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50 anos do Tri: ‘um pra lá, um pra cá’, o novo passo do Rei

O Comentarista do Futuro de PLACAR confirma que o bolero foi reinventado por Pelé em 1970, na vitória sobre o Uruguai que levou o Brasil à final da Copa

Por Claudio Henrique - 17 jun 2020, 19h38

Guadalajara (México), 17 de junho de 1970

Aldir Blanc e João Bosco serão dois compositores brasileiros que vão surgir ainda nessa década e escreverão músicas e seus nomes na história da MPB. Ok, nunca se transformarão em figuras tão populares quanto o Simonal ou Topo Gigio, mas terão a felicidade de, daqui a cinco aninhos, criar um bolero de nome “Dois pra lá, dois pra cá”, aguardem… Sim, um bolero, ritmo nascido em Cuba mas que faz sucesso em outros países da América Latina, como o Uruguai – um aprazível conglomerado de fazendas que se refestela entre Brasil e Argentina, onde nascem bons boleiros, mas que enviou ao México um selecionado inapelavelmente abatido pelo nosso escrete ontem: 3×1 pra nós. Mais uma vez nessa Copa o gol foi mero coadjuvante do espetáculo. Daqui a 50 anos, 2020, de onde venho, enviado por Placar, lhes garanto que bem mais famoso que os quatro tentos da peleja será o lance em que Pelé deu um drible de corpo ou, se preferirem, um corta-luz no arqueiro Mazurkiewicz, o popular “sopa de letrinhas”, reinventando a forma de dançar o famoso ritmo sul-americano: “um pra lá, um pra cá”. Preciso repetir aquela frase: a bola não entrou, mas foi gol do futebol.

Os jornais brasileiros desses anos de chumbo certamente devem amanhecer amanhã tingidos por manchetes que dirão algo como “enterramos o fantasma”, numa alusão ao Maracanazo de 1950. Pois preciso adiantar que daqui a meio século ainda ressuscitaremos essa tal “assombração” repetidas vezes, a cada jogo com a Celeste, incluindo amistosos. Pior: leremos títulos com referências a isso, assistiremos reportagens de TV … Vocês chegarão à conclusão, como eu, de que o tal fantasma de 50 na verdade só tocará terror no jornalismo esportivo brasileiro. Mas voltemos as mundo dos vivos: ganhamos dos uruguaios e vamos à final. E vou aqui citar outro nome da música, este pouco conhecido dos brasileiros mas guardado no coração dos mexicanos: Consuelo Velázquez, por acaso nascida em Jalisco, autora e primeira intérprete de, nada mais, nada menos, “Besame Mucho”, talvez o bolero dos boleros. Digo isso para, como num passe longo do “canhotinha”, concluir para as redes mandando um recadinho aos uruguaios: “Beijinho, beijinho, tchau, tchau!” – expressão que no futuro vocês conhecerão na voz de uma herdeira do Topo Gigio nos horários nobres da TV. Ele rato; ela, gata.

Teve susto, vá lá, no tento de Cubilla, mas nada que apavorasse esse escriba do futuro, já provido de placares finais. No momento do gol só conseguia pensar numa epifania que cultivarei pelas próximas décadas e vou enfim confessar: é engano meu ou toda seleção sul-americana tem um jogador chamado Cubilla? O Uruguai tem. Assim como o Peru, abatido no último jogo, que convocou um Cubillas com esse no final (esse vale por dois!) pra chamar de seu. Por falar em curiosidades de nossos países hispano-americanos, precisamos reconhecer que nosso primeiro tempo foi tipo comida sem pimenta para os mexicanos: insosso. Não vi Nelson Rodrigues nas cabines, mas desconfio que ele esteja nesse momento batucando nas pretinhas e decretando que foram esses os piores 25 minutos já vistos numa Copa. Sorte nossa que, ainda na primeira etapa, já nos acréscimos, os chamados minutos derradeiros, empatamos, Clodoaldo. Ufa… E voltamos para a segunda metade do jogo com a certeza de que o futebol brasileiro nasceu 40 minutos antes do nada. Num Fla-Flu, isso todo mundo já sabe. Caso seja novidade, creditem ao papai aqui.

