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De olho na eleição, Freixo troca de partido: “Civilização contra barbárie”

Em busca de uma aliança que impulsione sua candidatura ao governo do Rio, o deputado federal critica o radicalismo e cogita dividir palanque com FHC

Por Sofia Cerqueira, Cássio Bruno Atualizado em 11 jun 2021, 09h46 - Publicado em 11 jun 2021, 06h00

A trajetória política do deputado federal Marcelo Freixo, 54 anos, se funde com a do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no qual ingressou, vindo do PT, um ano após sua criação, em 2005. Agora os dois vão se separar: nesta entrevista, Freixo afirmou a VEJA, em primeira mão, que decidiu ingressar no Partido Socialista Brasileiro (PSB). E mais: é por essa legenda que se declara pré-candidato ao governo fluminense nas eleições de 2022. “No PSB terei a chance de fazer uma aliança mais ampla, com partidos progressistas e de centro, para enfrentar o grupo político que faliu o Rio e entranhou a corrupção no estado”, justifica. Na tentativa de se descolar da imagem de radical que acompanha o PSOL, Freixo não descarta ter até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, a seu lado no palanque. Segundo ele, a esquerda não pode repetir os erros da eleição passada. “Não é mais uma questão de direita versus esquerda, mas de proteger a democracia”, diz.

O senhor está mesmo deixando o PSOL? Saio nesta sexta (dia 11) e me filio ao PSB ainda neste mês. A mudança faz parte de um projeto nacional que também inclui a filiação ao mesmo partido do governador do Maranhão, Flávio Dino (do PCdoB). No meu caso, estou olhando para dois cenários, o do Rio e o nacional.

O que motivou sua saída? Tenho uma gratidão enorme pelo partido que mais tempo me abrigou na política. A decisão de sair, que foi debatida durante meses, permitirá a construção de uma aliança ampla. A questão é que agora enfrentamos uma situação sem precedentes com relação à violência e à economia. A disputa no Rio, especialmente, não é da direita contra a esquerda, mas da civilização contra a barbárie. O PSOL estará conosco, mas, sem dúvida, teria mais dificuldades de fazer uma frente tão abrangente quanto a que se faz necessária.

O PSDB está incluído nessa frente? O apoio de Fernando Henrique Cardoso é bem-vindo? Claro, é fundamental. FHC e Lula, inclusive, estão juntos agora, unindo forças para garantir a Constituição de 1988, que se encontra sob ameaça. A eleição de 2022 será um plebiscito sobre se ela continuará valendo ou não.

Quais foram os erros da esquerda na última eleição presidencial? Não há dúvida de que faltou união. Jair Bolsonaro não venceu só por seus méritos, mas também pelos erros dos adversários, incluindo aí os partidos de centro e da direita não bolsonarista. Outra coisa que faltou foi a percepção de que existia uma engenharia política naquele discurso violento. Menosprezar esse fato foi um erro contundente.

Que esquerda é viável em 2022? As pessoas com quem converso ressaltam que uma aliança não deve se limitar à esquerda. O PSB ainda está debatendo a questão do apoio, mas em uma eleição polarizada entre Lula e Jair Bolsonaro o partido estará com o petista.

Recentemente o senhor se encontrou com Lula. Ele influenciou sua saída do PSOL? Não. Agora, a volta do Lula ao tabuleiro eleitoral mexeu com o cenário, inclusive nos estados. No Rio, o PT de imediato abriu mão de lançar um candidato e indicou apoio a uma grande aliança. O PSB, o PCdoB e o PSOL idem. Com o PDT estamos conversando, mas ainda depende do que acontecerá com a candidatura do Ciro Gomes à Presidência.

“Tenho boa relação com o Ciro, mas as pesquisas mostram que não há espaço para duas candidaturas do mesmo campo. Espero que, até a eleição, isso mude”

Se não apoiar Lula, Ciro Gomes estará cometendo um erro? O Ciro é uma pessoa muito bem preparada e com quem tenho boa relação. Mas as pesquisas mostram que não há espaço, neste momento, para duas candidaturas do mesmo campo. Espero que até a véspera da eleição amadureça a necessidade de união e isso mude.

O senhor está à frente nas pesquisas para o governo do Rio. A candidatura é coisa certa? Sim, sou pré-­candidato. Ainda falta mais de um ano, mas estou à disposição para construir essa alternativa para o Rio. Há três meses, em um jantar em Brasília, o deputado Rodrigo Maia (Democratas), espontaneamente, disse que eu deveria ser governador. Não significa que vá me apoiar, mas é notório que algo novo precisa acontecer.

O PSOL tem fama de partido radical. A busca por uma legenda mais palatável pesou na mudança? Não acho que a população do Rio me veja como radical. Em 2012, tive 28% dos votos para prefeito. Em 2016, atingi 41% no segundo turno, mesmo sem tempo na TV. Sempre defendi alianças, mas agora elas são mais necessárias, indispensáveis mesmo. A realidade das milícias, do tráfico, do desemprego e da corrupção estrutural se agravou em toda parte. O grupo dos ex-governadores Wilson Witzel, Sérgio Cabral e Anthony Garotinho e do ex-deputado federal Eduardo Cunha estará no mesmo palanque. Só unidos seremos capazes de derrotar o bloco político que acabou com o estado. O Rio faliu economicamente, politicamente e eticamente.

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O PSB tem condições de cumprir esse papel? Não tenho dúvida de que conseguiremos unir os setores que divergem do atual governo. É uma legenda que facilita o diálogo com todos, do campo progressista ao centro.

