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Cláudio Castro, governador do Rio: “Virei vice porque não tinha outro”

O cantor gospel católico que assumiu o comando do estado diz que esperará a vacina “oficial” e é bem relacionado com o Planalto

Por Cássio Bruno, Sofia Cerqueira Atualizado em 8 jan 2021, 14h23 - Publicado em 8 jan 2021, 06h00

Ao assumir há quatro meses a cadeira de governador do Rio de Janeiro, depois de Wilson Witzel ser afastado sob a acusação de pilotar uma teia milionária de corrupção na Saúde, Cláudio Castro (PSC), 41 anos, enveredou por trilha oposta à do antecessor — sobretudo no que tange ao clã Bolsonaro. Ainda como interino, aguardando um martelo final da Justiça, Castro logo se aproximou do presidente Jair Bolsonaro, desafeto declarado de Witzel, e do filho, o senador Flávio Bolsonaro, interessados em recuperar terreno em seu reduto natal. Eles se falam toda semana sobre os assuntos do Rio. “O Witzel é uma pessoa mais vocacionada ao embate, já eu sou mais do diálogo”, compara o advogado de formação e cantor gospel católico, que sofre de uma bem disfarçada gagueira. Até virar vice na chapa do então azarão das eleições estaduais de 2018, Castro era vereador em primeiro mandato — e até hoje muita gente não o reconhece na rua. Na entrevista a VEJA, na mesma sala de vice-governador onde segue despachando, ele alfinetou João Doria e Sergio Moro, tratou de vacina e da colossal dívida do estado e defendeu-se das acusações de corrupção de que é alvo: “Me prender seria uma covardia”.

A vacina contra o novo coronavírus fabricada pelo governo João Doria, em São Paulo, pode ser uma solução para o Rio? Não acho. Se a gente tem um Sistema Único de Saúde, um plano nacional de imunização e um órgão como a Anvisa, com técnicos competentes que atravessaram todas as gestões em Brasília, a coordenação tem de ser federal. Brasília deve comprar a primeira vacina que for aprovada e as doses, divididas pelos estados. Mesmo que São Paulo esteja produzindo a sua, defendo um plano que seja nacional. Nessa guerra, fico do lado do presidente.

Por que politizar a discussão em torno do imunizante? Eu fujo dessa politização. Ainda assim, nunca cogitei pedir apoio ao Doria, mesmo que o início do plano nacional demore um pouquinho. Vale a pena esperar, em prol de uma ação mais organizada.

Se demorar demais custará vidas, não? Estou conversando com fabricantes. Se as vacinas forem aprovadas pela Anvisa e o governo federal não adquiri-las, nós compramos. Já temos 600 milhões de reais reservados para isso no caixa do estado.

Em um pacote de medidas para frear o vírus, o senhor foi criticado por deixar os shoppings abertos 24 horas por dia. Errou? Flexibilizamos o horário dos shoppings por entender que, quando se estende o período de funcionamento, a frequência dilui, evitando aglomerações. Mas, se eu perceber que fui infeliz na decisão, posso voltar atrás. Por enquanto, adianto aqui, não há previsão de nenhuma nova medida anti-Covid.

O senhor passou de vice a governador da noite para o dia. Com o Rio inundado de problemas, é difícil tomar decisões? Muito difícil. Mas a gente leva tanta pancada que se acostuma. Chegou uma hora em que, mesmo interino, comecei a dar a minha cara ao governo. Das 27 secretarias, troquei 23, chamando quadros da Assembleia Legislativa. O Witzel é uma pessoa mais vocacionada ao embate, eu tenho um perfil mais calmo, sou do diálogo, e com essa lógica montei minha equipe.

