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Abraços a Bolsonaro e recorde de audiência: o jogo da seleção na TV Brasil

Sem acordo com Globo e outras emissoras abertas, vitória sobre o Peru foi exibida na TV estatal. CBF aponta ação “emergencial”

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 14 out 2020, 18h30 - Publicado em 14 out 2020, 12h03

Faltando pouco mais de uma hora para Peru x Brasil, em Lima, pelas Eliminatórias da Copa de 2022, não havia previsão de transmissão do jogo em TV aberta. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), então, trouxe a boa nova: havia comprado os direitos e repassado à emissora pública TV Brasil, que se organizou a tempo de mostrar a vitória brasileira por 4 a 2. A transmissão teve momentos inusitados, como abraços para o presidente da República, Jair Bolsonaro, e garantiu à emissora estatal a maior audiência de sua história, segundo dados prévios do Ibope.

A TV Brasil escalou sua equipe esportiva acostumada a transmitir jogos da Série D do Brasileirão: o narrador André Marques e o veterano comentarista Márcio Guedes. A equipe pediu ajuda dos telespectadores para espalhar a notícia de que a partida estava sendo exibida para todo o país. “Compartilhe no grupo de WhatsApp”, exclamou Marques. O tom da transmissão, claro, foi ufanista, tratando todos os lances discutíveis de arbitragem a favor da seleção brasileira como acertos – é provável que ocorresse o mesmo se Galvão Bueno estivesse narrando na Globo.

O narrador, porém, protagonizou cenas surpreendentes: por duas vezes, enviou abraços ao presidente da República, Jair Bolsonaro, “que está assistindo ao jogo”. Na segunda menção, estendeu os cumprimentos ao secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fábio Wajngarten, e ao presidente da CBF, Rogerio Caboclo, ao secretário-geral da entidade, Walter Feldman, e ao diretor Eduardo Zerbini. Afagos que contrariam os princípios de impessoalidade e soariam completamente absurdos em importantes TVs públicas como a italiana Rai ou a britânica BBC.

Ironicamente, pouco depois de ser eleito em 2018, Bolsonaro chegou a dizer que fecharia ou privatizaria a TV Brasil, chamada por ele de “TV do Lula” e que “dá traço de audiência”. Nesta terça-feira, 14, no entanto, o Ibope foi bastante satisfatório durante o jogo. Marcou 3 pontos de média, com picos de 4, na Grande São Paulo, em quarto lugar em pleno horário nobre, bem perto do terceiro colocado SBT, segundo dados prévios divulgados pelo Uol. Foi, portanto, o recorde de audiência da estatal na capital paulista – em cidades como Recife e Belém, já chegou até a vencer a Globo com partidas dos grandes clubes locais.

CBF vê ‘caso excepcional’

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Não foi a primeira vez – em 2017, amistosos contra Argentina e Austrália também passaram na TV Brasil –, mas a CBF espera que seja a última em que teve de interceder para não deixar um jogo da seleção brasileira “no escuro”. O jogo contra o Peru, na verdade, não estava totalmente indisponível, pois foi exibido normalmente na plataforma de streaming EI Plus, cuja assinatura custa 13,90 reais ao mês. No entanto, segundo revelou um membro da CBF a PLACAR nesta quarta-feira, 14, a entidade tem de “preservar o produto do ponto de vista do torcedor, ele tem de ter como ver a seleção de graça”.

A CBF ressalta que apenas “se colocou como socorro”, em uma medida “pontual e emergencial”, e apenas depois que foram encerradas todas as negociações com as emissoras privadas. A entidade explicou ainda que os valores nestes moldes (apenas para TV pública e site institucional da confederação) são bem mais baratos e que a CBF não se coloca como outro “player de mercado”. A expectativa da entidade, portanto, é que Globo, SBT ou outra emissora aberta comprem os direitos dos jogos fora de casa para as próximas rodadas.

A negociação de direitos de transmissão feita pela Conmebol é semelhante ao acordado no Brasil pela Medida Provisória 984/2020, conhecida popularmente como a “MP do Mandante”. As dez seleções que participam das Eliminatórias da América do Sul podem negociar os jogos que farão dentro de suas casas. Para transmitir um jogo da seleção brasileira como visitante, uma emissora precisa garantir os direitos das outras confederações.

A empresa Mediapro detém um pacote com os jogos do Brasil como visitante nas Eliminatórias. A Globo tentou chegar a um acordo para poder exibir as partidas na TV aberta e no canal por assinatura SporTV, mas não quis pagar os 20 milhões de dólares (110 milhões de reais) exigidos pela Mediapro. Até o momento, a emissora comprou apenas os jogos em casa de Brasil e Argentina – o que lhe garante a transmissão do clássico em solo portenho.

“A Globo tem os direitos de transmissão dos jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo que acontecem no Brasil e na Argentina. Nos últimos meses, buscamos entendimento com os detentores de direitos dos demais jogos, sempre dentro das condições atuais do mercado. Não houve acordo, mas permanecemos abertos ao diálogo”, disse a assessoria de comunicação da emissora carioca em comunicado.

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