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50 anos do tri: Drácula, Chaves, Nelson Rodrigues… Brasil 3 x 2 Romênia

‘Comentarista do Futuro’ segue em sua viagem pelo tempo e escala sua seleção de memórias ao ver o Brasil se classificar para as quartas-de-final no México

Por Claudio Henrique Atualizado em 10 jun 2020, 14h08 - Publicado em 10 jun 2020, 12h37

Dando sequência à viagem no tempo feita pelo jornalista Claudio Henrique, “enviado especial” de PLACAR ao passado, falamos nesta quarta-feira 10 sobre o jogo entre a seleção brasileira, e a surpreendente e exótica seleção da Romênia. Uma vitória por 3 a 2 em Guadalajara, com um gol de Jairzinho e dois de Pelé, garantiu ao Brasil à vaga na segunda fase. Confira abaixo o relato “inédito” de nosso correspondente tardio na Copa do Mundo de 1970, há 50 anos.

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Guadalajara, 10 de junho de 1970

Que meus editores não me leiam, mas hoje à tarde, antes desse Brasil 3 x 2 Romênia, deixei meus simpáticos aposentos em Tlaquepaque, aprazível bairro de Guadalajara, rumo ao El Jalisco com a mesma tensão que, no futuro, anos 2020, torcedores do Flamengo seguirão ao Maracanã para enfrentar o Olaria, aquele da Rua Bariri. Tamanho relaxamento me permitiu, inclusive, perder alguns minutos do início do jogo ao estender, nos arredores do estádio, um papo ótimo e algumas tequilas com um torcedor mexicano de camisa amarelinha, Juanito, xará do mascote do Mundial.

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Ciente das minhas responsabilidades com a Placar, que me enviou do futuro para testemunhar e comentar essa jornada de nosso escrete na Copa de 70, baixou em mim um sentimento profissional e patriota, talvez o espírito de Emiliano Zapata, e adentrei o estádio para cumprir minhas obrigações. Mas também envolvido pelo ôba-ôba da torcida após os dois primeiros jogos, tanto que acabei perdendo mais alguns minutos de partida observando, com a curiosidade dos viajantes do tempo, quem são hoje os anunciantes do futebol, quais as marcas estampadas nas placas ao redor do campo: Phillips, Martini, Findus, Esso… Ah, se vocês soubessem… Até o jornal “Daily Mirror” nesses anos 70 tem bala para estar ali. Despertei com mais um chute de Paulo César no começo do jogo e garanto que assisti, se não os 90, pelo menos 80 e blau minutos de bola rolando. Mas acompanhar este confronto foi como ver um episódio aleatório do “Chaves”: não fez muita diferença.

Antes que me perguntem, vou logo explicando: “Chaves” é o nome no Brasil de um seriado cômico que será inventado aqui mesmo, no México, ano que vem, como contei ontem ao Juanito. “El Chavo del Ocho”, seu nome original, por mais inofensivo que venha a parecer, acabará se transformando numa filosofia de vida, influenciando gerações e gerações. Mais ou menos como esse jogo que tive a honra de presenciar. Parecia ser apenas um “cumprir tabela”, mas fez diferença sim, principalmente para os romenos, que daqui a 50 anos ainda relembrarão esse momento épico de sua história no futebol. Sem falar que, mesmo ganhando de tchecos e ingleses, o Brasil não entrou em campo classificado. Se perdesse da Romênia, dependendo do número de gols, a história seria bem diferente. Por exemplo: jamais chegaríamos a ter na memória nostálgica do Rio de Janeiro um barzinho à beira da praia chamado “CANECO 70”…

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Desta vez não vi um jogo. Vi dois. A começar pela insistência daquela sombra gigante que a marquise do estádio deitava sobre a grama. Tinha um jogo a cores, na metade superior do campo; e outro disputado como se noite fosse, na parte de baixo. Ao menos da posição onde eu estava, ao lado das cabines de rádio e TV, pertinho do Waldir Amaral. Além disso, tivemos um início arrebatador da nossa seleção e depois uma partida diferente, da qual eternamente dirão que o escrete fez corpo-mole ou, para usar outra linguagem setentista, rebolou. Particularmente, gosto mais de usar a expressão “de salto-alto”, numa alusão àqueles calçados que estão fora de moda hoje, perdendo feio para as sandálias baixas, mas que vão voltar com força total nos anos 80, ah, e como vão…

Os primeiros 25 minutos da seleção, aposto que Nelson Rodrigues está datilografando isso neste exato momento, foram e serão os melhores da história, “jamais atingidos em qualquer Copa”, em palavras que ofereço ao mestre. E olha que Gerson não jogou. Rivelino também não. Mas é em momentos como esse que aparecem os everaldos da vida. Até um chute perigosíssimo nosso lateral deu, isso após uma sequência atrevida daquele “negro metido a branco, que usa roupas espalhafatosas e desfila pela noite carioca com louras” (na verve da preconceituosa classe média brasileira desses anos 70, e que infelizmente não mudará muito até 2020, de onde venho). Falo de Paulo César, esse outro Deus do futebol que jamais foi garoto propaganda da Maguary mas um dia ganhará o apelido de Caju. Foram 3 arremates a gol do P.C. antes de termos dez minutos de jogo (o primeiro eu perdi, confesso), um deles no travessão.

