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Steven Spielberg: “É urgente criar mais oportunidades para as minorias”

O diretor que simboliza a força de Hollywood conta que sentiu frio na barriga ao dirigir pela 1ª vez um musical e defende o estímulo à diversidade nas telas

Por Raquel Carneiro Atualizado em 3 dez 2021, 10h30 - Publicado em 3 dez 2021, 06h00

Na infância, Steven Spielberg foi um alvo fácil para o bullying. Tímido e muito magro, era ainda um dos poucos judeus ortodoxos da escola. Encontrou refúgio atrás da câmera do pai, fazendo filmes caseiros. Aos 10 anos, sua mãe, uma pianista clássica, trouxe para casa o disco do musical Amor, Sublime Amor (West Side Story, no original), que acabara de ser lançado na Broadway, em 1957. O futuro cineasta ficou inebriado com a trama à la Romeu e Julieta que, vertida em filme em 1961, levou dez Oscars. O desejo de fazer sua própria versão ficou guardado enquanto Spielberg amadurecia e, diz o próprio, “tomava coragem” para dirigir um musical. Pouco afeito aos estudos, ele se dedicou às suas produções amadoras e, quando não foi aprovado na faculdade, embrenhou-se nos bastidores dos estúdios de Hollywood. O resto, como se sabe, é história. Spielberg é uma unanimidade: rentável e relevante, é capaz de transitar da fantasia juvenil de E.T.: O Extraterrestre (1982) ao aclamado drama A Lista de Schindler (1993). Às vésperas de completar 75 anos, enfim tira da gaveta seu remake de Amor, Sublime Amor, que estreia em 9 de dezembro. Spielberg falou a VEJA, via Zoom, sobre o ofício de fazer cinema, sua estreia à frente de um musical e de como o filme responde à polarização mundial.

Amor, Sublime Amor é um romance sobre um casal dividido entre imigrantes em guerra: de um lado irlandeses e do outro porto-riquenhos em Nova York. Como essa experiência se conecta com outras produções marcantes em que o senhor aborda formas de discriminação, como o racismo em A Cor Púrpura ou a perseguição aos judeus em A Lista de Schindler? Esses temas me interessam por diversas razões. Amor, Sublime Amor, por exemplo, me faz pensar sobre o preconceito entre um grupo de imigrantes brancos, representados pelos Jets, e os imigrantes porto-riquenhos, da gangue Sharks. Eles enfrentam os mesmos dilemas, trabalham duro para tentar alcançar o tal American Dream, mas as diferenças falam mais alto. A história recente dos Estados Unidos é marcada por esses embates entre os que se consideram diferentes. Nos anos 50, muitas gangues surgiram como resposta a tais conflitos. Para mim, o cerne da questão é: o que a divisão entre seres humanos de fato representa? A divisão é uma das tenebrosas consequências do racismo, da xenofobia e da desigualdade social.

O filme se passa nos anos 50, mas é inevitável perceber a conexão com o drama que os imigrantes vivem no século XXI. O senhor não ficou tentado a transpor a história para os Estados Unidos de hoje? Tomamos a decisão de manter a trama nos anos 50 porque, infelizmente, nossa sociedade não mudou muito desde então. Vale lembrar que naquela década negros ainda não podiam votar, por exemplo. O Sul e o Norte dos Estados Unidos pareciam dois países distintos. E essa divisão voltou a se acentuar recentemente. Penso, aliás, e digo isso com tristeza, que atualmente estamos mais divididos e distantes uns dos outros que em 1957, quando a peça chegou à Broadway. Amor, Sublime Amor é uma trama shakespeariana, inspirada em Romeu e Julieta, uma tragédia de amor hoje mais relevante do que naqueles tempos.

“Os movimentos sobre diversidade me levaram a pensar nos privilégios que eu, um artista branco, tive na carreira. Por isso, sim, é urgente criar mais oportunidades para as minorias”

Por que a considera mais relevante? Porque a lição dessa história é de que a tragédia é capaz de unir dois lados opostos. Minha mensagem, em um mundo tão polarizado quanto este em que vivemos agora, vem a ser a seguinte: não espere por uma tragédia para resolver as diferenças e conviver em paz com o próximo.

O musical original abriu espaço a atores estrangeiros em Hollywood, como a porto-riquenha Rita Moreno, que se tornou a primeira latina a ganhar o Oscar. Hoje, a indústria cinematográfica ainda é criticada pela falta de espaço para as minorias. Como vê essa evolução? Os atuais movimentos sobre diversidade me levaram a pensar nos privilégios que eu, um artista branco, tive ao longo da carreira. Por isso digo que, sim, é urgente a necessidade de criar mais oportunidades para as minorias. Eu vejo uma evolução lenta em Hollywood. E isso foi algo que me motivou a querer fazer esse filme, que fala sobre como o preconceito destrói a sociedade. Com certeza, hoje estamos nos movimentando para ter uma indústria mais diversa.

Criar personagens e fazer filmes com minorias é suficiente? Não, com certeza, não. Sou parte do Sindicato dos Diretores de Hollywood, e estamos trabalhando em ações efetivas para dar mais oportunidades a pessoas de diferentes raças e gêneros. Temos, por sinal, uma iniciativa de profissionalização de futuros diretores. Nós os ensinamos como fazer um filme, e eles nos ajudam a aprender como tornar nossa indústria um lugar melhor e mais igualitário.

