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“Temos de agir agora”, diz climatologista alemã Friederike Otto

A cientista, criadora de um sistema que comprova a ação humana nos desastres climáticos, ressalta a urgência de soluções, mas se diz esperançosa

Por Ernesto Neves Atualizado em 5 nov 2021, 12h39 - Publicado em 5 nov 2021, 06h00
Friederike Otto -
Friederike Otto – John Cairns/.

Estudos científicos, sabe-se, são demorados e cheios de ressalvas — e é assim que deve ser, em nome da credibilidade, embora os textos possam acabar virando munição para céticos e oportunistas. No caso das mudanças climáticas, porém, esse panorama mudou radicalmente graças à metodologia, baseada em correlações e probabilidades, desenvolvida pela climatologista alemã Friederike Otto, 39 anos. O trabalho dela — incluída na lista dos 100 mais influentes da revista Time —permite que se verifiquem quase que em tempo real os efeitos da ação humana em desastres climáticos e está presente no IPCC, relatório da ONU que pavimenta as discussões da COP26 até 12 de novembro, em Glasgow. Exibindo imagem distante do cientista-padrão, de tênis All Star e piercing na sobrancelha, Fredi, como a chamam os amigos, é bissexual declarada e faz parte de um grupo de dança. A entrevista a VEJA, por videoconferência, foi dada de sua casa em Londres, para onde acaba de se mudar, ao trocar a Universidade de Oxford pelo Imperial College.

O que está em jogo na COP26? A cúpula do clima não é a última chance de salvação do planeta, como dizem os mais pessimistas, mas é, sem dúvida, um passo fundamental nessa direção. A partir dela, as pessoas terão uma compreensão ainda mais clara do alto preço que as mudanças climáticas provocadas pelo homem já começaram a cobrar. Estudos mostram que 30% das chuvas despejadas pelo furacão Harvey sobre o Texas, em 2017, podem ser atribuídas à interferência humana no meio ambiente, o que significa que um terço do prejuízo de 90 bilhões de dólares causado pela catástrofe tem relação direta com a poluição. Uma a cada três mortes provocadas por ondas de calor e poluição nos últimos trinta anos tem relação com o aquecimento do globo. Da COP26 devem sair medidas concretas para reverter esse quadro.

As resoluções tomadas em Glasgow serão decisivas para virar essa página? Acho que sim. A reunião sobre clima em Paris, em 2015, alcançou seu objetivo de formular um pacto global para a redução das emissões de dióxido de carbono, o CO2, o maior causador do efeito estufa. O entendimento chegou tarde, quando já tínhamos emitido carbono suficiente para elevar a temperatura média do planeta em pelo menos 1 grau em relação ao período pré-industrial, mas ainda não cruzamos nenhum dos pontos de não retorno, quando as consequências são irreversíveis. Agora é hora de agir para irmos além. Cabe aos líderes reunidos em Glasgow mostrar com clareza como vão conduzir seus países para uma economia de baixo carbono e implementar os projetos apresentados.

Sua experiência indica que há mais teoria do que prática por parte dos governos? Infelizmente, sim. Mais do que a COP26 em si, seus desdobramentos são cruciais. Conferências como a de Glasgow são ricas em discursos poderosos e inspiradores que caem no vazio rapidamente. As mudanças concretas têm que se desenrolar em Paris, Londres, Brasília, conforme o envolvimento de cada sociedade. É errado olhar somente para os Estados Unidos e para a China. O mundo precisa parar com o jogo de empurra para ver quem será mais verde primeiro, enquanto ninguém age concretamente.

“Foi chocante ver Alemanha e Bélgica, dois países ricos, serem pegos de surpresa pelas enchentes em julho. Algo está muito errado na engrenagem que move o clima do planeta”

De onde vem a certeza de que incêndios, furacões, inundações e secas como os que acontecem agora são amostras de uma mudança climática, e não de simples mau tempo? A repetição de tantas anomalias em um espaço tão curto de tempo só pode ser explicada pelo aquecimento decorrente da ação humana. O clima da Terra sempre esteve sujeito a períodos de extremos, mas, não fosse o efeito estufa, eles seriam mais raros e teriam menor poder destrutivo. O ano de 2021 deixou evidente que não há ponto do planeta a salvo de ocorrências radicais, aí incluídos os países desenvolvidos. Foi chocante ver Alemanha e Bélgica, duas das nações mais ricas do mundo, serem pegas de surpresa pela intensidade das enchentes em julho, simplesmente porque seu volume era considerado impossível. Os alertas não soaram a tempo, cidades acabaram destruídas e centenas de pessoas morreram. Alguma coisa está muito errada na engrenagem que move o clima do planeta.

De que forma a ação do homem altera o clima? São dois os efeitos da poluição sobre a atmosfera. O primeiro é seu aquecimento. A crescente emissão de gases causadores do efeito estufa faz com que ela retenha mais calor, o que aumenta a probabilidade de períodos de temperatura extrema e diminui a frequência das frentes frias. O ar mais quente também concentra mais vapor d’água, multiplicando as tempestades. O segundo efeito é dinâmico: a emissão de CO2 mudou a composição química da atmosfera, o que levou a uma alteração das correntes de ar que regem o clima global. Os dois efeitos, combinados, são responsáveis pela repetição frequente dos padrões climáticos extremos dos últimos tempos.