A propósito, como anda sua relação com Witzel? Da minha parte, amistosa. Mas ouvi a história de que ele teria mandado mensagem para duas pessoas dizendo que os governadores não me respeitavam. Está no turbilhão. A última vez em que nos falamos foi na véspera de seu afastamento. Havia então muita fofoca e boatos sobre uma operação que acabaria chegando a Witzel. Como é bem sabido na política, operação da polícia e do Ministério Público é sempre às quintas-feiras. Quando passa a quinta, o pessoal já diz: “Agora, só na semana que vem”. Mas a dele aconteceu numa sexta. Hoje, uma medida cautelar nos proíbe de conversar.

“Falo muito sobre os assuntos do Rio com o presidente e com o Flávio Bolsonaro. Aliás, nunca conversamos sobre a rachadinha e ele não me pediu para nomear alguém de sua confiança no MP”

Witzel errou ao antecipar o debate eleitoral de 2022 e logo se apresentar como candidato à Presidência? Errou. Teve um dia em que eu mesmo falei para ele: “Para ser um grande presidente, precisa antes ser um grande governador”. Essa cadeira não é pouca coisa. Mas tudo aconteceu rápido demais. A virada expressiva dele na eleição de 2018, os índices favoráveis na segurança pública, tudo o havia enchido de confiança.

Assim que assumiu o governo, o senhor se aproximou do presidente Bolsonaro. Qual é o grau de participação dele nas questões fluminenses? Trocamos mensagens de Whats­­App mais ou menos a cada três dias, em geral sobre assuntos do Rio, como a vacina e a renegociação da dívida do estado. Bolsonaro sempre pergunta da segurança pública. Outro dia, liguei para agradecer quando conseguimos destravar 2 bilhões de reais de um acordo com a Petrobras. Sou muito bem tratado em Brasília por todos os ministros. Não tenho do que reclamar.

Nos bastidores, afirmam que o senhor é subserviente ao presidente Bolsonaro. Não concordo. Até porque ele nunca me pediu nenhum cargo, nada. Nem ele, nem o Flávio (Bolsonaro), a quem também escuto umas duas ou três vezes por semana.

Qual sua opinião sobre a denúncia do esquema de “rachadinha” implantado no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro? Não falo de nada que esteja em segredo de Justiça. O Flávio é quem tem de se defender. Nunca conversamos sobre isso. E, só para deixar claro, ele jamais me pediu para pôr um nome de sua preferência na chefia do Ministério Público, que conduz o caso, como tem sido ventilado por aí. Escolhi o mais votado.

Bolsonaro vai ter palanque no Rio em 2022? Se eu for candidato, sim. Afinal, fui eleito na onda bolsonarista.

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No mesmo dia do afastamento de Witzel, houve uma operação de busca e apreensão em sua casa. Surpreendeu-se? Sim. A justificativa para a ação foi baseada em cinco linhas. A delação do ex-secretário de Saúde Edmar Santos induziu a Procuradoria ao erro. Entrei, inclusive, com um processo contra ele por calúnia e difamação. O irônico é que Edmar era a coqueluche durante a campanha. Todos os candidatos queriam ter o então chefe do Hospital Pedro Ernesto como secretário, justamente para combater os conhecidos problemas nas organizações sociais (OS).

O senhor manterá as organizações sociais, responsáveis pelas unidades de saúde, epicentro da corrupção no estado na pandemia? Vou acabar com elas, mas ainda levará um tempo, graças aos gargalos burocráticos. A ideia é que a Fundação de Saúde, vinculada ao governo, assuma os hospitais geridos pelas OS.

Segundo o MP, o senhor teria recebido propina de 100 000 reais de empresários em contratos milionários com a Fundação Leão XIII, de assistência social do estado. As câmeras de um shopping, local de uma reunião em que esteve presente, inclusive o flagraram com uma mochila onde estaria o dinheiro. Procede? Não. Todo mundo sabe: vou trabalhar diariamente de mochila. E o fato de ter me encontrado com um fornecedor do governo, que vem a ser meu amigo, não significa nada. Ele é dono de uma butique de carnes e adoro fazer churrasco. As pessoas são hoje prejulgadas. É a cultura do lavajatismo.

