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Ciro Nogueira: “O Lula de 2022 é muito pior que o de 2002”

Ministro-chefe da Casa Civil diz que a economia vai definir a eleição presidencial e garante que, se derrotado, Bolsonaro vai aceitar o resultado das urnas

Por Daniel Pereira Atualizado em 4 mar 2022, 16h14 - Publicado em 4 mar 2022, 06h00

Na parede que fica em frente à sua mesa de trabalho no Palácio do Planalto há uma foto de Golbery do Couto e Silva, que ocupou o mesmo cargo nos governos militares dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo. Fiador da aliança entre Jair Bolsonaro e o Centrão, Ciro Nogueira explica que o retrato já estava lá quando assumiu o posto — e lá continua porque ele não sabe de quem foi a ideia e não gosta de “mexer nas coisas”. “Golbery foi um ícone na época dele, mas não há muita semelhança entre a gente”, afirma. Chamado de “bruxo” em razão de sua reconhecida capacidade de articulação, Golbery foi decisivo para a distensão e a abertura política do país após a fase mais violenta da ditadura. Já Ciro, que se define como um amortecedor, trabalha diariamente para evitar confrontos entre o presidente da República e os demais poderes, que, segundo ele, desviam energia que deveria ser aplicada na solução dos principais problemas do país. Nem sempre dá certo. Em entrevista a VEJA, o ministro avalia que conseguiu desanuviar o ambiente, chama Bolsonaro de grande democrata, afirma que o Centrão evoluiu e ataca acidamente Lula, de quem já foi um entusiasmado apoiador. Confira os principais trechos.

As sucessivas crises do Executivo com os demais poderes terminaram? O grande desafio aqui era sair daquele momento de instabilidade e preparar o país para a retomada. O quadro político como um todo foi responsável pela instabilidade, que contribuiu para que o dólar, que poderia estar em 4 reais, 4 reais e pouco, atingisse 5,70. Isso prejudicou muito a população, porque hoje tudo é dólar, o arroz é dólar, o combustível é dólar. Eu tenho certeza de que teremos um ano muito melhor em 2022, até por causa do fim da pandemia. O principal avanço que teremos será a redução da inflação pela metade e a volta do emprego num ritmo que fará do Brasil um exemplo para o mundo.

Qual foi o conflito mais difícil de contornar? Na pandemia, criou-se uma CPI daquelas, um espetáculo desnecessário, senadores enlouquecidos porque estavam na TV, uma vontade de aparecer, mesmo que aquilo prejudicasse a vida das pessoas e criasse instabilidade no país. Eu dizia na época: “Vocês podem esperar porque na eleição a verdade vai aparecer”. E a verdade apareceu. Hoje, o Brasil é um exemplo para o mundo de combate à pandemia. Às vezes, me pergunto o que teria ocorrido se o presidente não fosse o Bolsonaro, mas o Fernando Haddad. Teria sido o caos. O país teria testemunhado convulsões e saques, e o Haddad certamente não teria terminado o governo dele. Com responsabilidade, conseguimos investir mais de 700 bilhões de reais para evitar que as pessoas passassem fome, para manter empregos, ajudar empresas, estados e municípios.

O presidente não contribui para a instabilidade ao atacar ministros do Supremo ou colocar sob suspeita a segurança das urnas? Nós temos de respeitar a independência entre os poderes e colocar o interesse da democracia e do cidadão acima de qualquer disputa ou divergência. Houve erros de parte a parte. Tínhamos de estar focados na retomada econômica, no emprego e na renda, e não em provocações desnecessárias. O fundamental é que a gente saiu dessa situação amadurecido e consciente de que o Supremo, o Congresso e o presidente têm cada um a sua atribuição. O presidente tem uma maneira muito espontânea de dizer as coisas e é preciso respeitar isso. Eu pessoalmente confio nas urnas eletrônicas, mas não quer dizer que elas não possam ser fraudadas. Então, é preciso uma vigilância permanente, inclusive da sociedade.

Quais foram as provocações desnecessárias? Ministros falando fora dos autos.

