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“O futuro é promissor”, diz Carlos Piani, presidente da Sabesp

Executivo defende a companhia dos ataques feitos à privatização e diz que os benefícios ficarão mais visíveis a longo prazo

Por Márcio Juliboni Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 28 ago 2026, 10h40
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A privatização da Sabesp, maior companhia de saneamento básico do país, completou dois anos e virou tema eleitoral ao situar em lados opostos o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, e seu principal adversário, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). Para os defensores do negócio, a desestatização ampliará em tempo recorde o acesso da população aos serviços. Os críticos alegam que a transação piorou o atendimento e não cumpriu a promessa de baratear as tarifas. O executivo Carlos Piani, que assumiu em outubro de 2024 o comando da Sabesp, procura fugir do fogo cruzado do debate político e defende os benefícios da nova gestão para a população, citando como exemplo o investimento recorde de 70 bilhões de reais para ampliar a rede no estado. Nesta entrevista a VEJA, ele também rebate as principais críticas ao processo de privatização e diz que os benefícios rapidamente ficarão visíveis a todos. “Esperamos que nos julguem pelos resultados que alcançaremos”, diz.

A privatização da Sabesp foi politizada pela eleição para o governo de São Paulo. Como a empresa lida com isso? Com tranquilidade. Não cabe à Sabesp politizar a privatização. Temos uma dívida histórica com parte da população. Em São Paulo, quase 10 milhões de pessoas não têm acesso à água potável, nem à coleta ou ao tratamento de esgoto. O Estado brasileiro não tem capacidade para investir. Escolheu-se um modelo para atacar esse problema. O que nos cabe é executar esse compromisso. Esperamos que nos julguem pelos resultados que alcançaremos.

O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, afirma que, se vencer a eleição, vai rever o contrato da Sabesp. Como o senhor avalia isso? Prefiro não comentar declarações de candidatos durante o processo eleitoral. Posso falar de fatos: a desestatização da Sabesp foi precedida por um processo amplo e transparente, debatida publicamente, aprovada pelas instâncias competentes e concluída de acordo com a legislação aplicável. A companhia passou a operar sob um novo contrato, com obrigações claras, metas anuais e cumulativas e o compromisso de antecipar para 2029 a universalização dos serviços. Desde então, houve uma forte aceleração dos investimentos, das obras e do número de pessoas atendidas. São resultados concretos, que já beneficiam milhões de paulistas.

“Mais de 2 milhões de pessoas não tinham acesso à água e foram ligadas à rede nestes dois anos. Esperamos que a percepção sobre a qualidade dos serviços melhore ao longo do tempo”

Ainda assim, isso não alimenta a insegurança jurídica? A segurança jurídica, a estabilidade regulatória e o respeito aos contratos são fundamentais em qualquer concessão. O saneamento é uma atividade intensiva em capital, com investimentos de dezenas de bilhões de reais e retorno de longo prazo. Regras claras, robustas, estáveis e previsíveis reduzem o custo de capital, ampliam o acesso a financiamento e dão segurança a investidores e demais parceiros necessários para executar um programa dessa dimensão. Nosso foco permanece naquilo que nos cabe: cumprir o contrato, manter a disciplina financeira e executar, com velocidade e qualidade, o maior ciclo de investimentos da história do saneamento paulista. Nossa melhor contribuição para esse debate é continuar entregando resultados concretos à população.

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Uma pesquisa recente do Datafolha indicou que, para 51% dos entrevistados, os serviços não melhoraram com a privatização. Para outros 28%, eles pioraram. Isso não é um grande problema? Sabemos que a expectativa aumenta sempre que há uma grande mudança como essa. As nossas intervenções são de longo prazo, enquanto a expectativa é de que o serviço melhore de forma mais imediata. Toda crítica é bem-vinda para aperfeiçoarmos nosso atendimento. Mas precisamos diferenciar alguns públicos.

Quais seriam esses diferentes públicos? Temos um público já atendido pela Sabesp e formado, no geral, por quem possui uma renda média ou alta. Para eles, temos que continuar prestando um bom serviço. Eles perceberão os nossos benefícios, sobretudo, na parte ambiental, quando todo o investimento surtir efeito. Mas não podemos esquecer quem ficou desassistido por muito tempo. Mais de 2 milhões de pessoas não tinham acesso à água e foram ligados à rede nestes dois anos. Também conseguimos atender cerca de 4,7 milhões de pessoas com tratamento de esgoto. Isso representa mais de 10% da população do estado. Todas elas sentem os impactos instantaneamente. Então, esperamos que a percepção melhore com o tempo, à medida que os investimentos maturarem.

A tarifa subiu 6% neste ano. Isso não contraria a promessa do governo do estado de que ela não ficaria mais cara com a privatização? Precisamos lembrar que a tarifa é uma questão que compete à agência reguladora e o que nos cabe é executá-la. Os investimentos terão um impacto bem menor na tarifa do que o imaginado, devido ao Fundo de Apoio à Universalização do Saneamento no Estado de São Paulo, criado na privatização para amortecê-los. O fundo conta com cerca de 10 bilhões de reais. Agora, o que foi definido é que a tarifa não subirá mais do que subiria se a Sabesp ainda fosse estatal. Esse foi o arcabouço elaborado na época da privatização.