O senhor acha que a Lava-Jato deixou uma herança negativa? Com a Lava-Jato, os políticos ficaram com mais medo de praticar a corrupção, mas ela também estimulou o prejulgamento, e isso destrói reputações e empresas. Embora tenha coragem, Sergio Moro se destaca pelo egocentrismo, pela vontade de aparecer.

Um dos maiores gargalos do Rio é a dívida acumulada com a União. Como andam as conversas com o governo federal? Estive com o Paulo Guedes uma vez, em minha primeira semana. O Regime de Recuperação Fiscal estava para vencer e Flávio Bolsonaro me ligou querendo saber se eu precisava de ajuda. Disse que sim e podia não ser com o pai dele. “E com o Guedes?”, Flávio perguntou. Fui para Brasília e tive uma conversa muito dura com os técnicos do ministério. Em certos momentos, Guedes tentou mediar. O pessoal da Secretaria do Tesouro elogiou o Rio no corte de despesas, mas disparou críticas. A diferença é que, antes, havia a preocupação de a briga entre Witzel e Bolsonaro tirar o estado do acordo. Agora, não.

A proposta federal que altera a distribuição dos royalties de petróleo, principal fonte de receita do estado, deve ser discutida pela Câmara de Conciliação do STF. Como evitar uma sangria nos cofres do Rio? Essa questão é crucial. Um jogo de 24 estados contra três — Rio, São Paulo e Espírito Santo. O momento é de muita negociação, com todo o cuidado. Se você diz alguma coisa inapropriada aqui, corre o risco de desagradar ali, e prejudicar as costuras.

O senhor é a favor da política de segurança que Witzel resumiu no slogan “tiro na cabecinha” dos bandidos? A gente não pode viver só de tiro para lá e para cá, em estado de guerra. A polícia precisa se aproximar da população e o poder público deve levar serviços, e não confronto, às favelas. A melhor situação é entrar em áreas dominadas pelo crime, prender quem deve ser preso e não dar nenhum tiro — ou no máximo um, na cabecinha se necessário. Mas não é isso que está acontecendo. Até março, anunciaremos um novo plano para a segurança.

“Quando o PSC pensou em mim, procurava uma pessoa com votos, que não falasse besteira e fosse minimamente preparada. Virei vice-governador porque não tinha outro”

O caso Marielle é considerado um fracasso da Polícia Civil fluminense. Está perto de ser resolvido? Cobro o secretário de polícia toda semana. Segun­do ele, há um impasse. A polícia pediu ao Google dados fundamentais à investigação, para finalmente chegar ao mandante, e ainda não recebeu. Só esperamos isso para comprovar a linha que estamos seguindo.

Reza a lenda que o senhor foi convidado para ser vice de Witzel por exclusão. É verdade? Sim. Quando o PSC pensou em mim, ninguém queria ser vice. Aí me ligaram dizendo que estavam em busca de uma pessoa com certa densidade de votos, que não falasse besteira, fosse minimamente preparada e não quisesse vir candidato a nada. Só havia eu e uma vereadora do interior. Ela era servidora e não se desincompatibilizou. Virei vice porque não tinha outro.

O senhor sonhava algum dia sentar-se na cadeira de governador? Nunca pensei. Na realidade, nem queria ser vice. Era um vereador feliz, realizado.

Afinal, vai concorrer à reeleição? Ainda não tenho essa resposta.

Já o reconhecem na rua? Algumas vezes sim, outras não. Quando fui votar, recentemente, juntou imprensa em volta. Passei por um casal e ouvi a mulher, curiosa com a multidão, dizer: “Quem é?”. O rapaz respondeu: “Não sei, mas deve ser alguém importante”.

Publicado em VEJA de 13 de janeiro de 2021, edição nº 2720

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