O presidente aceitará o resultado da eleição independentemente de qual seja? Não tenho dúvida. O presidente é um grande democrata. Se tem uma pessoa que respeita a democracia no país é o presidente, ao contrário do PT. Qual foi o presidente da República que o PT não propôs impeachment? Propôs do Collor, do Itamar, do Fernando Henrique, do Michel Temer e do Bolsonaro. É o mesmo PT que fica chamando os outros de golpistas.

“Eu também já falei lá trás que o Bolsonaro era fascista. Hoje me arrependo porque agora conheço o presidente. Houve amadurecimento de todo o quadro político”

Por que o governo é tão mal avaliado? Não dá para comparar o nosso governo com os anteriores. Quem foi melhor primeiro-ministro, o (Winston) Churchill, a Margaret Thatcher ou o Boris Johnson? Ninguém enfrentou uma guerra como o Churchill, como ninguém enfrentou uma pandemia como o Bolsonaro. Não tenho dúvida de que o próximo governo do Bolsonaro será muito melhor. Por isso, acho que o presidente tem direito a esse segundo mandato — e o melhor, sem o risco de colocar uma Dilma Rousseff como sucessora depois.

Como o senhor define o Centrão? Nada neste país foi aprovado nos últimos trinta anos sem que tivesse o apoio do Centrão, dos partidos de centro, que têm a coragem de expressar a vontade da maioria e não pensam apenas ideologicamente. Os partidos de centro serão reconhecidos nas urnas, como ocorreu nas últimas eleições municipais, nas quais foram os grandes vencedores. O centro também será o grande vencedor neste ano. Os partidos de centro nunca estiveram tão fortes porque eles têm muito mais sintonia com a população.

E a parte do fisiologismo, da corrupção? Acho que os partidos de centro se transformaram e devemos isso ao presidente Bolsonaro. Ninguém mais do que eu sabe como funcionavam os governos anteriores, do Fernando Henrique, do Michel, de Lula e Dilma. Entregava-se o ministério de porteira fechada, e hoje não existe mais isso. Também não temos mais indicações políticas em estatais. Os partidos de centro avançaram muito nesse amadurecimento político. Por isso, eu confio que jamais vamos voltar ao passado do PT porque a sociedade não vai mais aceitar que se entregue a Petrobras e o Banco do Brasil a partido político. Não haverá mais fisiologismo como se tinha no passado.

Os governos anteriores entregavam, mas vocês recebiam de bom grado. Nós amadurecemos, porque ninguém mais vai fazer política dessa forma, as pessoas não vão mais aceitar, porque no fundo quem paga é o cidadão.

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O senhor despacha a poucos metros do gabinete do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que comparou o Centrão a ladrões. Eu também já falei lá atrás que o Bolsonaro era fascista. Hoje me arrependo, porque agora conheço o presidente Bolsonaro. São situações de outra época. Houve um amadurecimento de todo o quadro político, meu, do presidente, do ministro Heleno. Temos um relacionamento de respeito.

O Centrão ficou famoso, entre outras coisas, por apoiar todos os governos. Essa postura também mudou? Os partidos de centro correspondem hoje a 70% do Congresso, e eu não posso falar por todos. Eu falo pelo Progressistas e jamais apoiaria um governo que nos remetesse ao passado, como é o governo do PT. Eu vejo o PT hoje como aquelas novelas que têm de ser reprisadas, e a gente é obrigado a assistir. Eu acho que as pessoas querem novelas novas, histórias novas.

Mas o seu partido hoje está com o PT na Bahia. Você está falando de uma exceção. Nós nunca tivemos o Progressistas tão unido. Antigamente era dividido, metade votava no PT, metade votava no PSDB. Hoje, temos 98% do partido fechado com o presidente. Você jamais vai ver o senador Ciro no próximo governo apoiando o PT. Tenho convicção de que seria um erro voltar àquelas pessoas, aquelas figuras que fizeram tão mal ao país no passado. Seria um retrocesso muito grande para o Brasil.

