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“Brasil não vai escolher lado”, diz Carlos Fávaro sobre tensões entre EUA e China

O ministro da Agricultura fala dos avanços em acordos comerciais e diz que país está disposto a negociar com as duas potências

Por Bruno Caniato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 jan 2026, 06h00 | Atualizado em 16 jan 2026, 12h17
“Brasil não vai escolher lado”, diz Carlos Fávaro sobre tensões entre EUA e China Priorize VEJA no Google

De volta ao jogo eleitoral em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha entre seus desafios contornar a resistência do agronegócio. Para convencer os ruralistas a embarcarem na sua agenda, o petista apontou como interlocutor um nome com bom trânsito entre os produtores. Filho de agricultores do norte do Paraná, que fincou raízes em assentamentos de reforma agrária em Mato Grosso, Carlos Fávaro tinha currículo para a missão. Vice-governador desse estado do Centro-Oeste de 2015 a 2018, foi um dos líderes da poderosa Associação dos Produtores de Soja antes de se tornar senador, cargo do qual se licenciou para virar ministro da Agricultura. Pré-candidato à reeleição no Congresso, ele celebra os resultados do setor, que, a despeito das turbulências internacionais, bateu recordes de exportação. O segmento também deverá ser um dos mais beneficiados pelo acordo do Mercosul. De novo ao lado do PT em uma eleição, o político do PSD garante que a relação dos produtores com o Planalto melhorou. “O agro cresceu com Lula.”

A agricultura brasileira vem quebrando recordes de exportação. O que explica esse desempenho? O Brasil é seguro no aspecto sanitário, eficiente nos preços e aguenta a demanda de qualquer país, seja China, Índia, seja a Europa inteira. Ninguém produz com tanto respeito ao meio ambiente e não temos contencioso com nenhuma nação. Isso nos torna muito competitivos. No início do governo, Lula brincou que queria “pelo menos 200 novos mercados” para o agro. Nós já superamos 500 acordos.

Quais são os principais produtos e destinos abertos nos últimos anos? Temos um portfólio muito ampliado. Não é só milho, soja ou carnes bovinas, suínas e aves. Abrimos o mercado dos pescados para a Austrália, do abacate para o Chile e o Japão, e do DDG (coproduto do etanol) para Coreia do Sul e China, entre outros. O Brasil se tornou o primeiro país do mundo autorizado a vender frango a Israel, após conseguirmos a licença para o abate kosher, e o Egito passou a comprar o nosso algodão por reconhecê-lo com a mesma qualidade do tecido de lá.

O tarifaço americano espalhou receio no agro. Como foram as negociações? Quando os Estados Unidos anunciaram as tarifas, é claro que assustou alguns setores. Lula poderia ter aplicado a reciprocidade, mas não quis. Preferiu o diálogo, teve a oportunidade de se apresentar a Donald Trump e rolou a química. Em paralelo, negociamos os pontos mais sensíveis. Às vezes a porta nem estava aberta. A gente forçava a abrir, pedia para o setor privado, brasileiro e americano, conversar e mostrar a precariedade das tarifas para os dois lados. Foi evoluindo. Praticamente toda a agropecuária brasileira saiu das tarifas excedentes.

“É um equívoco achar que produzir e preservar são ações antagonistas, quando elas são complementares. Não precisamos mais avançar sobre a floresta e o Cerrado. O clima é o mais importante”

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Há ainda trabalho pela frente nessas negociações? Deixamos claro que temos interesses comerciais recíprocos, mas que a soberania brasileira e a autonomia dos Poderes não são negociáveis. Isso não entra na mesa. Agora, a questão comercial, toda ela, está na mesa. Tudo pode ser negociado.

A China e os EUA vivem uma nova escalada de tensões. É possível o Brasil resistir às pressões externas e fazer negócios com as duas partes? O Brasil não vai escolher lado. Temos amizade, diplomacia e respeito com todos os países do mundo, e assim continuará sendo. Com a dificuldade de exportar para os EUA, o México se tornou o segundo maior comprador de carne bovina brasileira, e abrimos também os mercados do Vietnã, Filipinas e Indonésia. Nossa pluralidade de produtos e parceiros garante que não precisamos dar preferência a ninguém.

Apesar da oposição de alguns países, o conselho da União Europeia aprovou o acordo com o Mercosul. O que significa para o Brasil? A gente espera que o próximo passo seja levar essa aprovação aos chefes de governo para que eles autorizem a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a formalizar o acordo. É algo histórico, tão esperado por 26 anos. A atuação do Brasil, com toda a força e diplomacia de Lula, foi fundamental.

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O acerto final deve incluir muitas salvaguardas, como a suspensão de termos do acordo caso o comércio fique desequilibrado para algum país. Isso pode limitar o impacto? A gente não tem que focar nessa parte do acordo, do copo meio vazio. Temos que estar felizes porque chegamos à conclusão de um processo histórico, formando o maior bloco comercial do mundo, que é muito relevante para a agropecuária do Mercosul. Nós vamos ampliar nossos negócios. Salvaguardas são ações recíprocas, que podem acontecer durante as negociações de comercialização dos produtos, mas os dois lados têm mecanismos para superar dificuldades. Então, não há que se dar foco a isso, e sim ao tamanho da ampliação das oportunidades. O Brasil está feliz, o Mercosul está feliz, tenho certeza que a Europa está feliz. Todos vão ganhar com isso.

