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Wilson Witzel: “Não há diálogo com Bolsonaro”

O governador, que se elegeu sob a alcunha “Bolsowitzel”, dispara contra a lentidão de Brasília no combate ao coronavírus e diz que não haverá colapso no Rio

Por Cássio Bruno, Sofia Cerqueira - Atualizado em 27 mar 2020, 08h52 - Publicado em 27 mar 2020, 06h00

Um dos primeiros governadores a adotar medidas drásticas no combate ao avanço do coronavírus, Wilson Witzel, 52 anos, do Rio de Janeiro, tem se esmerado nos últimos tempos em ressaltar seu protagonismo na crise, em comparação à lentidão da administração de Jair Bolsonaro, com quem não conversa mais a sós. Na terça-feira 24, o confronto ficou evidente. Mal o presidente encerrou um pronunciamento em que condenou o efeito da quarentena na economia do país, Witzel voltou a insistir no isolamento e conclamou: “Não saiam de casa”. No dia seguinte, repisou no ponto, divergindo de Bolsonaro em videoconferência que reuniu também outros governadores. Por trás dessa atitude ronda o incontornável espectro da candidatura de Witzel à Presidência em 2022, que já foi explícita, mas deixou de ser. “Não é hora de falar disso”, esquiva-se. Na varanda do Palácio Guanabara, onde exigiu que repórteres, assessores e até o garçom usassem máscara (todos, menos ele próprio), o governador do Rio, que na campanha era “Bolsowitzel”, concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

O senhor baixou um decreto que regula voos e restringe a circulação em estradas, que são atribuições de Brasília. Foi uma provocação ao presidente Bolsonaro? Não. A decisão que tomei estabelecia proibições que viriam a ser chanceladas pelas agências reguladoras. Meu decreto dizia isso claramente, demonstrando que nós estávamos fazendo a nossa parte. A celeuma foi absolutamente desnecessária.

Por que Brasília não endossou seu pacote? Não posso falar pelo governo federal.

Bolsonaro demorou a agir no combate ao novo coronavírus? Posso responder apenas pelos meus atos. Reuni o secretariado na quinta-feira 12, já com a orientação de que havia contágio local na cidade do Rio de Janeiro e que medidas deveriam ser tomadas. Sabíamos que tínhamos de fazer restrições e nos preparar para problemas econômicos futuros. Agora, sim, o governo federal tardou não só em tomar providências, como ainda não apresentou solução para a crise econômica que vamos ter de enfrentar amanhã. O Ministério da Saúde, de forma louvável, estabeleceu protocolos. Mas a área econômica não o acompanha na mesma velocidade. Isso me preocupa.

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Há medidas mais extremas sendo consideradas? Já adotamos todas as medidas de restrição. Agora, temos de mantê-las. Vamos fazer um certo ajuste para evitar o desabastecimento, para garantir, por exemplo, que, se o gerador de um hospital falhar, a loja que vende a peça esteja aberta.

O governo vai multar pessoas? Instruí claramente a polícia a identificar e fotografar pessoas que descumpram as regras. Isso pode ser usado para fim de responsabilização criminal e civil.

E quem mantiver o comércio aberto? O Procon pode multar. Não posso obrigar a fechar, porque isso é função da prefeitura. Mas vamos multar.

A maioria das favelas não tem sequer água encanada para lavar as mãos. O que o seu governo planeja fazer nesse caso? Um mutirão comunitário. Criamos um fundo para receber doações de pessoas físicas e jurídicas, em caráter humanitário. Precisamos de pelo menos 300 milhões de reais para atender 2,5 milhões de pessoas de alta vulnerabilidade durante três meses com cestas básicas. Muitos deles são autônomos que dependem do comércio informal para sobreviver.

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“O governo federal tardou não só em tomar providências, como ainda não apresentou até agora solução para a crise econômica que vamos ter de enfrentar amanhã”

Traficantes e milicianos instituíram toque de recolher. Isso não é papel do Estado? É muito difícil a polícia entrar com tudo nessas comunidades em um momento como este. Como o policiamento está voltado para o combate ao coronavírus, muitas operações foram desmobilizadas. O que estamos fazendo é manter o cerco para que o tráfico não saia de lá.

Não seria justamente na crise que o Estado deveria se fazer mais presente? Como disse, a prioridade agora é o combate ao coronavírus. Mas posso garantir: os índices de criminalidade estão baixando e vão baixar mais. O que o crime organizado vai fazer é guerrear entre si para dominar mais territórios, como costuma fazer. Qualquer aumento de homicídios virá desse confronto.

Fala-se em um colapso na área de saúde do Rio. Dá para evitá-lo? Afirmo aqui que não vai haver colapso. A curva dos casos da doença no Rio é a menos inclinada. Estamos em uma situação mais confortável. Vamos inaugurar 220 leitos em Volta Redonda. Em Campos, mais 100. Teremos mais 600 leitos de UTI em até sessenta dias. Escolas e hotéis poderão ser usados para acolher os pacientes menos graves. Não senti até agora resistência por parte de nenhum desses setores.

