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“O governo é injustiçado”, diz Pedro Guimarães, presidente da Caixa

O economista afirma que são intrigas os boatos de que assumiria no lugar de Guedes e tenta rebater as críticas de que o Auxílio Brasil é eleitoreiro

Por Rafael Moraes Moura Atualizado em 22 out 2021, 09h39 - Publicado em 22 out 2021, 06h00

Um dos mais assíduos convidados nas lives de Jair Bolsonaro, Pedro Guimarães é o único comandante de uma grande estatal que se mantém firme no cargo desde o início do governo. Os outros foram demitidos ou pediram para sair. Aos poucos, o presidente da Caixa Econômica Federal também se transformou num conselheiro frequente do presidente, a ponto de despertar ciúme em alguns gabinetes importantes de Brasília e virar alvo de rumores de que poderia substituir o seu chefe, o ministro Paulo Guedes, na Economia. Intrigas à parte, Guimarães ganhou notoriedade ao coordenar, com sucesso, a logística de distribuição do auxílio emergencial pago a mais de 68 milhões de pessoas durante a pandemia. A Caixa, aliás, será responsável pelo pagamento do Auxílio Brasil, o programa assistencial que vai substituir o Bolsa Família numa manobra claramente eleitoreira — crítica com a qual Guimarães, claro, não concorda. Nesta entrevista a VEJA, o economista, que defendeu a privatização de todas as empresas estatais em sua tese, explica por que mudou de ideia em relação à passagem do banco para a iniciativa privada, fala dos boatos sobre uma candidatura política e afirma que o governo Bolsonaro tem um cartel enorme de realizações importantes, mas que não é devidamente reconhecido.

Em Brasília e no próprio mercado, fala-se muito que o senhor é candidato ao cargo de ministro da Economia do governo Bolsonaro. Eu não controlo o que as pessoas falam. Mas não tenho diferenças com o ministro Paulo Guedes. Do ponto de vista objetivo, sou presidente da Caixa com muito orgulho — e essa é a minha missão no governo. Aliás, sou o único presidente de estatal que continua no cargo desde o começo desta administração. Mudou o comando do BNDES, Banco do Brasil, Eletrobras, Petrobras. Se houvesse qualquer problema…

Qual é a relação do senhor com o presidente Jair Bolsonaro? É uma relação de confiança de alguém que conheceu o presidente bem antes de ele se eleger (ambos se conheceram em 2017). Essa relação cresceu porque a Caixa entregou os desafios que lhe foram apresentados. Ressalto que tenho a mesma relação de confiança e lealdade com o ministro Paulo Guedes. Hoje, a Caixa é percebida por todo mundo como um banco sólido, indispensável, fundamental para a operação das políticas sociais do governo.

No passado, o senhor era um defensor radical das privatizações, inclusive dos bancos públicos. O que mudou? Em 2003, quando defendi minha tese de doutorado sobre as privatizações, minha visão era a de que não havia motivos para empresas prestadoras de serviço serem controladas pelo Estado. Com relação à Caixa, sempre tive uma dúvida teórica. Hoje não tenho mais: a Caixa cumpre um papel social de gestão.

Qual a diferença da Caixa para a Eletrobras ou os Correios, cujas privatizações estão em andamento? São negócios que você consegue implantar de maneira mais eficiente com o setor privado. É possível ter outras empresas operando o sistema energético. Você tem várias empresas que conseguiriam fazer com eficiência o que os Correios fazem sem sacrificar o contribuinte. Agora, no caso da Caixa, há um conjunto de operações que nenhum banco realiza. Estamos abrindo 100 agências dedicadas exclusivamente ao agronegócio. Temos as loterias, o FGTS, a gestão imobiliária, em especial para as famílias de baixa renda, os programas com governos e prefeituras. E ainda há o auxílio emergencial e o Auxílio Brasil. Não me parece real imaginar, mesmo teoricamente, que bancos privados possam assumir essas funções.

“Sou presidente da Caixa com muito orgulho. Aliás, sou o único presidente de estatal que continua no cargo desde o começo do governo. Mudou o comando do BNDES, Banco do Brasil, Eletrobras e Petrobras”

Historicamente, a Caixa ficou conhecida por abrigar interesses fisiológicos e ser usada por políticos para operações nem sempre republicanas. Isso mudou. De fato, existia antes a imagem de uma instituição que tinha tido problemas de corrupção. Quando eu assumi, o ministro Paulo Guedes e o presidente Jair Bolsonaro me deram total independência. Dos 120 principais executivos, 105 foram trocados. Dos cinquenta vice-presidentes e diretores, só um continua. Não havia nenhuma mulher, hoje são catorze. Estava muito claro para mim que não existia meritocracia. Hoje há. Promovemos uma racionalização de processos. Também havia desperdício de recursos. Um exemplo: os gastos com espaço físico. Até o fim do ano serão devolvidos 161 edifícios, o que vai gerar 10 bilhões de reais em redução de custos a médio e longo prazo. Também reformulamos a questão dos patrocínios. O objetivo é valorizar o componente social, uma maneira de incentivar determinadas atividades que carecem de apoio.

