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Ricardo Couto: “Legitimidade popular eu não tenho, mas constitucional, sim”

O desembargador que assumiu o comando do Rio em circunstância inédita promete fazer uma investigação séria sobre contratos considerados suspeitos

Por Monica Weinberg Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Ricardo Ferraz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Ludmilla de Lima Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 26 jun 2026, 16h14
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Desembargador por quase duas décadas, Ricardo Couto, 62 anos, caminha com desenvoltura pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, do qual é hoje presidente. Pois desde março deste ano ele foi lançado a um terreno desconhecido: virou governador em situação inédita, depois de o então ocupante do Palácio Guanabara, Cláudio Castro (PL), renunciar em meio a denúncias que o tornaram inelegível. Na ausência de um vice e de um presidente na Assembleia Legislativa (os candidatos naturais ao posto), sobrou para Couto, o terceiro na linha sucessória, conduzir o leme enquanto aguarda o processo, agora nas mãos do STF, para definir quem tocará o governo de forma definitiva. Pelo moroso andar da carruagem, tudo indica que ficará por lá até as eleições de outubro, e já começa a remexer vespeiros: cortou funcionários que inchavam a máquina, cancelou contratos e, na segunda-feira 22, renegociou com o presidente Lula a bilionária dívida do estado. “Às vezes, bate ansiedade”, disse ele, revezando-se entre café e muito chocolate, em entrevista a VEJA no Salão Nobre do tribunal, de onde despacha.

Depois de 100 dias na cadeira de governador, qual balanço faz do que encontrou no Palácio Guanabara? Havia muita coisa estranha. As auditorias já mostram, por exemplo, o valor acima do normal de certos contratos. Segundo a lei, isso tem nome: superfaturamento. Um exemplo que me chamou a atenção foi uma iniciativa que incluía a produção de cursos on-­line para capacitação de moradores de comunidades carentes. É uma boa ideia, mas foi implementada sem licitação, com a justificativa de que as pessoas escolhidas para ministrá-los tinham notório saber. Aí identificamos um contrato em que um profissional recebia 50 milhões de reais por quarenta aulas e não havia sequer a gravação do material. Pior: alguns alunos inscritos já tinham até morrido. Esses e outros casos estão sendo apurados com toda a cautela e serão enviados ao Ministério Público.

O senhor exonerou mais de 3 000 funcionários comissionados. Eram fantasmas? Constatamos, sim, que muita gente nomeada sem concurso não estava prestando o serviço que era esperado delas. Há quem lhes dê o apelido de fantasma. Verdade que, ao reexaminar a lista, voltamos atrás em algumas decisões e renomeamos funcionários. Não quero cometer injustiças, mas sei que estamos na direção certa e vamos reduzir ainda mais o quadro, chegando a uns 6 000 dispensados. E isso, garanto, sem comprometer o serviço. Ao contrário: na saúde, acabamos com a fila da oncologia mesmo com as demissões.

“Identificamos um contrato em que um profissional recebia 50 milhões de reais por um curso on-line e não havia nem a gravação do material. Pior: alunos inscritos já tinham morrido”

Essas medidas são realmente suficientes para reverter uma previsão de déficit de 19 bilhões de reais no caixa e chegar a um superávit de 5 bilhões, como o senhor prometeu? Quando fiz a promessa, todo mundo se assustou. O fato é que o governo anterior havia previsto despesas muito acima das receitas. Pedi para o Tribunal de Contas do Estado avaliar os gastos mais volumosos, como a compra de 220 000 câmeras de segurança para reconhecimento facial ao custo de 2 bilhões de reais. Havia justificativas para a aquisição do equipamento, mas, diante do preço, pedi para avaliarem. Conclusão: em quatro anos, por uma questão logística, apenas 60 000 dessas câmeras poderiam ser instaladas, enquanto as outras 160 000 ficariam guardadas. Em pouco tempo, naturalmente, estariam defasadas. É esse tipo de despesa que não vai mais ocorrer. Agora, é preciso incluir também ganhos do lado da receita para fechar a conta no azul.

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E há previsão para isso no horizonte? O estado estimou uma receita dos royalties do petróleo com o barril a 59 dólares, abaixo do patamar atual, então teremos um saldo importante. Além disso, acabei de renegociar com o presidente Lula a dívida do Rio. As parcelas mensais caíram de 480 milhões de reais para 120 milhões e fizemos um aporte financeiro de 20% para garantir que não haverá incidência de juros. No final, o abatimento será de 40 bilhões de reais para o estado, o que é bem expressivo.

A negociação com Lula foi dura? Não. Procurei o presidente, ele logo me atendeu e mencionou que era a primeira vez em muito tempo que um governador do Rio entrava em contato para falar do assunto. Contou que o último com quem teve uma conversa do tipo foi Sérgio Cabral, já que não tinha uma relação de proximidade nem de empatia com Cláudio Castro.

Não ter traquejo político atrapalha nessas horas? Acho que acaba é ajudando. Olhe o meu caso: não estou preocupado com reeleição nem em agradar o partido A ou B. Posso agir com maior liberdade. Hoje, o chefe do Executivo em Brasília precisa fazer uma composição para contar com uma base no Legislativo. No Rio, funciona igual, e o que se observa é uma captura da máquina pública.