O senhor calcula que o Rio vá precisar de quanto dinheiro para superar essa paralisação que o combate à epidemia impõe? De 20 bilhões de reais, pelo menos, para poder suportar a crise econômica, o coronavírus e a queda dos royalties do petróleo. Ressaltando que esse valor é para até o fim do ano. Fizemos nossa parte, e a União tem de fazer a dela. Quem cuida da economia e quem tem dinheiro hoje para injetar na economia é o governo federal. Se a ajuda não vier, o desastre terá um único responsável: o governo federal. É ele que tem a chave do cofre.

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Faz sentido que um governador eleito na onda do “Bolsowitzel” agora se volte contra o presidente? Não sou o tipo de pessoa que cegamente vai aplaudir todos os atos de quem quer que seja. Se não concordo, eu me manifesto. Foi assim que aprendi no tribunal e na vida.

O que azedou a relação dos dois? No início do governo não havia problemas. Cheguei a ir ao Ministério da Economia para discutir o regime de recuperação fiscal do estado. O próprio ministro Paulo Guedes almoçou aqui no Palácio e me perguntou de quanto eu precisava e disse que daria recursos para os meus programas de desenvolvimento. A relação com o Planalto ficou praticamente inviável quando o presidente começou a me acusar de manipular o Ministério Público, o Poder Judiciário e todo mundo.

Segundo ele, o senhor teria se associado ao MP para insuflar as investigações sobre o esquema de “rachadinha” que envolve o senador Flávio Bolsonaro. Chegou a dizer que o carregou nas costas nas eleições e foi traído. Primeiro, nas costas ele não me carregou, até porque sou muito pesado. Isso absolutamente não procede. Agora, não é possível inverter os papéis. Quem acusa tem de provar.

Também foi atribuído ao senhor um vazamento sobre o caso Marielle Franco que associou o nome de Bolsonaro ao crime. Eu jamais vazei nenhum tipo de informação para quem quer que seja.

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O assassinato de Marielle nunca será solucionado? Não depende de mim, e sim da Polícia Civil. A mim cabe dar instrumentos à polícia para que ela possa investigar. Não coloco nenhum tipo de empecilho. Não tenho bandido de estimação. O que posso adiantar é que a polícia trabalha hoje em três frentes de investigação.

Outra que o acusa, a mulher do miliciano Adriano da Nóbrega, diz que a morte do marido foi uma queima de arquivo organizada pelo senhor e que ele teria dado 2 milhões de reais à sua campanha. A quem interessava a morte de Adriano? Não tenho a menor ideia. Essa narrativa é absolutamente fantasiosa. Jamais vi esse sujeito na minha frente, nem sei quem é sua mulher. Todo mundo me acusa de um monte de coisas, mas ninguém prova nada. Não vejo razão para me defender de uma coisa que não existe.

Na Operação Calvário, que investiga um esquema de corrupção na Paraíba, um lobista afirmou que o senhor se beneficiou de uma farra de caixa dois durante a campanha. De onde saiu essa história? Todas as contas da minha campanha foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. Se alguém pediu dinheiro em meu nome, quem lhe deu foi vítima de estelionato. Isso é mais uma de várias invenções.

E a vaia na Marquês de Sapucaí, durante o Carnaval? Doeu? Não me impressiono com vaias. Tenho ajudado o Carnaval e vou continuar a fazer isso.

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Há diálogo com Bolsonaro? O diálogo tem sido ausente. Os governadores só conseguiram falar com o presidente durante a transição do governo e depois da reforma da Previdência. E nestes dias de coronavírus. Aproveitei a oportunidade, aliás, para discordar de Bolsonaro e defender as restrições à circulação de pessoas.

O senhor, pessoalmente, tentou fazer contato com o presidente? Não tenho o telefone dele. Ao longo dos últimos meses, encaminhamos alguns ofícios com as nossas necessidades, mas não tivemos resposta. Fizemos um pedido de audiência, e nada. Reiteramos, e novamente nada. A última vez que estive com ele foi na viagem à Argentina, no meio do ano passado.

“A relação com o Planalto ficou praticamente inviável quando o presidente começou a me acusar de manipular o Ministério Público, o Poder Judiciário e todo mundo”

Nem durante a crise do coronavírus? Só por videoconferência mesmo, com outros governadores do Sudeste.

Esse distanciamento tem a ver com sua intenção de concorrer à Presidência? Não é hora de falar de política.

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Não há nem um tiquinho de política em sua postura de enfrentar o governo federal no combate ao coronavírus? Tudo o que faço é para cumprir com o compromisso que assumi de governar o Rio. Eu era juiz até ontem, não sou político.

O governador de São Paulo, João Doria, também critica Bolsonaro e também quer ser presidente. Vocês se dão bem? A minha relação não é com um ou outro governador. Eu falo com todos. Só tenho dialogado de forma mais próxima com o Doria porque estamos em estados vizinhos e temos interesses em comum.

O juiz Marcelo Bretas, que cuida da Lava-Jato no Rio e tem ficado cada vez mais próximo de Bolsonaro, cancelou o senhor nas redes sociais. Por quê? Ele fez muito bem. O Conselho Nacional de Justiça diz que um magistrado que tenha vínculo com qualquer político é passível de procedimento administrativo. Ele continua sendo meu amigo.

A sua briga com o presidente não prejudica o Estado do Rio? Eu nunca briguei com o presidente.

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E ele brigou com o senhor? Tem de perguntar isso a ele.

Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680

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