Há contradição entre o crescimento recorde do agronegócio e o discurso do governo sobre proteção ambiental? Não existe. É um equívoco achar que produzir e preservar são ações antagonistas, quando são complementares. Não precisamos mais avançar sobre a floresta e o Cerrado, mas recuperar a área degradada. Nenhum ativo é mais importante que o clima. Não adianta termos terras, trabalhadores, equipamentos e pesquisa em um deserto. O modelo de exploração que nos trouxe até aqui nos últimos cinquenta anos não é o mesmo que nos levará aos próximos cinquenta.

A nova legislação sobre licenciamento ambiental enfraqueceu o controle sobre o agronegócio? Com a derrubada dos vetos do presidente pelo Congresso, precarizou alguma coisa. Não podemos deixar isso acontecer na agropecuária, porque prejudicar o meio ambiente pode causar restrições a nossas exportações. Acredito no bom senso. Há uma burocracia absurda para licenciar, mas a máquina pública precisa evoluir sem precarizar.

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Um ministro do governo anterior, Ricardo Salles, defendeu “passar a boiada” na lei ambiental. Essa mentalidade de lucro a qualquer custo tem espaço entre os produtores? A imensa maioria nunca pensou assim. Os produtores brasileiros têm respeito à legislação e ao Código Florestal, como a própria ministra Marina Silva (Meio Ambiente) reconhece. Temos que separar os criminosos, que insistem em invadir e desmatar terras públicas, de quem faz a coisa certa. Não é preciso passar a boiada. Respeitar o meio ambiente e a estabilidade climática é gerar oportunidades.

O alto preço dos alimentos desgastou em alguns momentos a imagem do governo. Como evitar uma nova crise? Primeiro, é preciso esclarecer que não há correlação entre as exportações e o preço doméstico dos alimentos. O mercado interno é o mais importante, já que 70% do que produzimos fica aqui. Tivemos problemas climáticos sem precedentes, com enchentes no Rio Grande do Sul e secas em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e outras regiões, e isso quebrou a safra de arroz e milho. Nesse contexto, ampliamos o Plano Safra, levando incentivo e crédito, e criamos mecanismos de garantia de preço e de compras públicas. Isso estimulou os produtores, a safra foi grande e os preços baixaram.

A relação do agronegócio com o PT, que sempre foi muito ruim, melhorou nos últimos anos? Nada resiste ao trabalho. Nós criamos oportunidades e crescemos, abrimos mercados, ampliamos o Plano Safra e estamos repactuando as dívidas dos produtores rurais com os bancos. Havia uma retórica de fake news de que o PT iria estatizar tudo e acabar com o direito de propriedade, parecia até que o presidente Lula nunca tinha governado este país. Nada disso aconteceu, e as pessoas de boa consciência sabem avaliar isso.

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“O PSD tem três ministérios. Seria incoerente o presidente Gilberto Kassab exigir fidelidade a um candidato próprio do partido. Vou respeitar, mas estarei no palanque de Lula”

O Brasil ainda tem altos índices de violência no campo. Como lidar com o problema dos conflitos rurais? Reforma agrária é política pública. Se em algum momento o Estado titulou e escriturou um terreno para um produtor rural, e mais adiante decidiu que é importante distribuir a quem sonha com um pedaço de terra, isso é legítimo. Mas não é preciso tomar a propriedade de ninguém, e sim comprar, parcelar e vender aos assentados. A orientação do presidente Lula é evitar o confronto, adquirir de quem quer vender e depois repassar. É assim que se resolvem os conflitos.

A proximidade do agro com o bolsonarismo pode prejudicar a sua campanha ao Senado como aliado do PT? Espero que isso seja minimizado. O pior cego é o que não quer enxergar. Antes de ser político, acompanhei como líder classista tudo o que Lula fez nos primeiros dois mandatos em prol do setor agropecuário — e foi isso que me fez apoiá-lo em 2022. Fiz o comparativo com os quatro anos do governo Bolsonaro e não encontrei grandes obras ou inovação tecnológica. Sei que fizemos o Brasil avançar e vamos convencer muita gente de que o presidente merece um próximo mandato.

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Com Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, Lula pode contar com o apoio do agronegócio em 2026? Ninguém escolhe adversário. Para vencer a eleição, você precisa prestar contas do que fez como gestor e demonstrar ao cidadão que a vida dele vai melhorar. Lula tem serviços prestados à agropecuária para convencer a população de que merece um quarto mandato. Ganhamos espaço e eleitores, e o presidente será reeleito independente de quem concorrer contra ele.

Seu partido, o PSD, pode costurar um acordo para lançar um nome do Centrão à Presidência. Se isso acontecer, qual será sua posição? O PSD tem três ministérios. Seria incoerente o presidente Gilberto Kassab, por quem tenho grande admiração e respeito, exigir fidelidade a um candidato próprio do partido. Vou respeitar se a sigla tiver outro nome, mas estarei no palanque do presidente Lula.

Como pretende vender sua candidatura na campanha eleitoral? Investimos muito na modernização das tecnologias, abertura de mercados e ampliação das políticas públicas. Criamos linhas de financiamento para recuperar o solo degradado e estruturamos um programa para revitalizar pequenas propriedades e devolvê-las para o plantio familiar. Tenho orgulho de ter saído de um assentamento da reforma agrária para chegar ao ministério, trabalhando tanto pelos médios e grandes empresários quanto para incentivar pequenos produtores.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978

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