Daniella Marques: “O Brasil caminha para um abismo econômico”
Uma das responsáveis pelo programa de Flávio Bolsonaro promete controle de gastos, critica o governo Lula e diz que o petista não respeita as mulheres
Ex-assessora especial do Ministério da Economia no governo de Jair Bolsonaro, a administradora Daniella Marques foi, durante quatro anos, uma espécie de alter ego do então ministro Paulo Guedes — o braço direito, a confidente, a auxiliar que cumpria missões políticas sensíveis e tarefas institucionais delicadas. Em 2023, depois da derrota do capitão, ela retomou a bem-sucedida carreira no mercado financeiro, onde permaneceu até recentemente, quando passou a acompanhar o senador Flávio Bolsonaro em eventos com empresários e banqueiros. Não tardaram as especulações. Futura ministra da Fazenda? Ela garante que esse assunto nunca foi tratado com o candidato do PL. O máximo que ambos admitem é que ela está participando da elaboração da pauta econômica do plano de governo. Ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Dani, como ela prefere ser chamada, tem 46 anos, filiou-se recentemente ao Republicanos e passou a ser cotada até para ocupar a vaga de vice na chapa presidencial do PL, colaborando para melhorar a performance de Flávio entre o eleitorado feminino. Cautelosa, ela diz apenas que pretende ajudar o Brasil a sair do abismo econômico produzido pelo PT.
O senador Flávio Bolsonaro já convidou ou cogitou a hipótese de a senhora ser candidata a vice-presidente na chapa do PL? Não. Eu liguei para ele e me alistei voluntariamente ao seu projeto. O Brasil caminha para um abismo econômico. O atual governo está descontroladamente endividado, quebrando as empresas e superendividando as famílias. Eu disse para o senador que estava pronta para contribuir se ele precisasse.
A senhora é candidata a ministra da Fazenda? Nunca falamos sobre cargos. Estamos preocupados em ser bem-sucedidos com o projeto dele, que tem princípios e valores em que acredito. O governo Bolsonaro foi marcado por uma equipe altamente técnica nos ministérios. O projeto do Flávio tem, para mim, uma exequibilidade política gigantesca, e o Brasil tem uma chance única de tirar o PT do poder. O Lula prometeu picanha e entregou churrasquinho de gato, já gastou quase uma pandemia na tentativa de se reeleger, e o custo disso vai ser muito alto para a população brasileira.
“Vivo num país onde o presidente da República fala que mulher tem grelo duro e autoriza espancar mulher em dia de jogo do Corinthians. Isso, sim, é radicalismo e desrespeito total conosco”
De que forma está sendo sua contribuição à campanha? Estou coordenando a pauta econômica do plano de governo e a integração das ideias. Além de ouvir o setor produtivo, a pauta mais relevante para mim é a mobilidade social e a autonomia financeira feminina. Fundei o grupo Pra Elas, focado nisso, porque vejo nesse tema a capacidade de as pessoas terem dignidade. Estou muito envolvida com soluções concretas para problemas reais, especialmente na agenda focada nas mulheres. Dados mostram que vivemos uma pandemia de violência contra a mulher. A independência financeira é a porta de entrada para a liberdade e impede relações abusivas.
Esse foco nas mulheres tem algo a ver com a alta rejeição do candidato do PL junto ao eleitorado feminino? É curioso. Ficam falando da rejeição ao Flávio, que ele seria de extrema direita, que seria o bolsonarismo radical etc. Vivo num país onde o presidente da República fala que mulher tem grelo duro e autoriza espancar mulher em dia de jogo do Corinthians. Isso, sim, é radicalismo e desrespeito total conosco. Sob o governo Lula, o país registrou o ano mais letal contra as mulheres desde 2015. É esse o governo que as mulheres deveriam estar rejeitando. Vamos apresentar soluções concretas para problemas reais das mulheres e sair desse discurso hipócrita.
Como repercutiram internamente as críticas da ex-primeira-dama ao enteado, inclusive dizendo ter sido “maltratada” por ele? Isso já é página virada. Ele soltou uma nota pública no dia seguinte ao vídeo. Nosso foco tem sido ouvir as lideranças femininas e colher sugestões de políticas de quem está na ponta, que podem ser replicadas em escala nacional no plano de governo. Sou mãe, sou esposa. Segurança pública é a grande questão. O país está ficando um lugar difícil de viver, principalmente para mulheres e crianças. Vamos propor medidas de proteção muito contundentes em relação a acabar com a impunidade de bandidos, colocar tornozeleira eletrônica com monitoramento nos agressores, tolerância zero ao feminicídio, castração de estupradores… A ideia é integrar segurança, saúde e educação. Haverá um eixo de autonomia financeira, para mulheres se capacitarem e garantirem sua dignidade e a de suas famílias. É isso que liberta.
Qual é sua leitura do atual cenário macroeconômico, particularmente sob a ótica da inflação? Quem não cuida das contas não cuida das pessoas. Você tem um descontrole absoluto de gastos, e as expectativas de inflação desancoradas. O governo faz um discurso hipócrita de que controle fiscal é uma política de “mercado”. Não existe política mais social que essa, porque é justamente sobre a camada mais pobre da população que juros e inflação geram o maior impacto. O Banco Central está sozinho no combate à inflação.
