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A realidade paralela de Belarus, onde a bola não parou pelo coronavírus

Governado há 26 anos por Aleksandr Lukashenko, um negacionista sobre os perigos da pandemia, o país do Leste Europeu segue colado ao "antigo normal"

Por Fábio Aleixo, de Moscou - Atualizado em 16 jun 2020, 14h59 - Publicado em 16 jun 2020, 14h55

Enquanto na Alemanha e na maior parte do globo se discutem medidas sanitárias cautelosas para a prática do futebol, a Bielorrússia – também conhecida como Belarus e tida como a última ditadura da Europa – vai na contramão de tudo isso. A nação do Leste Europeu, de 9,5 milhões de habitantes, viu seu campeonato começar em meio à pandemia, em 19 de março, e segue normal sem paralisações, ainda que os casos de Covid-19 tenham crescido exponencialmente e superem os 45 000 infectados. A ex-república soviética é governada com mão de ferro por Aleksandr Lukashenko, um negacionista do coronavírus, desde a sua separação do bloco socialista há 26 anos.

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Assistir ao campeonato local é como embarcar numa máquina do tempo, uma viagem a realidade paralela do “antigo normal”: gente nas arquibancadas (ainda que com média inferior a 1 000 torcedores por partida), aglomerações, rostos livres de máscaras, gol celebrados com abraços e aperto de mãos antes do pontapé inicial. Rituais banais, mas que podem assustar pelo momento que vivemos. “A opinião da população está dividida, mas quem vai a um jogo acredita que não é mais perigoso estar no estádio do que em um supermercado ou metrô. Não existem grandes restrições ou quarentena severa no país, cada um tenta se cuidar de seu jeito, evitando multidões, lavando as mãos etc”, diz Viktoria Kovalchuk, jornalista do portal TUT, de Belarus.

Esta opinião é compartilhada por Valeri Kolontai, torcedor do modesto Isloch que se tornou um símbolo mundial do futebol bielorrusso durante a pandemia por estar em todas as partidas de seu clube sempre tocando uma sanfona. “Muitos temem esta doença que afetou todo o mundo. Claro quе muitos torcedores se sentem mais à vontade em casa do que em um estádio. Mas aqui em nosso país não são muitas as pessoas que vão aos jogos. É diferente de outros países onde o futebol é muito popular. Eu vou ao estádio porque para mim é mais seguro do que viajar no metrô, onde todos se sentam juntos sem distanciamento. Ao menos é assim em nosso país”, disse.

A federação de Belarus não divulga publicamente sua política de testes ou controles sanitários. Porém, um caso de coronavírus no FC Minsk, time da capital bielorrussa, fez com que duas de suas partidas pela liga fossem adiadas. “Acredito que a federação e os clubes estão bastante conscientes da situação e organizados para que nada aconteça. Aqui no meu time fazemos testes toda semana, dois dias antes de cada jogo. Estamos tomando todos os cuidados necessários”, disse Gabriel Ramos, meio-campista do Torpedo Belaz e um dos nove brasileiros que disputam a liga de Belarus.

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Momo Yansane, atacante africano do Isloch, chegou a usar em sua conta no Twitter para “denunciar” que companheiros e integrantes do clube estavam com coronavírus, que sentia medo, mas ainda assim seguiam jogando. Alguns dias depois, afirmou que estava tudo sob controle e, inclusive, havia passado por testes para o coronavírus que haviam dado negativo.

Logo no começo do torneio, quando a pandemia estava em sua fase mais crítica na Europa e todos os torneios estavam paralisados, a FIFPro (Federação Internacional das Associações de Futebolistas Profissionais) criticou a decisão da Federação de Belarus de começar o torneio. Taxou-a de “incompreensível” e inclusive chegou a pedir a paralisação e a revisão de todas as medidas tomadas.

Dentro dos clubes também houve discrepâncias como conta Viktoria Kovalchuk. “As opiniões dos jogadores e dirigentes foram divergentes. Um dos líderes do Bate Borisov, Stas Dragun, afirmou que quem tivesse medo, poderia rescindir o contrato e não jogar. Outros comentaram a possibilidade de jogar sem torcida. Mas a verdade é que os atletas não tinham muita opção. Como iriam ficar em casa enquanto todos os outros estivessem treinando e jogando?”, disse.

O certo é que em meio à pandemia e quando todas as ligas estavam paradas, o futebol de Belarus lucrou. Isso porque os direitos de transmissão foram comercializados para cerca de dez países, como Israel, Sérvia e Rússia. Neste último, por ser um país vizinho e contar com 34 atletas no campeonato, diversas partidas foram e seguem sendo transmitidas no canal aberto exclusivo de esportes, a Match TV. Os valores dos contratos não foram revelados.

Pela plataforma de internet MyCujo e pelo YouTube são transmitidos jogos para países aos quais não houve venda de direitos. Porém, além do ganho financeiro, houve o retorno publicitário intangível e até a criação de grupos de torcedores na Austrália e Nova Zelândia. Neste caso o xodó foi o Slutsk. E por uma razão, digamos, não-convencional: “sluts” pode ser traduzido do inglês como “vagabundas”. Foi o bastante para atrair a atenção e diversos memes surgirem na internet.

Diversos perfis não-oficiais dos mais variados clubes foram criados em inglês para passar notícias e romper as dificuldades criadas pelo idioma russo. “A repercussão está sendo ótima. Estou tendo visibilidade e oportunidade de mostrar o meu futebol para quem não me conhecia. É bom também para o futebol bielorrusso, que era pouco falado”, disse Gabriel Ramos.

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