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‘É urgente mudar’, diz Gilberto Tomazoni, presidente global da JBS

Conglomerado agropecuário com unidades em vinte países promete aplicar 1 bilhão de dólares para se transformar em um modelo de sustentabilidade

Por Daniel Hessel Teich e Carlos Eduardo Valim Atualizado em 16 abr 2021, 08h53 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

Presidente global da JBS, o engenheiro mecânico catarinense Gilberto Tomazoni comanda uma operação com 450 unidades e escritórios espalhados por vinte países. Trata-se de um negócio que faturou 52 bilhões de dólares em 2020 e reúne setenta marcas de produtos alimentícios. Da mesma forma que é conhecida pelo gigantismo, a empresa também é alvo de ambientalistas, que acusam a indústria agropecuária de ser uma das atividades mais devastadoras do planeta. Afastado das viagens internacionais em decorrência da pandemia do coronavírus — só aos Estados Unidos ia pelo menos uma vez por mês —, Tomazoni tem se dedicado com afinco a um programa extremamente ambicioso que pretende mudar essa imagem. Por meio dele, a companhia promete investir 1 bilhão de dólares para zerar o balanço de suas emissões de carbono e, com isso, tornar sua atividade e de sua cadeia de fornecedores limpa e sustentável. Em entrevista a VEJA por teleconferência, na semana anterior ao Dia da Terra, comemorado em 22 de abril, Tomazoni explicou como pretende enfrentar esse desafio.

De onde surgiu a ideia de implantar um projeto para zerar as emissões de carbono da JBS? O que estamos fazendo aqui é muito mais que um projeto, é a adoção de uma nova estratégia, que vai direcionar todo o negócio. Estamos fazendo isso porque o mundo precisa, é urgente. Neste momento de pandemia, todos nós tivemos de nos adaptar de alguma forma. Na empresa, por exemplo, tirando as fábricas, tivemos de trabalhar de casa. E também fizemos doações e ações filantrópicas que, só no Brasil, totalizaram 400 milhões de reais no ano. Nós vimos como é possível impactar positivamente a sociedade quando se tem uma mobilização grande de uma companhia da abrangência que nós temos.

Mas filantropia é uma coisa e adotar diretrizes que impactam diretamente no negócio, com custos e consequências na lucratividade, é outra. Como isso vai ser feito? Essa nova estratégia é fundamental para o negócio. O mundo terá, em 2050, cerca de 10 bilhões de habitantes. São novas bocas para alimentar e nosso negócio só tem a crescer se a situação econômica prosperar. As pessoas no Brasil, na China, na África melhoram as suas dietas e aumentam o consumo de proteínas, por exemplo. E isso é decisivo para nós. Há uma diferença entre o que produzimos hoje e o que teremos de produzir até 2050 da ordem de 70%. Nós vamos ter de produzir mais alimentos, isso é fato. Para atender a essa demanda é importantíssimo investir em inovação, em uma gestão mais racional de recursos, que, em última análise, podem se esgotar se não forem bem geridos. Isso de uma maneira ou de outra leva a uma nova percepção da sustentabilidade, da adoção de práticas que respeitam o ambiente.

O agronegócio é apontado como uma atividade que devasta florestas, muitas vezes de forma ilegal. Esse novo posicionamento não é também uma forma de diminuir a exposição a essas críticas? A sustentabilidade sempre foi uma questão relevante para a empresa. Já tínhamos um comitê dedicado a esse assunto com foco na redução do consumo de água, redução de contaminação, de produção de resíduos. Isso sempre existiu aqui. Começamos, inclusive, a contribuir financeiramente com vinte projetos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que são importantes e não haviam recebido verbas. Fizemos isso porque já havia todo um trabalho preparado. Essas ações nos fizeram ter um contato mais próximo com os cientistas. A gente viu que o efeito do gás estufa está claro, a ciência, hoje, tem evidências muito sólidas e desenvolvidas a esse respeito. Ainda assim, apesar de todas as ações que têm sido realizadas, a temperatura continua aumentando e vamos assistir em breve a anomalias nas chuvas, por exemplo. A mudança climática vai impactar profundamente a agricultura, que é o nosso negócio. Sabemos que pode surgir até mesmo uma certa desertificação e que a umidade do solo será totalmente modificada. Nossos modelos preventivos apontam que não vai mais chover em algumas áreas do Brasil, e isso vai trazer um impacto grande na capacidade de produção de alimentos. Se nada for feito, nós não vamos conseguir alimentar a população como fazemos hoje. Precisamos de mudanças significativas nos próximos dez anos, porque, se a situação não for alterada, o negócio não terá mais retorno. Mas ainda dá tempo para agir e evitar isso, daí a urgência do projeto.

“O aquecimento global leva a uma mudança no regime de chuvas, com impacto direto no nosso negócio. Isso é fato comprovado pela ciência e se há um momento de agir é agora”

Pelas dimensões do negócio de vocês é um desafio colossal. Como pretendem enfrentá-lo? Ser uma empresa grande e global, nesse caso, é uma vantagem. Nós podemos engajar muita gente e levar essa consciência para todos que fazem parte de nossa cadeia, para, assim, influenciar de uma maneira que tenhamos uma economia de baixo carbono. Nós precisamos conseguir que mais empresas e empresários se engajem nessa causa. Eu enxergo a agricultura como uma das soluções para a questão climática, não como um problema. Com a adoção de práticas diferentes, modernas e inovadoras, nós podemos virar esse jogo e reduzir a emissão de carbono.