O que o plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê para enfrentar essa situação? Se eleito, ele já fez um compromisso de usar todo o seu capital político para aprovar uma emenda no Congresso que vai retomar a confiança do mercado. Esse projeto envolve mecanismos de controle da trajetória da dívida, uma ação forte em relação aos ativos da União, o reordenamento das despesas e um enxugamento da estrutura ministerial.
Que pontos devem ser atacados como prioridade, segundo esse programa? Entre penduricalhos, privilégios, ativos obsoletos, há estimativas que vão de 300 bilhões a 1 trilhão de reais. Hoje, a União tem 44 estatais sob controle direto. Fala-se muito da importância da Petrobras e do Banco do Brasil, mas tem outras quarenta que consomem algo em torno de 30 bilhões de reais por ano em subvenção. A gente ainda tem estatal de chip do boi, do trem-bala que nunca existiu, uma criada para administrar royalties de petróleo… É um grande cabide de empregos. A União também possui créditos e imóveis com valor contábil acima de 1 trilhão de reais. Somando tudo, estamos falando de mais de 3 trilhões de reais. Resumindo: temos um Estado obeso, com muitos ativos empilhados, uma altíssima carga tributária e um endividamento que cresce como uma bola de neve. É preciso sair dessa armadilha.
É possível pensar em redução de impostos diante dessa situação fiscal, conforme vem dizendo em entrevistas o senador Flávio Bolsonaro? O objetivo final, sem dúvida, é esse. Vamos atrás dele por três eixos conceituais. O primeiro são reformas de Estado e essa agenda macroeconômica. O segundo são reformas microeconômicas que promovam a competitividade, a produtividade e a segurança jurídica. A vida do empresário está muito desafiadora e o Brasil não é um país atrativo. O terceiro, quero reforçar, é a mobilidade social. A gente está num país desigual, com uma veia empreendedora muito forte. As pessoas querem abrir o seu negócio. Cabe ao Estado ser o motor da rampa econômica dessas pessoas e construir uma jornada mais fácil, menos burocrática e com mais acesso a crédito para esse cidadão.
“Lula prometeu picanha e entregou churrasquinho de gato, já gastou quase uma pandemia na tentativa de se reeleger, e o custo disso vai ser muito alto para a população”
Como o setor financeiro tem visto a candidatura de Flávio Bolsonaro? Percebo que há uma predileção por ele. Está se formando um consenso de que a gente precisa tirar o Brasil das mãos do PT. São quase vinte anos de descontrole. Mais quatro anos desse governo custarão muito caro para o futuro do país. A maior chance de mudança é pelo Flávio Bolsonaro, seja nas pesquisas ou seja pela própria capacidade de execução de projetos que levaram nações do mundo à prosperidade. Existe uma política econômica que dá certo e, hoje, é o Flávio Bolsonaro que a defende.
Paulo Guedes deixou o Ministério da Economia sob críticas que incluem o aumento de gastos visando à reeleição de Jair Bolsonaro. Como a senhora vê esse tipo de crítica? Foi um privilégio para o Brasil ter alguém com a sabedoria do Guedes no momento mais desafiador da sua história. Entregamos a relação dívida/PIB com 71,67%, que é 3,6% menor do que a recebemos. Esse governo está entregando acima de 80%.
Como ex-assessora do Ministério da Economia, a senhora viveu a realidade que muitas vezes separa o correto a fazer do politicamente possível. Quais lições tirou desse período? Foi um grande aprendizado. Obviamente as coisas, na prática, partem de um convencimento coletivo da sociedade representada no Congresso. O Flávio tem uma reconhecida capacidade de diálogo para que a gente vá além do discurso e tenha a velocidade de execução política. Cabe a nós convencer a população de que o nosso projeto vai recuperar o poder de compra, a decência e a capacidade de construir um futuro melhor para as famílias.
Quais são as semelhanças e diferenças entre Jair e Flávio Bolsonaro? Eles se parecem muito nos princípios e valores, no projeto em que acreditam para a nação — Deus, pátria, família, liberdade e prosperidade. As personalidades são diferentes, mas ambos, muito fáceis de conviver. Quando eu falava do tempo em que trabalhei com o presidente Bolsonaro, sempre diziam: “A parte mais difícil devia ser conviver com ele, né?”. Essa era a parte mais fácil, porque ele, por trás das câmeras, era um cara brincalhão, leve, simples e genuíno na vontade de ajudar o Brasil. Flávio é combativo como o pai, mas com um estilo diferente, mais conciliador. Ele tem uma humildade em ouvir e está imbuído de uma missão, delegada pelo pai, de deixar um legado.
Lula tem a mudança da escala de trabalho como uma de suas principais promessas de olho na eleição. Por que a campanha de Flávio é contra? Obviamente, todos nós gostaríamos de trabalhar menos se pudéssemos, mas cada um tem que ter o direito de definir sua realidade e aonde quer chegar. O fim da escala 6×1 é uma ilusão, uma agenda oportunista, em ano de eleição, que vai ter um resultado concreto pouco relevante. Se a empresa e o trabalhador puderem construir sua forma de se relacionar no trabalho, as possibilidades se tornam mais amplas e cada um vai ter direito de fazer as suas escolhas.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003