Qual o papel do Brasil e de sua enorme área florestal nesse contexto? A floresta tropical brasileira é uma riqueza incomensurável para todo o planeta e cabe a vocês protegê-la. Se a Amazônia desaparecer, o clima do mundo mudará para muito pior. No ritmo atual de destruição, o ponto de não retorno pode acontecer dentro de poucas décadas, um processo trágico e irreversível em que a floresta se transforma em um ecossistema pobre e seco.

O presidente Jair Bolsonaro foi denunciado por “crime contra a humanidade” perante o Tribunal Penal Internacional, por acelerar o desmatamento da Amazônia. O que levou a senhora a participar dessa ação? Não nego que seja incomum cientistas se engajarem em uma ofensiva como essa. Eu assino o relatório que embasa o processo. Embarquei nisso movida pela preocupação com as consequências trágicas do desflorestamento associado ao governo Bolsonaro. Com o aumento desenfreado das queimadas, a floresta, que absorve poluentes, está passando a emiti-los. O relatório mostra que, se nada for feito, essas emissões vão matar 180 000 pessoas no mundo nos próximos oitenta anos.

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O World Weather Attribution (WWA), coletivo internacional de cientistas do qual a senhora é uma das líderes, foi criado para detectar rapidamente correlações entre clima extremo e aquecimento global. Como isso funciona? O WWA é capaz de executar centenas de simulações em computador comparando a probabilidade de a onda de calor intenso que se abateu sobre o Hemisfério Norte neste ano, por exemplo, ocorrer nas condições atuais do mundo e em um planeta Terra onde não há gases do efeito estufa emitidos por humanos. Isso imprime mais velocidade nas conclusões, que é o nosso objetivo. No caso da canícula americana, bastaram nove dias de estudo para verificar que seria impossível ela acontecer sem a interferência humana.

Que outras catástrofes recentes levam a assinatura inequívoca da ação humana? Nos últimos seis anos, fizemos mais de quarenta análises de diferentes desastres climáticos e detectamos a correlação na maioria deles. No caso da inédita onda de calor na Sibéria em 2021, por exemplo, a probabilidade de acontecer se tornou 600 vezes maior por causa da enorme concentração de CO2 atualmente na atmosfera. Mas nem todos os desastres podem ser atribuídos ao aquecimento global. A estiagem que castigou o Sudeste do Brasil entre 2014 e 2015 teve como fator decisivo problemas locais, como o manejo errado dos mananciais e o crescimento populacional.

A relação entre desastre e aquecimento foi amplamente destacada no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Por que tanta ênfase? Porque agora nós, cientistas, estamos falando do presente. A crise climática saiu do cenário hipotético e invadiu nossa rotina. O relatório afirma, com 100% de certeza, que há mudanças significativas do clima em todas as regiões do planeta. Nenhum lugar ficou incólume. As tragédias à nossa volta são uma amostra de como será o futuro se nada fizermos. Demonstrar isso claramente ajuda a opinião pública a entender que temos de alterar imediatamente a rota do desenvolvimento.

Os países ricos, maiores poluidores do planeta, devem pagar pelos estragos causados aos mais pobres? Sem dúvida. Fala-se muito que a China é o maior poluidor do planeta, o que é verdade. Historicamente, porém, a contribuição dos chineses para o problema é muito menor do que a dos países mais avançados. Os chineses só começaram a se desenvolver nas últimas décadas. O Reino Unido, berço da Revolução Industrial, queima combustíveis fósseis há 250 anos. Os Estados Unidos, há 200. Por sua ação poluidora histórica, essas economias devem, daqui para a frente, financiar o desenvolvimento sustentável mundo afora.

“Não estamos condenados. Há extraordinárias mudanças em curso, apesar da resistência de pessoas como Donald Trump e Bolsonaro. Sinto que estamos no caminho certo”

As mudanças climáticas acirram as desigualdades sociais? Não há como não acirrar. Quando um furacão superpotente açoita os Estados Unidos, os ricos atenuam os danos com seguros, mas os pobres não têm a quem apelar. Quando uma onda de calor intenso se abate sobre uma região, quem mais sofre são os moradores de casas precárias, sem climatização. A questão climática é também uma questão de justiça social.

Outro efeito dos desastres climáticos é a migração das populações atingidas. Isso pode alcançar a dimensão de uma catástrofe humanitária? Sim. O tempo cada vez mais seco em regiões do norte da África, por exemplo, inviabiliza a vida na região, forçando as pessoas a se deslocar em busca de sobrevivência. O drama se repete no Oriente Médio, que sofre com a escalada nos termômetros, e na América Central, cada vez mais fustigada por furacões.

A chamada “ansiedade climática” está levando jovens a desistir de ter filhos, considerando que o futuro está condenado. Essa é uma preocupação real? Não estamos condenados de forma alguma. Há mudanças extraordinárias em curso. Apenas três anos atrás, a mudança climática era negada publicamente por lideranças políticas e empresariais. A pressão exercida sobretudo pelos mais jovens fez com que o problema ocupasse espaço central na agenda de partidos, governos e corporações. A sociedade está avançando, apesar da resistência de pessoas como Donald Trump e Bolsonaro. Isso me dá muita esperança. Sinto que estamos no caminho certo.

O que a senhora tem a dizer a quem insiste em não acreditar que as mudanças climáticas são resultado da ação humana? Quem não crê nisso também não deve acreditar na gravidade e nas leis da física. Aliás, só para lembrar: o Nobel de Física deste ano foi para dois climatologistas que estudam o aquecimento global.

Publicado em VEJA de 10 de novembro de 2021, edição nº 2763

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