O senhor inclui o ex-presidente Lula entre essas figuras que representam um retrocesso? O grande adversário do Lula na próxima eleição será o Lula de 2002. O Lula de 2022 é muito pior do que o Lula de 2002. Ele agora diz que vai revogar a reforma trabalhista, intervir no preço da Petrobras, acabar com teto de gastos. Meu Deus, o dólar vai para 20 reais. É um Lula que vem magoado porque foi preso, cercado de pessoas que sofreram nos aeroportos, nos restaurantes. É um Lula mais próximo da Venezuela, de Cuba, do que de um país que possa se integrar ao mundo desenvolvido.

O senhor tem se mostrado mais agressivo com relação a Lula, a quem já chamou de sedutor. O PT quer fazer as pessoas acreditarem que o jogo acabou antes mesmo de ter começado. Eu não vou deixar e, por isso, comecei a lembrar das pessoas que estão vindo junto com Lula: Gleisi Hoffmann, o Antonio Palocci, o Guido Mantega. Não é só o Lula. E não é o Lula do Emmanuel Macron (presidente da França), é o Lula do Maduro, o Lula de Cuba. Parece que ninguém estava percebendo isso.

O que decidirá a eleição de 2022? A economia. Vi uma pesquisa outro dia dizendo que, dos indecisos, mais da metade votaria no presidente se a inflação caísse e o emprego voltasse. E graças a Deus a inflação vai cair e o emprego vai voltar. É por isso que ele está crescendo. Eu não tenho dúvida de que o presidente teve um mau momento nas pesquisas, mas daqui a dois meses ele vai estar empatado com Lula na margem de erro e, nas convenções, já vai estar na frente. Depois, vocês vão começar a fazer as contas para saber se o presidente Bolsonaro ganha no primeiro turno.

“O Lula de 2022 é muito pior que o Lula de 2002. Ele agora diz que vai revogar a reforma trabalhista, intervir no preço da Petrobras e acabar com o teto de gastos”

Por que as pesquisas não mostram essa recuperação? A imprensa diz que o Bolsonaro vive no cercadinho, mas não é verdade. Quem está no cercadinho é o Lula, que não pode sair de casa, que só dá entrevista para quem não vai fazer pergunta complicada. O Lula hoje parece que está dando entrevista para o Granma (órgão oficial do Partido Comunista de Cuba). Até no Nordeste, o Bolsonaro é um fenômeno, as pessoas querem abraçar o presidente, têm orgulho de andar com a camisa verde e amarela, com a bandeira do Brasil. O Lula não esperava conviver com outro fenômeno popular como Bolsonaro. Outra coisa, o Lula vai ouvir muito nesta eleição que nunca antes na história deste país ficamos tanto tempo sem corrupção, demos tanto benefício à população, blindamos as estatais e tivemos respeito ao teto de gastos e à responsabilidade fiscal.

Qual a relevância do Auxílio Brasil na recuperação de popularidade do presidente? Não vou negar para você que não tenha. O presidente demonstrou uma grande sensibilidade social, deu quinze anos de Bolsa Família em auxílio emergencial e depois dobrou o valor do antigo Bolsa Família. As pessoas associam o benefício ao presidente, 100%. As pessoas vão ver quem cuidou mesmo da população, quem teve coragem de enfrentar determinadas coisas que eram difíceis de enfrentar. O Pix, por exemplo, que tirou o lucro dos bancos. Isso é histórico. É preciso ter coragem para enfrentar a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). É lógico que muita coisa ainda não está clara que foi o governo que fez, mas com o tempo as pessoas perceberão. Este é um governo muito mais de ação do que de propaganda.

O que justifica a posição do presidente Bolsonaro em relação à invasão da Ucrânia? Defendemos uma posição de neutralidade. Temos de pensar primeiro nos interesses do Brasil, ter a visão do Brasil, não a visão da Otan, da China ou dos Estados Unidos. Somos dependentes dos defensivos agrícolas da Rússia, do mesmo jeito que a Europa depende do gás da Rússia. Nós é que vamos agora romper com a Rússia e ficar sem os defensivos? Temos de pensar primeiro nos interesses do nosso país.

Publicado em VEJA de 9 de março de 2022, edição nº 2779

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