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Isso quer dizer que, com radicalismo, a esquerda não vai para a frente? Ninguém é mais radical que Bolsonaro. Se tem um radical que faz mal ao Brasil hoje, é ele.

Como pretende viabilizar sua candidatura? Além de alianças, estamos reunindo pessoas capacitadas. Os economistas André Lara Resende e Laura Carvalho estão traçando um plano de recuperação do estado. O Raul Jungmann, ex-­ministro da Defesa, coordenará o programa de segurança e Carlos Gadelha, da Fiocruz, atuará na saúde. Um estudo da Universidade Federal Fluminense mostrou que 58% do território fluminense é dominado por milícias. O estado necessita de uma gestão que gere desenvolvimento, não corrupção.

O senhor chegou a cogitar voltar ao PT? Não. O próprio PT avaliou que o PSB era o melhor lugar em que eu poderia estar no projeto de formação de uma grande aliança. Para a liderança petista do Rio, o mais importante é eleger Lula presidente. Em 2018, o estado pesou na derrota de Fernando Haddad e a legenda sabe que não pode repetir o erro.

O que responde a quem o chama de “esquerda caviar” porque mora na Zona Sul, frequenta hotéis caros e gosta de viajar? Críticas são bem-vindas, mas essa é injusta. Não pisei mais do que três vezes no Copacabana Palace, duas para reuniões e uma para jantar com minha mulher, que pagou a conta. Moro no apartamento dela e nunca viajei de primeira classe. Fui criado na periferia de Niterói e nem sequer tinha telefone em casa. Perdi amigos para o crime e as drogas.

Se for derrotado na disputa para governador, ficará sem mandato e sem direito a segurança. Tem medo de morrer? Claro que tenho. Nunca fui imprudente. Encabeçar a CPI das Milícias não foi irresponsabilidade, mas necessidade. Como resultado, as ameaças aumentaram. Sei que não posso ficar desprotegido e venho discutindo um plano B com a família. Não iria embora, mas posso passar um período fora do país. Só não vou deixar de ser candidato por isso.

Desde a CPI, em 2008, a milícia cresceu, aliou-se ao tráfico e ganhou influência na política. Dá para reverter o quadro? Esse é o problema número 1 do Rio. Os milicianos têm um projeto de poder. Não apenas atuam na grilagem de terras, na extorsão, no controle dos serviços públicos como elegem gente deles. Para mudar esse estado de coisas, é preciso um pacto de enfrentamento entre governos municipal, estadual e federal, inteligência da polícia e apoio da sociedade e do empresariado.

Como isso seria feito na prática? É fundamental quebrar a economia das milícias. Nesse ponto, a valorização da polícia, com um plano de cargos e salários e investimento em formação, é primordial. Um mapeamento eficiente dará ao governo as ferramentas para assumir os serviços hoje controlados pelo crime e criar alternativas. Não estou falando de ocupação de território, mas de quebrar a geração de renda.

Muitos acreditam que o senhor era o real alvo do ataque que matou a vereadora Marielle Franco, do PSOL. Sente-se culpado? A hipótese é válida, já que ela era muito ligada a mim, embora alguns fatos não se encaixem. Mas de forma alguma me sinto culpado. Quem tem culpa é quem cometeu essa covardia. O que sinto é dor, saudade. Era uma grande amiga com quem vivi alguns dos melhores momentos da minha vida. Acompanho as investigações todos os dias.

Por que, passados três anos, a polícia não chegou aos mandantes do crime? Alguns procedimentos elementares não foram adotados pela polícia no início da investigação, como checar câmeras de rua e interrogar pessoas-chave. Isso comprometeu o andamento do inquérito, mas ele não está parado. A morte da Marielle destampou um bueiro da segurança pública e expôs a mistura de criminalidade com polícia e política. Não pode uma vereadora ser assassinada e ficar por isso mesmo.

“Os milicianos não apenas atuam na grilagem, extorsão e controle de serviços públicos como elegem gente deles. Reverter o quadro requer um pacto entre governos, polícia, sociedade e empresariado”

Afinal, quem matou Marielle? É a polícia que tem de responder. Sabe-se que não havia ameaças contra ela, nenhuma razão passional, e que a morte teve motivação política. Também não há dúvida do envolvimento da milícia. Muito se avançou com a prisão de Ronnie Lessa, acusado da execução, e informações continuam chegando através de quebras de dados do Google e de intermediários. Ainda acredito na elucidação do crime.

O senhor afirma que o clã Bolsonaro tem ligações com a milícia. Possui provas? Não sou eu que digo, são os fatos. Fabrício Queiroz, que atuava no gabinete de Flávio Bolsonaro, era ligado a milícias e tinha negócios em seu território. Até flagraram um cheque dele para a primeira-dama. O miliciano Adriano da Nóbrega foi homenageado por Flávio, na Alerj, a pedido de Jair. Quando deputado, o presidente, inclusive, defendeu a legalização desses grupos, o que, por si só, é muito grave.

Bolsonaro é criticado por promover aglomerações na pandemia, mas há pouco milhares de opositores fizeram o mesmo em um ato de protesto. Não é contraditório? Há um desespero das pessoas diante do que este governo representa. Uma grande parcela da população considera que, com esses protestos, o presidente perde o monopólio das ruas. Eu só não estava lá porque minha mãe tem 80 anos e ainda não fui vacinado.

Publicado em VEJA de 16 de junho de 2021, edição nº 2742

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