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50 anos do Tri: contra o Peru, provamos que feijoada é melhor que ceviche

Comentarista do Futuro de PLACAR segue em sua viagem no tempo e, agora, testa os neurônios com as memórias da vitória do Brasil sobre o Peru na Copa de 1970

Por Claudio Henrique - 14 Jun 2020, 12h18

Não sei se é culpa da sucessão de jogos ou a de tequilas, mas crescem em mim estranhas divagações sobre a vida nessa viagem no tempo. Compreensível. Não é todo dia que somos enviados por PLACAR a retornar 50 anos no tempo e ver o passado com os olhos de hoje, ainda mais sendo ele a mística Copa de 1970, que sempre atuou mais em minha memória afetiva do que na real. Ao assistir a essa quarta peleja do Brasil no estádio Jalisco, me veio à lembrança uma imagem remota, guardada na coruja da minha baliza de referências no futebol: Tostão fazendo um gol no Peru e em seguida levando a mão ao olho, preocupado se teria ou não mais um vez machucado a retina, único zagueiro que será capaz de parar esse craque nos gramados, para sempre. Logo ele, um jogador de visão privilegiada.

Sentei na tribuna pensando isso. Terá mesmo acontecido? Ou foi apenas uma folha-seca que os anos deram na minha cabeça? Dentro de poucos dias a editora Bloch – que em 2020 não existirá mais – lançará uma edição especial da revista Manchete, “A Epopéia do Tri”, que ainda terei guardado comigo daqui a meio século. Quando voltar ao tempo presente, vou procurar essa danada e verificar se não foi numa de suas fotos que registrei o dramático instante. Passado e futuro… Vejam vocês: é como jogar futebol “pra trás” ou “pra frente”. Poucos conseguem dominar esta arte como o escrete de 70. Esse Brasil 4 x 2 Peru foi a maior prova disso.

A Seleção de feras tem mesmo total controle sobre o manche do jogo. No futuro, amigos, também veremos essa sutil habilidade de avançar ou se manter em guarda, mas apenas em partidas disputadas por jovens sentados diante de computadores, dominando não a bola mas um teclado. Terá seu valor! No certame analógico em análise, foi um dia especial da jornada canarinha, até porque eram não 11 mas 12 craques brasileiros em campo. E o 12º jogador não era a torcida, que, aliás, desta vez balançou no amor ao Brasil, sensibilizada pelo terremoto que dias atrás matou mais gente no Peru do que tinha nas arquibancadas de Guadalajara.

O capitão brasileiro Carlos Alberto (de costas) cumprimenta o compatriota Didi, herói da conquista em 1958 e que no Mundial do México treinava a seleção do Peru Arquivo/VEJA

Eu me refiro a Didi, o “Príncipe Etíope”, nas palavras do mestre Nelson, ou o “Senhor Futebol”, como foi chamado pela imprensa europeia ao ser escolhido o melhor jogador da Copa de 1958. Vale aqui o canto: “A-ha! U-hu! O Didi é nosso!”. Tanto assim que, mesmo sentado no banco adversário, como treinador dos peruanos, o craque levantou-se ao soar nosso Hino Nacional. Feijoada 10 x 0 Ceviche. Mas sinto dizer que nas próximas décadas ele será mais lembrado e cultuado lá nas cercanias dos Andes do que em sua terra natal. Na Etiópia não. Nem sei porque cargas d’água o Nelson Rodrigues veio com essa. Existiriam tequilas na Suécia?

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Rolou a bola. Ou, numa homenagem ao Januário, narrador que vocês hão de amar nos anos 80 e 90: “Taí o que você queria…!”. Nos primeiros 10 minutos, fizemos e vezemos. Domínio total, culminando naquele chute do Riva, o famoso “de três dedos” – mas nunca tive certeza se o mindinho entra ou não nessa conta. Sério: quando deu 15 minutos, já 2 a 0 pra nós, pensei se aqueles tais 25 minutos iniciais contra a Romênia teriam sido mesmo os melhores da jornada campeã, como vaticinou Nelson Rodrigues. Bem, tequilas aqui não faltam… “Cruel, muito Cruel!”. Grande Januário…

Rivellino durante jogo entre Brasil x Peru, partida válida pela Copa do Mundo de 1970 Sebastião Marinho/Placar

Amei o Brasil até esse primeiro quarto de jogo. Tudo lindo, inclusive o estilão dos nossos craques, com a mais bela camisa canarinho já desenhada. E mesmo com essas meias cinzas, que, dizem, foi determinação do Zagallo, superstição do botafoguense, como o número 13, seu eterno e fiel auxiliar técnico. O Peru não fazia feio, ao menos no visual, com o manto que deve ser sagrado pra eles. Essa camisa alvirrubra, inclusive, daqui a alguns anos será eleita em votação popular como a mais bonita já envergada nos Mundiais (seguida pela amarelinha do México). Essa coisa de faixa cruzando o peito dos jogadores tem suas lendas. No Brasil, daqui a 50 anos, Vasco e Ponte Preta ainda estarão disputando o “título” de quem foi o primeiro clube a adotar este design no uniforme. Mas foi o argentino River Plate mesmo, 1901. Segue o jogo.

