Sylvester Stallone: ‘Eu tive uma infância terrível, mas isso não me destruiu’
O ator e roteirista lança o livro de memórias 'Os Degraus', no qual destrincha a criação do boxeador Rocky e revela detalhes pessoais
Pouco antes de rodar as primeiras cenas do filme Rocky, no início de 1976, Sylvester Stallone, então aos 29 anos, se sentiu inseguro. “Meu coração martelava no peito”, escreve ele no livro de memórias Os Degraus, em pré-venda no Brasil antes do lançamento, em novembro, pela Editora Sextante. Quando lhe perguntaram se estava pronto para começar, o ator disse que não: “Mas o Rocky está”, completou. Stallone então saiu correndo acompanhado da equipe de filmagem até a escadaria do Museu de Arte da Filadélfia. Ao chegar no topo, comemorou dando socos no ar — momento improvisado que, mais tarde, se tornaria uma cena-símbolo do longa, vencedor do Oscar em 1977. Rocky tirou Stallone do fundo do poço e abriu as portas para outros personagens icônicos, como o veterano de guerra Rambo. Agora, aos 80, o americano revê essa trajetória enquanto narra sua luta pessoal nos bastidores. Criado por pais abusivos, encontrou propósito na atuação, mas passou anos sendo rejeitado em testes. Começou a escrever os próprios roteiros e criou o boxeador obstinado que se atreve a desafiar um campeão. Sem vislumbrar a aposentadoria, hoje ele protagoniza a série de TV Tulsa King, no Paramount+. Em entrevista a VEJA, o ator fala sobre a biografia, a saúde mental, e revisita momentos marcantes da carreira — entre eles, um acidente ocorrido com Pelé.
O que o motivou a escrever um livro de memórias agora? Eu queria registrar essa jornada, que considero a mais importante da minha carreira: sobre como Rocky surgiu a partir de uma pessoa que não tinha nada, absolutamente nada, e que acabou se tornando alguém muito famoso. Acho que pode ser inspirador, principalmente porque é mais sobre o Rocky do que sobre mim.
Mas, de certa forma, o Rocky é seu alter ego: o homem que não para de lutar pelos sonhos, apesar de ser constantemente rejeitado, certo? Sim, é inspirado em mim.
Escrever o livro lhe revelou algo novo sobre essa trajetória? Eu nunca havia prestado atenção nas raízes do meu sucesso. Aconteceu, fiquei feliz e segui em frente. Nunca achei que ganharia o Oscar. Nunca. Zero. Eu só pensava: “Talvez eu consiga alguns trabalhos depois disso”. Mas comecei a listar as pessoas que foram essenciais no processo. É importante ter na vida quem nos incentive, nos ame e nos empurre para a frente.
Esse apoio veio de amigos, e não da sua família, como revela no livro. A relação com seus pais foi bem difícil: sua mãe lhe rejeitava e seu pai era violento. De onde tirou forças para persistir? Acho que existe uma força mental, algo no psicológico de cada um que ou você apanha e fica no chão, ou apanha, cai e se levanta. E levanta com raiva, querendo lutar ainda mais. É a mentalidade de um lutador. Algumas pessoas têm isso, outras não.
Chegou a buscar ajuda profissional de um psicoterapeuta? Não, nunca achei que me ajudaria.
“Eu tive uma infância terrível. Mas isso não me destruiu. Eu reagi. A vida é uma luta. Eu sempre digo: continue batendo até morrer. Não pare. Caso contrário, você desaba”
Por quê? Me disseram muitas vezes para tentar, mas não consigo ver como me ajudaria. Os problemas que tenho vão ficar aqui para sempre. Meu trabalho é mantê-los sob controle. Vou me lembrar de ter sido chamado de burro, disso e daquilo, e vou usar isso como combustível. É um perigo quem acredita que é especial.
Acha mesmo? Sim, se dizem todos os dias que você é muito inteligente, bonito, criativo, são grandes as chances de que você fracasse e enlouqueça quando chegar ao mundo real. “Espere aí, eu não era bonito, inteligente, magro?” Mas, quando dizem que você é burro, idiota, horrível, é até melhor.
O senhor tem três filhas belíssimas. Sério que não dizia a elas que eram lindas todos os dias? Eu criei minhas filhas como se fossem meninos. Eu explicava: “Vou falar com vocês como falaria com um garoto, porque quero que entendam como os homens pensam”. Então eu as eduquei e treinei para serem fortes e para serem espertas. E funcionou. Elas são muito confiantes. Ninguém as engana. Elas conhecem todos os truques masculinos.
As concepções tradicionais de masculinidade, aliás, nem sempre incentivam os homens a falar sobre o passado ou a expressar o que sentem. Foi difícil se abrir sobre seus traumas? Sim, é difícil. Mas acho necessário contar que muitas pessoas tiveram infâncias ruins. Você que passou por isso, saiba que não está sozinho. Eu tive uma infância terrível. Foi horrível. Mas isso não me destruiu. Eu não sou os insultos que ouvi. Eu reagi. É preciso lutar. Nunca se render. A vida é uma luta. Eu sempre digo: continue batendo até morrer. Não pare. Caso contrário, você desaba.
Em vários momentos, o senhor escreve sobre esse embate contra a voz interior que lhe dizia que não era bom o bastante. Quando esse pensamento sumiu? Não sei se algum dia ele foi embora de verdade. Mas aprendi a controlar. Acho que uma das razões pelas quais muitos atores atuam é para receber o amor de desconhecidos. Precisamos de validação. Agora, aos 80, penso que meu trabalho é dar tudo o que aprendi. Compartilhar.