No futuro, antes de ter visto o embate na íntegra e sem jamais ter colocado o pé em Guadalajara, nunca soube os bastidores dessa transformação do nosso Onze nessa semifinal de 70. Mas agora sei, porque ontem tive a sorte de esbarrar com um repórter que se consolidará como “o cara” no jornalismo esportivo, o Pelé da parada, Oldemário Touguinhó. Fala “Old”! Esse sabe tudo. Preciso tirar uma onda: terei a honra de trabalhar com a figura no fim dos anos 90. Ontem ele ainda não sabia disso, claro, por isso só trocou algumas palavras comigo porque insisti muito. Extraí dele a informação de que, no intervalo, quem sacudiu a turma e chamou todo mundo na chincha rumo à vitória foi o bom e Velho Lobo, Zagallo. Pois não é que esse danado vai repetir esta prova de liderança na última Copa desse século?

Sim, revelo a vocês que, em 1998, Zagallo protagonizará cena que entrará para sua carreira de único pentacampeão mundial (xiii, entreguei…). Primeiro preciso explicar que no futuro jogos eliminatórios que terminem 0 x 0, mesmo após a prorrogação, serão decididos em cobranças alternadas de cinco pênaltis para cada equipe. Sim, sei que parece estranho, mas vai ser assim, acreditem… Há dois anos, 68, um tal Yosef Dagan não se conformou em ver a sua seleção de coração, Israel, ser desclassificada pelo sistema cruel usado até aqui, o cara-ou-coroa, e teve essa ideia, que, aliás, anotem, daqui a dez dias será anunciada oficialmente pela Fifa. Nem jogo extra nem “na moedinha”: disputa de pênaltis! Até o longínquo 2020, dois Mundiais serão decididos assim, um deles com a gente na disputa. “Vai que é tua, Brasil!”

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Mas onde estávamos? Ah, sim, no México, isto é, na França, Copa de 98. O Brasil empata com um time europeu de belas camisas alaranjadas e vamos para as penalidades máximas. Zagallo dirige-se até seus comandados, os jogadores, um a um, como “formiguinha”, um de seus apelidos, distribuindo palavras motivacionais antes de uma disputa de pênaltis. Tal qual o vestiário no intervalo entre Brasil e Uruguai. Como bom malandro, nos anos 90 ele fará isso não tendo azulejos e banheiras como testemunhas, mas sim diante das câmeras de TV, no gramado. O cara tem mesmo visão de futuro, inventou até o 4-3-3, sabia? E seguem boas notícias: nessa disputa nos pênaltis de 98, sairemos vencedores. Pena que depois, nesse mesmo Mundial, teremos um argelino comendo a bola pela França, muitas teorias da conspiração e um jogador nosso com estranhas convulsões que, na véspera da final, teria apagado no hotel… E porque não? Ontem também vimos o Uruguai apagar. No segundo tempo…

Se recuperamos o brilho na etapa final, o Uruguai, por sua vez, foi esmaecendo aos poucos. Aliás, já entrou em campo com uma camisa que desmerecia a alcunha de “Celeste”. Terá sido o sol dessas terras? Não sei, mas tive a sensação de que os uruguaios tinham pedido as casacas emprestadas da Romênia, aquela da primeira fase, lembram? Tadinha… Pobre também a garra uruguaia, que sucumbiu aos predicados do nosso escrete. Predicados, sujeitos, objetos diretos e advérbios… Uma gramática perfeita sobre o “jogar futebol”. Aos 16 do segundo tempo, Pelé arrancou driblando uns 18 uruguaios e foi vítima, pela terceira vez nesse Mundial, de uma penalidade não marcada. Falta fora da área, e o Rei dá um chute que, graças a Deus, jamais foi incluído nos VTs de melhores momentos do jogo. Foi lá em Montevidéu. Viva os editores de imagem na televisão! Preciso fazer as pazes com eles…
Dois minutos depois veio mais um daqueles momentos que bota o Gol no sofá dos figurantes dessa Copa. Mazurkiewicz, aquele mesmo, o “sopa”, bate o tiro de meta e Pelé devolve de voleio, num “forehand”, mostrando que, além do futebol, também é Rei no tênis – sem falar, é claro, na maior de suas habilidades esportivas, a peteca. Estava de volta aquele Brasil que a gente conhece! O mundo também. Hoje atuando completo, pois Zagallo ouviu as minhas súplicas e trouxe de volta Everaldo, agora já quase um monstro sagrado aos meus olhos. O tempo, aliás, é e sempre será o melhor lançador de talentos neste esporte. Apurados pela nostalgia, muitos cabeças-de-bagre já voltaram aos campos da nossa memória como craques inesquecíveis. E sempre será assim. Pelo bem das nossas tardes de domingo. E noites de quarta. E noites de segunda. E terça. E domingo às 11… Jogo de Futebol no futuro vai ser como boleto pra pagar conta. Quase todo dia tem um. Mas em 2020 vão dar um tempo. Quarentena. E vai dar saudade…