Bem, aos 28 o Peru descontou, numa “tabelinha” do Galhardo com o nosso Félix. No futuro chamaremos lances assim de “assistência”: quem faz “meio gol”. Como o tento peruano ocorreu após os 25, está desmentida a lenda do primeiro quarto de jogo contra a Romênia. Teve até uma bola na trave do Pelé, após mais uma tacada de sinuca do Gérson. Outro lance para a galeria dos que me serão negados nos próximos 50 anos. Ah, esses editores de TV, os responsáveis pelos “melhores momentos” … Já falei deles em resenha anterior. Eles são como o Marco Antônio, nosso lateral ontem: a gente confia e pensa que vão dar conta do recado, mas escondem o jogo. Chamem o Everaldo!

Aos 36, novo chute de Pelé que será mantido como segredo de estado – talvez seja a censura, anos 70… O goleiro peruano tenta defender, a bola escapa, e vai caprichosamente na trave, voltando às mãos do arqueiro. É uma dessas coisas que só acontecem uma vez na vida, certo? Errado. Preciso contar a vocês que teremos a mesma emoção daqui a 24 anos, e numa final de Copa, em que um cabeça-de-área de nome composto, como cantor romântico, Mauro Silva, desferirá uma bomba contra a meta da Itália e a pelota cumprirá traçado quase igual. Mas longe de estar aqui comparando o Rei ao Maurão. Como eu, enviado de 2020, esses dois estão há pelo menos 50 anos de distância. Anos luz!

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Pelé, do Brasil, disputando lance com jogador do Peru, durante jogo das quartas-de-final da Copa do Mundo de Futebol, no Estádio Jalisco. Sebastião Marinho/Placar

Veio o segundo tempo e o Brasil só ali, na maciota, controlando o acelerador com a habilidade de um Fittipaldi, já ouviram falar? Tá estreando este ano na Fórmula 1. Quando a Seleção resolvia acelerar, era um Deus nos acuda, ou qualquer outra divindade Inca, sei lá! Alguém precisava salvar a defensiva peruana. Lançamento para Jair e gol. Gérson? Não, Rivelino. A genialidade do escrete de 70 é divina como a matemática: a ordem dos fatores não altera o produto. Depois disso nada digno de nota. O importante é que finalmente Tostão desencantou. Ele já vinha sofrendo pressão por não ter ainda marcado gol no México. Afinal, centroavante é pra “botar pra dentro”, ora bolas, sejam quantas forem… As bolas!

Vou ajudar na preservação de alguns de seus futuros cabelos brancos avisando que nos próximos Mundiais teremos, até 2020, de onde venho, um centroavante que passará a Copa em branco. E além de passar por essa situação constrangedora, na partida que nos eliminará da disputa, vai dar uma ajudinha básica ao adversário ao ser um dos dois jogadores que sobem numa bola cruzada na área em jogada que acaba em gol contra. Não será ele a tocar na bola, mas vai estar no lance. Ou seja: até gol contra ele vai perder! Ai, Jesus!

Doloridos também serão os seis murros que levaremos, ainda nesses anos 70, como um troco mal dado pelo Peru, nos impedindo de chegar a mais uma final de Copa. Em respeito ao Didi, que hoje ainda está entre eles, mesmo que voltando pra casa, não vou dar detalhes desta farsa, momento triste da história do futebol peruano e mundial. Adianto apenas que vai ter argentino no meio. Detalhe: jogando como goleiro do Peru.

Antes de terminar, quero registrar que, olhos atentos, atestei que, ao fazer seu segundo gol no jogo, Tostão leva sim uma das mãos ao rosto, pude comprovar, mas não ao olho e sim à orelha, por conta, desconfio, de uma traulitada que deu na trave. Menos mal, ou teríamos mais um motivo para falar mal do Ditão, zagueiro do Corinthians que há menos de um ano acertou um chute no olho do atacante. Por pouco o craque cruzeirense não perde este baile no México. Se for campeão, inclusive, sugiro ao Tostão que dê a medalha ao médico que o operou nos EUA. Ideia minha! Registre-se.

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Vilões, mesmo que inocentes, como Ditão, voltarão a surgir no futebol. Vocês se lembram do Morais, né? Aquele portuga que tirou o Pelé da última Copa? Pois ainda conhecerão Márcio Nunes, um beque do Bangu que vai quebrar ao meio um de nossos futuros craques, de origem tão franzina que terá nome no diminutivo e apelido de galinho. Mas futebol de gigante. Ou Zuñiga, um lutador de Taekwondo que fará um “bico’ como lateral da Colômbia e, em pleno Mundial no Brasil, vai entrar numas de treinar seus tchaguis nas costas de um atacante nosso, Neymar, faixa-preta em Kai-kai.

Mas vamos dar logo um “ippon” nesse texto. Deixei o El Jalisco com duas sensações de alívio: por passarmos à semifinal; e a de, testemunhando a onírica cena de Tostão com a mão no rosto, não ter sido eliminado dessa cobertura épica por contusão nos neurônios. Eles ainda batem bola aqui nessa cabeça. Mesmo que meio bêbados e com a cegueira fantasiosa que nos acomete depois de meio século de vida. Já-já estarei de volta ao Século 21. E espero que não seja após a batalha contra os Uruguaios. Por isso, Zagallo, bota o Everaldo!

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