Como assim? Tem de haver um racional matemático para a Caixa. Ou seja, não adianta fazer um patrocínio que você não consiga mensurar e defender o benefício para o banco. Tem de ser algo focado no grupo mais carente. Ampliamos o patrocínio a orquestras sinfônicas. Já dávamos apoio ao Comitê Paralímpico Brasileiro, mas decidimos espalhar pelo Brasil inteiro, com investimento em atletas de base. Por quê? Porque ninguém faz. Quando nós terminamos os contratos dos clubes de futebol, rapidamente fomos substituídos. Eu sou flamenguista, mas em uma semana o Flamengo já tinha achado vários patrocinadores. E olha que a gente terminou exatamente no começo de 2019. De lá para cá, foram os três melhores anos do clube. Ou seja, o Flamengo não precisava da Caixa. É bom ressaltar que no primeiro trimestre de 2019, quando assumimos, o banco tinha um balanço com ressalva. Faltava capital. Hoje temos avaliação positiva.

O banco foi recentemente acusado de privilegiar pessoas próximas à primeira-dama Michelle Bolsonaro em processos de concessão de empréstimos. O que houve? Todas as operações na Caixa, de micros e pequenas empresas, são feitas e avaliadas de maneira automática, sem nenhum envolvimento de gestor. Portanto, não houve privilégio algum a ninguém. Essas operações são todas independentes, com aval anterior da Receita Federal e sem nenhuma possibilidade de ingerência administrativa ou política.

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Pressionar a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contra o endosso a um manifesto pela harmonia entre os poderes não é uma forma de uso político da Caixa? Como membro da Febraban, apenas votamos contra. Houve uma diferença de opiniões. Simples assim. A coisa mais normal é ter opiniões divergentes. Isso é um não problema, já tivemos outras reuniões depois disso. Se a gente não puder ter diferença de opinião, as reuniões perdem a razão de ser. Mas esse é um episódio superado.

O Auxílio Brasil vai conseguir resgatar a popularidade do presidente Bolsonaro? Essa questão não é o foco do governo. O foco é ajudar as pessoas mais carentes em um momento de pandemia, como foi no auxílio emergencial.

Mas qual é a percepção que o senhor tem sobre essa relação entre o auxílio e as eleições? Posso garantir que o governo é totalmente responsável sob o ponto de vista fiscal. Você tem um governo que trata a questão fiscal com o máximo de responsabilidade, que faz as reformas, que gerou o Banco Central independente, que está focado em fazer privatizações, e a consequência disso é um recorde de operações de abertura de capital no Brasil. É preciso destacar outro ponto importante: no ano passado, era praticamente unânime que o PIB do Brasil poderia cair 10%. A queda foi de 4,1%, e isso não reverberou. Neste ano, o PIB deve crescer algo em torno de 5%. Se você pegar os dois anos da pandemia, o Brasil teve um dos melhores desempenhos do mundo. As contratações no mercado de trabalho crescem há vários meses. Esses são fatos, a diferença do Brasil para vários países do mundo também, mas poucos reconhecem.

As pesquisas mostram que o governo é considerado ruim por mais da metade dos brasileiros. Temos muitas conquistas em várias áreas. Na economia, como já falei antes, nós fizemos a reforma da Previdência e a independência do Banco Central. Desde que entrei no mercado financeiro, ouço a demanda da independência do BC. Eu vejo um avanço das causas, por exemplo, da privatização da Eletrobras, que é fundamental. A minha sensação é de que nós fizemos muitas coisas, mas esses fatos não reverberam. No caso da Caixa, você tem o banco com resultado recorde, com as menores taxas e a melhor avaliação da sua história por todos os órgãos de regulação.

Mas por que esse cenário não reverbera? Talvez porque ele não seja tão positivo? Há uma injustiça com o governo. Nós estamos concluindo obras que estavam paradas há muitos anos. No caso da Caixa, estamos terminando projetos do Casa Verde Amarela (antigo Minha Casa Minha Vida) parados há quatro, cinco, seis anos. A bolsa de valores está onde nunca esteve. Só que você não reverbera isso do ponto de vista de elogios. Já tivemos 115 leilões com 550 bilhões de reais em investimentos contratados e 125 bilhões de reais em outorgas pagas. Só quem confia no Brasil e na sua economia realiza tantos investimentos.

“Fizemos a reforma da Previdência e a independência do Banco Central. Houve avanço na privatização da Eletrobras. A minha sensação é de que fizemos muitas coisas, mas esses fatos não reverberam”

O senhor já fez 114 viagens pelo país, provavelmente mais do que qualquer outro auxiliar membro do governo. Por quê? Sou carioca e morei quinze anos em São Paulo. Então aquela lotérica a que eu ia num shopping, na Faria Lima, não tem nada a ver com a lotérica no interior do Acre e Rondônia, na tríplice fronteira. Esse foi um dos motivos de eu viajar o Brasil inteiro, porque era óbvia a questão social da Caixa. Viajei a lugares a que eu nunca tinha ido, como Roraima, Rondônia, Amapá e Acre. Fui a lugares que não estavam no mapa. No Norte, por exemplo, vi que existe um tipo diferente de pobreza. Há água, comida, mas não tem saneamento. Então você vê pessoas morando em casas flutuantes que bebem água no mesmo lugar onde despejam o lixo e fazem suas necessidades fisiológicas. Há um mundo onde a economia e a parte social dependem da presença da Caixa. Por isso, há um impacto gigantesco quando a gente faz um anúncio de abrir quase 300 novas agências.

O senhor será candidato a algum cargo eletivo em 2022? Não sou político. Eu queria deixar isso muito claro: meu foco único e exclusivo é a Caixa Econômica Federal. A gente não discute outra alternativa. A única conversa que tenho com o presidente da República é sobre a Caixa porque a Caixa já é um desafio gigantesco. A Caixa é quem operacionaliza todas as questões sociais. Se tivermos uma falha aqui, teremos um problema gigantesco no Brasil.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

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