Trinta do segundo tempo e lá estou eu na área da imprensa, de onde conseguia ver o Oldemário, nem aí pra mim. Foca. O Brasil dominava mas ainda não conseguira virar o jogo. Tensão no ar. Foi quando Tostão botou Jair “na boa”, chute cruzado, 2×1 Brasil, e começou o baile. Trinta e três: Pelé engorda a lista de lances eternos da Copa 70 sem a participação desse tal de Gol, dando aquela cotovelada certeira e visualmente inofensiva no uruguaio Fontes, que já distribuíra pancadas como balas em dias de São Cosme. Pra nossa sorte, o juiz, José Maria Ortiz de Mendibil, não tem como oculista o mesmo doutor que cuidou do Tostão. Não viu lhufas. E ainda marcou falta a nosso favor. Se fosse expulso ali, o “negão”, o universo não veria, como verá em alguns dias, o espetáculo que o Rei dará na final. E usando todas as partes do corpo com exceção do cotovelo: pés, pernas, cabeça, quadril…
O jogo estava tão bom nesse segundo tempo que aos 40 até Zagalo quis entrar na rodinha. Quando vi, o treinador já estava lá no grande círculo. Só faltou levantar o dedinho pedindo a bola. No futuro três figuras dessa jornada épica trocarão declarações desencontradas que farão serem muitas as versões do “verdadeiro cérebro” na formação desse time. Zagalo? Saldanha? Gerson? Eu desconfio que esteja sendo o Everaldo. Caladinho, ali na dele, mas só arquitetando tudo… Ou Félix, que aos 43 salva mais uma vez o Brasil, novamente indo na bola “como um gato”. Lancei um olhar de reprovação aos meus pares jornalistas no estádio: qual deles estará planejando publicar inverdades para desmerecer as qualidades do goleiro às futuras gerações? Aos 44 e trinta… Riva. Patada atômica. Pronto, acabou o jogo. Qual nada! Aos 46, ou quase isso, é quando se dá a “Recriação do Bolero” pelo Pelé: “Um pra lá; um pra cá” … Para usar um jargão gasto do esporte, digamos que o Rei chamou o “Mazurca” pra dançar. Passei 50 anos sem me dar conta de que este lance acontece já nos acréscimos. Puro Pelé, naquele que seja talvez o seu momento maior como bailarino da bola: sincronia, inventividade, firmeza e suingue. Tudo condensado num único lance. Deus criou o mundo em sete dias. Pelé fez o mesmo com o Bolero em sete passadas. Bonito isso…