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Como ela ocorre? Certas secretarias foram cedidas a deputados cujo interesse é controlar a máquina. Elas se tornaram feudos com vistas à reeleição e tomaram rumos inadequados. Aliás, já está no plano: vamos reduzir as secretarias, de 32 para 23. É um número ainda longe do ideal — entre 14 e 16, como em São Paulo e Minas Gerais. Cortar mais do que isso de uma vez só, porém, comprometeria o trabalho no curto espaço de tempo que tenho pela frente. Posso adiantar aqui que estamos estudando algumas fusões, como a das pastas da Pesca e da Agricultura e das Cidades e da Habitação.

O governo acredita que ainda pode recuperar o prejuízo causado pelo Banco Master no Rio Previdência, o fundo de aposentadoria dos servidores públicos? Os investimentos superaram 3 bilhões de reais e resgatamos cerca de um terço disso. Estamos tentando agora adotar medidas para diminuir a lesão ao Erário e aos servidores. É sabido que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro conseguiu obter vultosos recursos, a questão é ver onde foram parar. A esperança está em conseguir recuperar o que falta em meio ao montante pago a investidores, em torno de 40 bilhões de reais. Tudo isso pode ser rastreado.

O senhor se surpreendeu com a proximidade entre Vorcaro e Castro? O que assusta é a pessoa falar “não conheço, nunca vi nem sei quem é” e se descobrir depois que ela conhecia o empresário e que o aporte realizado pelo estado foi muito maior do que se alegava. Pode até ser que haja aí uma dose de deslumbramento com festas regadas a uísque e charutos caros. Mas vale a velha expressão: à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta. Minha avaliação é que, infelizmente, não era a gestão que se esperava de um chefe do Executivo.

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Em um evento a seu lado, Lula disse que, se houvesse eleição indireta na Alerj, escolheriam um miliciano como governador. Concorda? Essa é uma opinião do presidente da República. Me pauto pela presunção da inocência, um cacoete de magistrado. Minha relação com a Alerj continua sendo institucional. Optei por não ter nem líder político ali porque qualquer movimento dessa natureza me obrigaria a escolher um deputado com bandeira partidária.

Têm vindo à tona sucessivos casos de parlamentares fluminenses suspeitos de envolvimento com o crime organizado. Como frear essa aberração? Não posso dizer que há uma organização criminosa por trás desses deputados. Preciso ser cuidadoso enquanto tudo não for devidamente investigado.

Douglas Ruas, presidente da Alerj e candidato ao governo, instaurou uma comissão para debater a contenção de gastos públicos, inclusive no Judiciário. Foi provocação? Essa comissão afronta a autonomia e independência entre os Poderes, preceitos constitucionais. Não cabe ao Legislativo estabelecer os gastos do Judiciário. É interessante que, em nenhum momento, a assembleia tratou do superfaturamento dos contratos celebrados pelas secretarias ocupadas por deputados. Eles preferem questionar os salários de magistrados e servidores. A propósito: todos esses dados se encontram no Portal da Transparência do Tribunal de Justiça. É a Alerj que não cumpre a lei e não publica suas despesas de modo adequado.

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“Para se ter uma ideia, ninguém à minha volta queria assumir cargo no governo do Rio de Janeiro. Legitimidade popular eu não tenho, mas constitucional, sim”

O senhor tinha uma preocupação em pôr em risco o próprio CPF ao assumir o governo? Se eu disser que não, estarei mentindo. Me candidatei para ser presidente do tribunal e acabei em uma seara sobre a qual não tenho controle. Para se ter uma ideia, ninguém à minha volta queria assumir cargo no governo. Por mais que gostem de mim, não tinham noção das consequências. Outro ponto que pega para atrair gente boa é a baixa remuneração do alto escalão no Executivo. O governador do Rio tem salário bruto de 21 000 reais. Como presidente do TJ em exercício, recebi 84 000 reais líquidos em maio, incluindo o décimo terceiro. Se não ganhasse isso, já estaria pedindo a aposentadoria.

O senhor acha que é justo um juiz de carreira receber mais até do que o presidente da República? O justo mesmo é que o presidente tenha uma remuneração adequada. Dito isso, existe um grande debate em curso sobre os salários da magistratura, e ele é importante. Acho que, se houver gestão eficiente, o Estado tem capacidade de pagar bem seus servidores. Na minha posição, devo brigar para oferecer a melhor remuneração possível para tentar conseguir os mais talentosos profissionais da área. É uma visão de gestor.

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A sucessão no Rio segue em discussão no Supremo. O senhor se sente desconfortável em uma cadeira que não conquistou pelo voto? Legitimidade popular eu não tenho, mas constitucional, sim. Entre estudiosos, vem prevalecendo a ideia de que a data em que a cadeira ficou vazia é que determina quem fica nela até a passagem para o próximo representante eleito. E tem uma razão de ser: garantir a segurança jurídica.

O senhor pensa em permanecer na política? De jeito nenhum. Eu gosto da vida invisível. Cresci em outro ambiente e não me considero uma pessoa preparada para isso. Também é uma atividade que gera ansiedade. Alivio a tensão à base de café e chocolate. Só não ganhei peso porque estou usando caneta emagrecedora.

Em quem vai votar para presidente e governador? Em geral, escolho mais perto da eleição. Mas vocês nunca vão descobrir.

Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

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