É isso que o motiva a continuar ativo? Acho que sim. Alguns cavalos são feitos para correr muito rápido e depois param. E existem os cavalos de trabalho. Eles trabalham, trabalham e nunca param até morrer. Esse sou eu. Sou um cavalo de trabalho.
Tulsa King lhe deu seu primeiro protagonista na televisão. O que a série permite que explore como ator? Ela me permite usar a minha personalidade. Eu gosto de fazer piadas, gosto de humor. Mas eu não conseguia encontrar isso nos personagens dos filmes. Em Tulsa King, só preciso ser eu mesmo e fingir que sou um gângster. Tem sido bastante prazeroso.
O senhor é muito famoso no Brasil, claro, mas há um carinho especial por sua parceria com Pelé em um antigo filme, Fuga para a Vitória, de 1981. Tem alguma memória específica que o marcou naquela experiência? O Pelé quebrou o meu dedo mindinho.
Como isso aconteceu durante as filmagens? Eu estava fazendo piadas sobre futebol. Dizia que não era nada comparado ao futebol americano. Aí ele se irritou e disse: “Fique no gol. Vou colocar a bola exatamente ali. Mas você nem vai vê-la. Não vai tocar nela”. Ele bateu o pênalti. Ergui a mão, a bola quebrou o meu dedo, continuou em frente e abriu um buraco na rede. Ele estava usando aquelas chuteiras da II Guerra Mundial, sabe? Grossas, quase como aço, com a ponta dura. E a bola era menor e muito mais pesada do que é hoje. Nunca mais falei mal de futebol, que, aliás, é um esporte brutal.
Há dois desentendimentos no livro que chamam a atenção: uma desavença com o cineasta Francis Ford Coppola e uma briga com o ator Richard Gere. Já fez as pazes com eles? Na verdade, não. Francis, não. Não. Mas, com Gere, éramos jovens. Dois machos alfa, com testosterona demais, brigando por papéis. Não o considero um inimigo.
Discute-se muito hoje o conceito de “masculinidade tóxica”. O que acha dessa polêmica? Um cara com músculos é tóxico? Homens são homens. Eles pulam de motocicletas, ateiam fogo em si mesmos, fazem idiotices. Mulheres nunca fariam isso. Homens são malucos. Eles querem provar seu valor. É o que fazem desde o início dos tempos. Isso é ser tóxico?
“Embaixador de Hollywood? Não, de jeito nenhum. Eu não gosto de políticos. Não faço campanha. Não faço doações. Odeio essa guerra. É um momento ruim para a política americana”
Masculinidade é tóxica quando ela causa o mal a outra pessoa. Na sua opinião, não é importante combater isso? Isso é outra coisa. Homens que usam a violência, especialmente contra mulheres, deveriam levar um soco e ser jogados na cadeia. Homem nenhum deveria jamais colocar as mãos em uma mulher. Esse cara deveria apanhar. É assim que os homens aprendem. Homens sempre vão fazer coisas malucas, mas não devem ser violentos. Se um cara bate numa mulher, deveriam cortar as mãos dele.
Neste ano chega aos cinemas o filme Eu Sou o Rocky, também sobre a criação do personagem. Como foi assistir à sua história e o ator Anthony Ippolito interpretando seu papel? Foi estranho. Fiquei pensando: “Eu morri? Sou um fantasma?” (risos). Estou assistindo a mim mesmo, mas ainda estou aqui. Como isso é possível? O filme é ótimo. Toda uma geração mais jovem, em torno dos 20 anos, vai se envolver. E esse garoto vai ficar muito popular por me interpretar. É como ter um filho que surgiu do nada e que tem a minha cara.
O senhor fala pouco sobre seu primeiro filho, Sage Stallone, que morreu aos 36 anos de infarto, em 2012. Imagino que seja um assunto difícil. Como lida com essa perda? Esse é um assunto bastante doloroso. Um pai sempre sente que a culpa é dele. O que eu poderia ter feito para evitar? Deveria ter dito isso ou aquilo? Eu nem tenho fotografias dele. Só guardo a lembrança aqui (na cabeça). É algo pelo qual ninguém quer passar.
Antes bastante reservado em relação à política, o senhor, recentemente, surgiu como aliado do presidente Donald Trump. Por que essa mudança? Então, vamos por partes. No ano passado, disseram que eu seria “embaixador de Hollywood”. Não é verdade. Eu estava assistindo à televisão e aparece: “Presidente Trump torna Sylvester Stallone, Jon Voight e Mel Gibson embaixadores de Hollywood”. Eu fiquei em choque. Como assim embaixador e de Hollywood? Não é outro país, sabe. É Hollywood. Então eu disse: “Não. De jeito nenhum”. Eu não gosto de políticos. Não faço campanha. Não faço doações. Odeio essa guerra (contra o Irã). O que está acontecendo é péssimo. Um completo desperdício de vidas humanas. Desde a Coreia, temos sofrido porque os Estados Unidos invadem algum país. E por quê? Não é da nossa conta. É um momento ruim para a política americana.
O que diria a alguém que está lutando para realizar seus sonhos? Primeiro, é preciso ser honesto consigo mesmo. Você realmente tem algo que o mundo precisa ou é só para seu ego? Escrevi Rocky para pessoas como eu, que eram solitárias e esquecidas pelo mundo, até encontrarem o amor. Segundo, é importante conhecer os seus pontos fortes, mas é dez vezes mais importante conhecer as suas fraquezas. Seja honesto, porque 99% das vezes o seu sonho não vai se realizar. É difícil. Há muitas variáveis. Quem é seu cônjuge? Você tem dinheiro? Sua ideia é boa? Consegue vendê-la para alguém que se importe? Eu digo: não desista, mas, por favor, conheça suas forças e, mais ainda, as suas fraquezas. Se não, arrume outro emprego.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015





