meio à tormenta. “Existe uma união bastante relevante entre os clubes. O contato direto entre os presidentes tem sido um fator inédito e positivo e a CBF também está presente”, afirma Guilherme Bellintani, presidente do Bahia. A Confederação Brasileira de Futebol tomou medidas para estancar a sangria. No começo de abril, doou 19 milhões de reais para o que chamou de “base da pirâmide do futebol nacional”, os clubes das séries C e D do Brasileirão e as equipes das séries A1 e A2 do futebol feminino.

    O zagueiro Mimica, do Remo, clube paraense que disputa a terceira divisão, compreendeu a necessidade da diretoria de reduzir em 50% os salários dos atletas e, da janela de sua casa na capital maranhense, não vê um horizonte feliz. “Vi cenas horríveis tanto em Belém quanto aqui em São Luís (cidade que esta semana declarou o lockdown, o fechamento de suas fronteiras).

    “A situação é de colapso mesmo. Muita gente depende do futebol para sobreviver, mas neste momento não dá para pensar em jogar futebol.” Ele ressalta que há colegas passando dificuldades. “O grande problema é que, além de não ganhar muito e nem ter o preparo para cuidar do seu dinheiro, o jogador de futebol geralmente sustenta famílias enormes.”

    Mais cedo ou mais tarde, o futebol no Brasil deve voltar com os Estaduais. A preocupação é maior em relação ao Brasileirão (cujas séries vão de A a D) e, sobretudo, em relação à Copa Libertadores e à Sul-Americana. A Argentina, país que mais venceu as competições continentais, vem adotando medidas drásticas de isolamento, como a proibição de voos comerciais até setembro, o que afetaria diretamente a realização da competição, paralisada ainda em sua primeira fase.

    Na Europa, onde a curva de contágio vem diminuindo, alguns países já liberaram o retorno das equipes aos treinamentos e projetam o retorno do futebol para um futuro próximo – entre as grandes ligas, a da Alemanha abriu a porteira, enquanto a francesa já decretou seu encerramento, com o PSG campeão. Aos torcedores brasileiros que sofrem de abstinência, a esperança vem de fora.

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