Foi também dando passos, mas apressados e bem menos graciosos, que segui em direção à sala de imprensa, para garantir vaga em uma das máquinas Remingtons disponíveis. No caminho, fui interceptado por um jovem que logo reconheci. Era Armando Nogueira, jornalista que atravessará Mundiais sendo um de seus mais refinados cronistas. Tentei também dar uma finta de corpo no nobre colega, mas não consegui. Mesmo sem fazer a mínima ideia de quem eu era, ele me parou e disse, poético: “A bola da Copa é o gesto sem bola de Pelé, aplicando um maravilhoso “corta-luz-clarão” de inteligência que a memória dos meus olhos não esquecerá jamais.” Acho que ele entendeu meu sorriso amarelo e desconcertado como sinal de aprovação, pois se afastou me prometendo que escreveria isso na edição de amanhã do “Jornal do Brasil”. Foi mesmo um lance histórico. Com a finta e outras pérolas no México, Pelé só deixará uma coisa para os torcedores do futuro: saudade. “Perdones”, ou melhor, “Disculpame”, acho que bateu o Armando em mim…
Nunca antes na história deste ou qualquer país tínhamos visto algo assim. No futuro teremos um craque de Quintino que fará algo bem semelhante, e acertando o gol, mas até ele mesmo reconhecerá: contra o ADN! Aturdidos com o ineditismo da jogada, os jornalistas que testemunhavam a façanha ontem no estádio, inclusive esse mochileiro das falácias que vos fala, nos entreolhamos. Foi quando me ocorreu que, de tão diferenciada, talvez achassem algo de ilegal no lance. Sorte que eu estava sentado próximo ao lustroso Mario Vianna, comentarista de arbitragem da Rádio Globo. Percebendo a interrogação em meu olhar, ele se aproximou do meu ouvido e cochichou: “A regra é clara…” Os deuses do tempo são como os do futebol: nos surpreendem.

O próximo meio século também nos reservará outro lance histórico entre Brasil e Uruguai que envolve um craque correndo em alta velocidade. Não em direção ao gol, mas rumo ao túnel que leva ao vestiário do Maracanã. Um lance que terei a felicidade de testemunhar da arquibancada do estádio, isso daqui a seis anos, quando Rivellino, esse mesmo, de bigode, sempre irritadiço e parecendo estar à beira de uma explosão de brutalidade, terá seu dia de caça. Ao perceber que um jogador uruguaio, Ramirez (o sobrenome talvez seja Cubilla, não sei…), corre pelas suas costas, tentando revidar um soco, Riva dispara também, em fuga, e escorrega nas escadas… Uma cena compreensível mas de comédia pastelão, que será uma pedra na chuteira do craque, somente pela maldade dessa imprensa esportiva, da qual farei parte, mas em parte. Os dois, Rivellino e Ramirez, um dia se encontrarão, sem ressentimentos. E não será difícil mesmo topar com o Ramirez no Brasil nos próximos anos. Desconfio que aquela corridinha será pura jogada de marketing, pois depois do lance até no Flamengo este uruguaio vai jogar. Sem falar nas dezenas de clubes em que passará, seja como atleta ou treinador. De Santo André a Payssandu. Tipo “arroz-de-festa”. Ou melhor: “chivito de festa”!

A carreira da Celeste uruguaia na história das Copas não terá muito fôlego. Ao menos até 2020, vão parar por aí mesmo, bicampeões mundiais – embora eu seja simpático ao pleito deles sobre o título olímpico, mas que fique entre nós. Ainda nos presenteará com belos jogadores, tenho que admitir. Mas continuarão fregueses nossos. De carteirinha. Que venha a final contra a Itália! Tão pertinente ao momento do nosso planeta que parece ter sido armada pela máfia da Fifa (alguém já falou sobre isso?). Um jogo que decidirá quem leva, de uma vez por todas, a Taça Jules Rimet pra casa. Já disse aqui, não é novidade, que essa bagaça será nossa. Vai com a gente pro Brasil, il, il, il!!! (para ser lido com voz de Edmo Zarife) Sinto, porém, informar a todos que será uma disputa inócua. No século 21, na última vez que foi vista e reconhecida por alguém em toda sua celebridade, estava bem “fora de forma”. Pra falar a verdade, a taça terá tomado a forma de uma massa de metal derretido. Mas não vem ao caso. Para que algum dia tenhamos essa marca na história de nossa pátria precisamos primeiro conquistá-la, certo? Que venha a Azzurra! Enquanto a final não chega, convoco os 90 milhões de brasileiros a comemorar. Particularmente, resolvi que não me lançarei mais uma vez num ataque desenfreado às tequilas. Esta noite de festa faço questão de dedicar a Aldir Blanc e João Bosco, esses futuros campeões mundiais da canção. Cantarolando a letra do bolero, hoje eu vou de “uísque e guaraná”.

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