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Ocorreram recentemente em São Paulo acidentes com vítimas fatais em obras da Sabesp. Isso não é um indicativo forte de que o serviço piorou? Primeiro, me solidarizo com as famílias. O objetivo de quitar essa dívida histórica no saneamento nunca, em nenhuma hipótese, pode valer uma vida humana. São tragédias que não podem e nem devem se repetir. Agora, os índices de segurança da Sabesp melhoraram. A taxa de acidentes com afastamento melhorou em torno de 70%. A despeito disso, como falei, nada vale uma vida. Revimos protocolos para colaboradores próprios e para terceiros, porque as obras sempre foram terceirizadas. Elas nunca foram realizadas por equipes da própria Sabesp, mesmo quando era uma estatal.

O que mudou, de fato, para evitar novos acidentes? No caso da rede de gás natural, revimos os protocolos para aumentar o número e a qualidade dos testes para que nos deem mais confiança de que a rede está mesmo naquele local. No geral, se houver um engano com a rede de água, de esgoto ou de telecomunicações, o dano causado não põe vidas em risco. Mas a rede de gás é perigosa. Também aumentamos o treinamento. A partir de janeiro de 2027, todos os operadores terão que ser certificados nesses protocolos. Não aceitaremos nenhum colaborador, próprio ou terceirizado, que não seja certificado.

Dos 70 bilhões de reais de investimentos previstos até 2029, quanto ainda não foi contratado? A companhia investia entre 5 bilhões e 6 bilhões de reais por ano. Após a privatização, investimos 15,2 bilhões de reais no primeiro ano cheio. Esses recursos foram para projetos já existentes. Para cumprir os índices de desempenho estabelecidos pelos 371 municípios que atendemos, dividimos os investimentos daqui até 2029 em quatro ondas. As três primeiras foram focadas no interior do estado. A quarta onda envolverá os 37 municípios da Região Metropolitana atendidos pela Sabesp. É essa a onda que falta contratar. Mais de 40 bilhões de reais em obras para alcançar a universalização já estão em andamento.

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“O marco do saneamento trouxe segurança jurídica, regras claras. Avançamos no arranjo institucional. Os próximos seis anos devem ser de execução e de entregas”

A despoluição dos rios Tietê e Pinheiros é um dos principais projetos da companhia e do governo paulista, mas os ambientalistas não notam avanços. Quando eles virão? No Rio Pinheiros há quatro pontos de medição. Em três deles, a poluição melhorou, mas citam apenas o outro. Como a secretária Natália Resende (de Meio Ambiente e Infraestrutura) bem disse, a carga orgânica no Tietê foi reduzida em 22%, e o Pinheiros é um afluente do Tietê. Cerca de 63 milhões de litros de esgoto por mês não recebiam tratamento adequado. Isso equivale a 25 000 piscinas olímpicas. Nestes primeiros dois anos, já demos destinação a 10 000 dessas piscinas. É um esforço contínuo e a melhora vai acontecer.

Qual é hoje o maior desafio? A poluição não é só fruto do esgoto não tratado. Tem a questão da drenagem, que é muito crítica e que não cabe à Sabesp, mas aos municípios. Tem a poluição difusa, que são os detritos que ficam pela rua. Tem a questão das grandes indústrias, que não dão tratamento adequado aos dejetos. Faremos a nossa parte e tenho certeza de que será o maior programa ambiental da história de São Paulo.

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Em junho, a Equatorial, acionista da Sabesp, assumiu a mineira Copasa. As duas empresas atuarão juntas? Não temos restrições para explorarmos projetos em conjunto, mas isso depende muito da oportunidade. Mas é um fato que a Equatorial está se tornando um grande ator no saneamento por meio de suas empresas.

Depois de privatizada, a Sabesp comprou a também ex-estatal Emae. A empresa planeja novas aquisições? As aquisições são oportunistas por natureza. Por isso, não se consegue fazer uma previsão. Não tenho um prazo, mas a Sabesp é a maior empresa do setor de saneamento no Brasil e uma das três maiores do mundo. O objetivo de curto prazo é a universalização nos municípios que já atendemos. À medida que entregarmos essa meta, poderemos atender outras regiões em São Paulo e em outros estados. O futuro é muito promissor.

Como o senhor avalia o novo marco regulatório do saneamento, que completou seis anos? Ele trouxe segurança jurídica e metas claras, atraiu novos investidores, aumentou a participação privada e mobilizou muito capital. A despeito de tudo isso, seis anos depois, ainda temos 33 milhões de brasileiros sem acesso à água potável e mais de 90 milhões de brasileiros sem coleta e tratamento de esgoto. O Brasil avançou no arranjo institucional, mas agora a gente tem que partir para a execução.

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Qual precisa ser a prioridade? A dívida social do saneamento precisa ser quitada. O maior teste do Brasil para universalizar os serviços está em curso com a Sabesp. Mostraremos que isso é possível. Precisamos transformar capital em obras e obras em serviços de qualidade. O novo marco trouxe uma forte safra de investimentos em seis anos. Agora, os próximos seis anos devem ser de execução e de entregas.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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