Como seria esse processo de engajamento de outras empresas? Primeiro, nós já temos há mais de dez anos uma política de desmatamento zero. Nós não aceitamos contratos de fornecedores que tenham desmatado. Para se ter uma ideia, existem mais de 50 000 fornecedores monitorados na Amazônia, e desses, 10 000 estão bloqueados não somente por causa do desmatamento, mas por estarem na lista de trabalho escravo, por produzirem em terras indígenas ou por atuarem em áreas protegidas ou embargadas.

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Ainda assim, é comum surgirem denúncias de que um ou outro fornecedor esteja em situação irregular, o que prejudica a empresa como um todo. Como podem se prevenir contra essa situação? Dado que grande parte da pecuária do Brasil não é integrada, existem vários fornecedores diferentes dentro de uma mesma cadeia. Nós controlamos apenas os fornecedores diretos, os indiretos acabam tendo uma série de outras questões, como documentações e inspeções que não estão ao nosso alcance. Os dados são individuais, os fornecedores indiretos não são obrigados a conceder essas informações. Nós não tínhamos um sistema para tratar com segurança a informação, mas, agora, a tecnologia nos permitiu construir um sistema robusto que vai trazer segurança para os dados. A plataforma de tecnologia está pronta e até 2025 todos serão monitorados. Teremos finalmente zero desmatamento na cadeia. Hoje eu controlo só um pedaço, mas, até lá, eu vou controlar o fornecedor do meu fornecedor.

Como pretendem convencer as empresas e fazendas a se engajar, mesmo que isso signifique mais custos? Nós já temos um projeto pecuário sustentável. Neste mês, vamos ter dez escritórios verdes, que vão dar assessoria ambiental, jurídica e de produtividade a nossos fornecedores. O negócio que está ilegal precisa de apoio técnico e jurídico para se legalizar. É preciso que esses empresários e fazendeiros entendam que precisam recompor as perdas. Já existem fazendas que praticam um esquema de soluções baseadas na natureza. Sabemos que áreas degradadas emitem carbono, que uma pecuária tradicional é emissora de carbono e, quanto mais desmatada uma área, mais carbono ela emitirá. Quando se faz um desenvolvimento sustentável nessa área, se consegue uma produção muito mais abundante e se aumenta a produtividade. Inclusive, podemos usar o aumento da produtividade para estimular o reflorestamento.

Quanto tudo isso vai custar? Nós vamos aplicar 1 bilhão de dólares em projetos inovadores e outros 100 milhões de dólares em pesquisas de desenvolvimento para fomentar inovações nessa área, tudo em parceria com órgãos como a Embrapa. O processo abrange a produção industrial e também o transporte — pretendemos utilizar veículos elétricos, por exemplo. E tem o aspecto energético também. Nós produzimos 30% da energia que consumimos e esse porcentual vai ser ampliado. Ainda assim, temos muito que fazer. Temos de reduzir os resíduos, aprender a fazer mais com menos. Hoje, nós reciclamos mais de 50% dos resíduos sólidos. Temos uma fábrica de fertilizantes em construção no interior de São Paulo em que esses resíduos são a principal matéria-prima para fazer fertilizantes. Isso estimula a economia circular.

Como avalia a situação atual do país, em que o governo federal tem uma péssima imagem na área ambiental? Eu tenho uma visão puritana das coisas. Vai ter mais gente no mundo, eu sei disso, a companhia sabe disso, é o nosso negócio. Vamos precisar produzir mais alimentos, esse é o ponto. Por outro lado, o aquecimento global é uma verdade, a ciência trouxe essa correlação entre a emissão dos gases de efeito estufa e o aumento da temperatura, o que impacta o clima e influencia as chuvas, e isso vai afetar o negócio. A gente vê que a produção de alimentos que temos hoje não consegue atingir a totalidade da população. Me parece que, no momento em que ficar claro para todos, também para os governos, vai haver uma convergência para salvar o planeta. Dá tempo ainda. Nós queremos fomentar a transformação da agricultura.

“Dos 50 000 fornecedores de gado que monitoramos na Amazônia,  10 000 estão  bloqueados porque desmatam e estão envolvidos em uma série de ilegalidades”

Recentemente, a JBS se envolveu em uma série de episódios de corrupção e investigações policiais. Isso de alguma forma contribuiu para esse novo posicionamento da empresa? Fizemos um programa de compliance enorme e não tenho conhecimento de nada parecido em uma empresa brasileira, em abrangência e profundidade. Foram 120 000 pessoas treinadas, tanto em políticas de ética quanto em políticas de corrupção. Nós revisamos todas as nossas diretrizes. Fizemos isso porque, no fundo, esse é um grande problema comportamental. A pessoa tem de estar treinada, treinada e treinada. E não só aqui, mas em outros países também. A gente fez um grande trabalho, e isso não termina, é contínuo. As coisas que nós estamos construindo são para permitir que não tenha repetição de nada que aconteceu no passado. O programa de compliance é tão forte que ele garante que as pessoas não tenham dúvida da cultura que é esperada pela empresa. De acordo com o ranking da Transparência Internacional, é um dos melhores do mundo. Vamos fazer a transformação que temos de fazer, a gente tem uma cultura muito forte, em que as pessoas têm muita autonomia para tocar os negócios, e nós conseguimos chegar a esse nível com foco em priorizar cada etapa. Costumo dizer que o mais importante de uma companhia é a cultura e as pessoas. Eu aprendi a fazer a diferença.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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