Sim, nossos jogadores deslizaram como cisnes, e que ninguém copie esta minha frase, já tem dono! Vantagens da máquina do tempo, mestre Nelson! No futuro teremos uma ferramenta ainda não inventada para comentaristas de futebol: o scout, contagem detalhista e quase neurótica do tempo de posse de bola de cada time, número de chutes a gol, passes errados… Tentei rascunhar um desses anotando tudo sobre os tais 25 minutos de ouro mas me perdi na hora do gol do Rivelino, que entrou em campo fantasiado de Pelé e bateu uma falta como só o Garoto do Parque sabe fazer. Aos torcedores do Corinthians já aviso que em breve esse menino de bigode vai passear por outros parques, cercados de frondosas Laranjeiras, e mais não digo. Outro destaque desse início de partida foi Clodoaldo, que também me fez suspeitar que talvez fosse o Gerson vestido de Corró, apelido do santista. Magias e superstições que só acontecem com a Romênia, esse país que guarda em suas fronteiras a Transilvânia. Mordam essa!

Na série “notícias de daqui a 50 anos”, adianto a vocês que a Romênia participará de mais três Copas, encantará o mundo com um meia habilidoso, Hagi, que vai jogar no Real Madrid, e que nunca mais enfrentará o Brasil em Mundiais. Serão apenas poucos amistosos até 2020, um deles marcando a despedida de um grande talento que teremos ainda neste século, de dentes também enormes. Infelizmente, nesse jogo derradeiro, o tal atacante também exibirá dimensões gigantescas em sua cintura, mas nada que ofuscará sua carreira de conquistas. Um fenômeno.

Adorei ver Fontana em campo, pois tive um botão com o nome dele na minha infância. Eram uns modelos engraçados, que tinham a carinha e o nome do jogador numa espécie de disco de latão coberto por um plástico… Alguém, como eu, há de se lembrar. Tive também ontem outras “memórias do futuro”, se é que me entendem. Já no segundo tempo, um tal de Tataru, romeno, bateu uma falta lá do meio da rua e por pouco não surpreende nosso Félix. Na primeira Copa do século que se aproxima teremos um jogador com dentes ainda maiores do que os descritos acima que fará um gol importante em lance quase idêntico, contra os ingleses. Félix espalmou, mas o futuro goleiro britânico, David Seaman, não terá a mesma sorte. Provavelmente não assistiu ao jogo, pois hoje tem apenas sete aninhos. Um gol quase espírita que somente 15 anos depois o seu autor, o tal dentuço, vai admitir que não era bem aquilo que ele queria fazer. Acho que o Tataru também não.

Mas a peleja contra os romenos, ao contrário do Drácula, não chegou a assustar ninguém. Ganhamos, quando o empate já nos bastaria. Edu e Marco Antônio, tão pedidos pela galera, entraram, mas tocaram na bola menos que o Dembrovsky, um dos que corriam em campo de camisa azul piscina. Tostão voltou a ser gigante, mesmo em seus 1,72 m. E deu aquele passe mágico, que alguns chamam de “chaleira”, mas há controvérsias. Adoro essas polêmicas e variantes de nomes que são dados a jogadas no futebol. A vocês que, até aqui, só conhecem a Folha Seca e Lençol, comunico que eles se multiplicarão como Mariachis nas ruas de Guadalajara. Vai ter Elástico, Pedalada, Drible da Vaca, Lençol vai virar Chapéu…

Teremos até uma jogada batizada como Chilena. A criatividade é livre. Pensei, por exemplo, em passar a chamar de “substituição romênica” sempre que um time trocar um jogador no início da partida, que tal? Ontem foi assim: o goleiro deles saiu antes de meia-hora de jogo. Estranho, não? Mas sem críticas. Sou e serei sempre fã dos romenos. Daqui a seis anos, inclusive, “lembro” bem que vou me apaixonar louca e platonicamente por uma romena, Nádia, que será coroada princesa nos Jogos Olímpicos de Montreal. Taí: acabando a Copa, já sei qual a minha próxima viagem no tempo…

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