A Cor Púrpura é um dos grandes filmes já feitos sobre o racismo americano e foi dirigido pelo senhor, um homem branco. Hoje, um remake está sendo feito por Blitz Bazawule, um diretor negro. O que motivou a nova releitura? Julgo importantíssimo esse olhar. Eu estou produzindo o filme junto com a (apresentadora de TV) Oprah Winfrey. A nova versão será uma adaptação do musical da Broadway, que se inspirou no meu filme. Sinto orgulho dessa jornada e estamos juntando um elenco excepcional. Começaremos a filmar em março de 2022.

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O streaming revolucionou o entretenimento e agora compete com o cinema como vitrine dos filmes, o que recebeu críticas de grandes diretores, inclusive o senhor. Por que mudou de ideia? Na verdade, eu nunca fui contra o streaming. Foi um mal-­entendido que se espalhou. O que eu fiz foi levantar a questão sobre qual é a definição de cinema. Meu intuito era provocar uma discussão civilizada sobre o tema. Para mim, o que distingue um filme de cinema ou de streaming é simplesmente a experiência. No cinema, você se une a um bando de estranhos e divide com eles uma forma de fruição que é completamente diferente de ver um filme no seu quarto na TV. Não tenho nada, repito, contra plataformas de streaming. Pelo contrário, hoje sou um humilde e feliz funcionário da Netflix.

Como se dará essa parceria? Minha produtora fechou um acordo com a Netflix. Faremos dois filmes por ano ao longo dos próximos cinco anos. Alguns vão direto para a plataforma. Outros terão exibição no cinema por três ou quatro semanas antes de chegar ao streaming.

O cinema hollywoodiano como se conhece hoje foi moldado nos anos 70 e 80 por um grupo de amigos do qual faziam parte o senhor, Martin Scorsese, George Lucas, Francis Ford Coppola e Brian De Palma. O que possibilitou a aproximação de talentos responsáveis por títulos como Star Wars, Indiana Jones, O Poderoso Chefão, entre outros? Tivemos sorte. Simplesmente aconteceu. Talvez estivesse destinado a acontecer. Na época, não imaginávamos que nossa amizade e os filmes que fazíamos teriam algum impacto no cinema. Éramos apenas um bando de principiantes apaixonados por fazer filmes e ansiosos por entreter o público. Também éramos muito competitivos entre nós, o que nos motivava a fazer sempre o melhor. Quando eu lançava um novo filme, não estava interessado no que a crítica iria dizer. Eu queria saber a opinião de George, Scorsese, De Palma e Coppola. Eu me sinto extraordinariamente privilegiado por ter sido parte daquela geração e ainda me sinto privilegiado por poder dizer que continuamos amigos e nos falamos com frequência.

Seu legado está por todos os lados, de cineastas renomados que são seus fãs, como J.J. Abrams, até a série teen Stranger Things. Como lida com essas homenagens? Eu acho maravilhoso. Adoro Stranger Things, aliás. Eu assisti às duas primeiras temporadas da série e me diverti muito. O que mais me emociona é que essa nova geração me faz lembrar quando eu fazia filmes, entre os anos 80 e 90, com o intuito de entreter e com mais imaginação que recursos. Com o J.J., fiz o filme Super 8 (de 2011), justamente uma homenagem àquele período de longas inesquecíveis como Os Goonies (de 1985). Fico feliz que esse legado persista.

Sua filmografia é muito diversa, mas chama a atenção a presença constante de crianças e adolescentes. O elenco de Amor, Sublime Amor tem até estreantes, como a protagonista Rachel Zegler. Por que gosta de trabalhar com jovens? Porque eles ainda não desenvolveram vícios e hábitos ruins na atuação. Qualquer ator ou diretor que se prenda a hábitos e fórmulas de como fazer algo perde a chance de dar vazão à criatividade e de descobrir novas habilidades. Por isso, gosto de escolher atores jovens com a idade do personagem, e não mais velhos fingindo ser mais novos. Rachel, por exemplo, tinha 17 anos quando fez o teste para o papel e comemorou 18 no set. Ela não tinha nenhuma experiência no cinema — havia interpretado somente a princesa Fiona em uma peça do Shrek na escola. Foi um achado. Todo o elenco, aliás, é um achado. Pois ser capaz de cantar, atuar e dançar não é uma combinação tão simples. E fizemos questão de encontrar atores que de fato fossem parte da comunidade latina e falassem espanhol. Escalar Rachel e Ansel Elgort, que interpreta o par romântico dela, foi uma felicidade enorme.

“Éramos muito competitivos. Quando eu lançava um novo filme, não estava interessado no que a crítica iria dizer. Eu queria saber a opinião de George, Scorsese, De Palma e Coppola”

Como foi fazer um musical pela primeira vez? Assustador e desafiador. Já tinha dirigido pequenos números musicais no teatro e em alguns filmes pontuais, mas nunca tinha dedicado tanto tempo desenvolvendo um roteiro inteiro no gênero e treinando para um projeto como esse. Foram cinco anos no total — desde que tive a coragem de, enfim, pegar os direitos da história para um novo filme. Fazer um musical me fez questionar todas as minhas técnicas e habilidades de como se fazer um filme.

Em que sentido? Um musical é totalmente amparado pelo tempo. Não posso filmar nada que seja cinco segundos maior do que a música e a coreografia permitem. Há uma disciplina muito específica e rigorosa, algo que não tem muito a ver com meu jeito de filmar. Isso sem falar que rodei cenas em espanhol, um idioma que não domino, o que me restringia quando pensava em improvisar algo. Mas, no fim, foi muito satisfatório, pois nenhuma outra forma de atuação e filmagem demanda tanta energia e sinergia entre atores e câmeras como um musical. Por essas e outras, fazer filmes é algo que ainda me dá frio na barriga. Que bom que seja assim.

Publicado em VEJA de 8 de dezembro de 2021, edição nº 2767

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