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Abilio Diniz: Moro criou tensão, mas Guedes acalmou o mercado

O empresário esbanja otimismo, acreditando numa rápida retomada da economia, e diz que o ministro está fazendo um trabalho "realmente belo"

Por Machado da Costa - Atualizado em 3 Maio 2020, 09h58 - Publicado em 30 abr 2020, 19h54

Empresário que é empresário não tem político, partido nem ideologia de estimação. Seu foco é garantir o crescimento e a geração de valor de suas empresas independentemente de quem ocupe o poder em Brasília. Abilio Diniz, sócio majoritário do grupo Carrefour no Brasil e do gigante do ramo de alimentos BRF, talvez seja um dos mais assíduos frequentadores dos gabinetes presidenciais dos últimos trinta anos. Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer o tinham em alta conta. Participou de inúmeros “Conselhões” e sempre deu sua contribuição para o enfrentamento de crises. Com o atual presidente, Jair Bolsonaro, não tem tal proximidade, mas aprova a diretriz do governo federal para garantir o nível de empregos e as empresas abertas. “O mais importante agora é pensar em como sair da crise, como manter uma agenda de crescimento”, afirma. Aos 83 anos, ele se diz pronto para encarar as adversidades que virão na esteira da pandemia e que esse será o momento de crescer. “Estamos preparados e ansiosos”, diz. “No Pão de Açúcar, em 2008, decidimos fazer caixa e guardar dinheiro. Quando o ano virou, utilizamos esses recursos para dobrar de tamanho.” Diniz atendeu VEJA em sua casa, por teleconferência.

Como o senhor vê a magnitude desta crise? Estou com 83 anos e vivi muita coisa. Assisti ao golpe de 1964, ao choque do petróleo no fim dos anos 1970, aos problemas de pagamento da dívida externa nos anos 1980 e à crise financeira de 2008, mais recentemente. E garanto: nunca vivi nada parecido com esta crise, que nasceu de um problema de saúde e contaminou a economia. Mas há uma questão que não difere de nenhuma das outras: toda crise tem início, meio e fim. E há algumas palavras de ordem para enfrentar uma crise: serenidade, solidariedade, esperança e mudança. Períodos assim são propensos a mudanças, e tenho uma grande expectativa de que, na retomada, vamos começar a criar um mundo novo, com um olhar mais preocupado com a desigualdade e a inclusão social.

Acha que demora até chegarmos ao fim disso tudo? Não sou médico, então não sei se este é o auge, o fim ou se haverá ainda uma segunda onda. Mas tenho a sensação de que não vai demorar muito. Os países mais afetados já estão sinalizando com a flexibilização do confinamento, como os Estados Unidos, a Itália e até mesmo a França. Então, vejo um horizonte mais curto de crise e que haverá a normalização no segundo semestre.

Enquanto isso, as medidas anunciadas de proteção de emprego e renda no país estão no caminho correto? Não tenho dúvida disso. Em toda a minha vida, eu sempre defendi a inclusão e o crescimento por meio da distribuição de renda. Quando olhamos para o resto do mundo, vemos que todos os países estão no mesmo contexto e todos — cada um com sua condição — estão fazendo o máximo para preservar o social. Isso me agrada muito. O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou que o total de auxílio poderá chegar a 700 bilhões de reais. E essa questão de entregar 600 reais às famílias soa como música para mim. Esses recursos vão para pessoas que praticamente não existiam para o governo. São aqueles informais invisíveis, que ficam nos semáforos vendendo coisas. Eu nunca vi em nenhum governo uma ajuda tão importante quanto a que este está dando a essas pessoas. E o mais importante: a medida deve impactar 40 milhões de brasileiros, quase um quinto de toda a população.

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“Acredito que o presidente quer o melhor para todos. Posso falar sobre o que eu entendo: economia. E, nessa área, o trabalho que vem sendo feito é realmente belo”

Tem medo de que as contas do país se agravem a ponto de a dívida alcançar um nível impagável? Isso não me preocupa nem um pouco. Mas é claro que dependerá do que fizermos pelo crescimento após o período de confinamento. A crise de 2008 e 2009 não tem nem comparação com esta, principalmente no Brasil. Quando olhamos para 2010, o que aconteceu? O país cresceu 7,5%, uma barbaridade. De lá para cá, houve um certo descontrole das contas, um acúmulo de déficits que chegou a um ponto extraor­dinário ainda no governo da ex-­presidente Dilma Rousseff. Neste momento, acho que não dá para ficar olhando para isso — é fundamental acudir os mais de 200 milhões de brasileiros e escorar a retomada da atividade econômica. Pode ser que haja um pouco de inflação no futuro, mas temos um Banco Central sério, pequenos sinais de alta de preços, e poderemos controlar. Se o governo vai gastar 700 bilhões de reais neste ano, isso significa algo em torno de 10% do PIB. O que vai acontecer a longo prazo? Nada. Uma coisa que costumo dizer: precisamos separar os medos reais dos imaginários. O mais importante é pensar em como sair da crise e manter uma agenda de crescimento. Se isso não acontecer, complica.

Acredita que a atual crise política pode atrapalhar essa retomada? A saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça criou muita tensão e um ruído grande na economia. A bolsa mergulhou por causa disso. Parecia que seria o começo de uma crise política mais grave, que traria ainda mais incertezas. Com o presidente reafirmando o comando de Paulo Guedes na área econômica, o mercado se acalmou com a sinalização de que a economia seguirá na linha defendida por ele. Ruídos sempre existirão e são naturais numa democracia como a brasileira, ainda mais num momento tão duro e confuso.

A condução do presidente é adequada? Acredito que o presidente quer o melhor para todos. Posso falar sobre o que eu entendo: economia. E, nessa área, o trabalho que vem sendo feito é realmente belo — e vejo Bolsonaro apoiando isso. Nesta crise, o liberal Paulo Guedes virou “Guedes, o keynesiano”. Isso aconteceu porque é preciso. Mas não apaga o excelente trabalho anterior envolvendo as reformas. O país já não crescia mesmo antes da crise do coronavírus. Olhe para os estados: qual deles não tem uma dívida imensa? É uma difícil questão política resolver isso.

Qual ponto deve ser atacado na economia para que o país possa retomar o crescimento mais rapidamente? Eu vivi todo o processo de nascimento da Constituição de 1988. E já naquela época víamos que algumas amarras atrapalhariam o desenvolvimento do país. Então, é preciso desatar esses nós da Constituição. Quando Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff ou Michel Temer estavam na Presidência, eu sempre dizia a eles que o problema está nos nós da Constituição. Por isso as reformas que Guedes planejou são tão importantes.

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O senhor advoga em nome da inclusão social e do combate à desigualdade. Como tem colaborado na construção dessa rede de amparo? Nós sempre praticamos filantropia, mas não falávamos muito sobre isso. Nosso forte sempre foram esporte e educação. Agora, acredito que seja importante expor o que estamos fazendo, porque quero estimular outros empresários e outras famílias a ajudar nesta crise. Decidimos, eu e minha família, criar um fundo de 50 milhões de reais para apoiar o combate à pandemia e a retomada da economia.

Como esses recursos estão sendo destinados? Minha mulher e minha filha estão trabalhando com cestas básicas e a outra parte do dinheiro irá para o fundo Estímulo 2020. Que­remos criar linhas de crédito para pequenas empresas, para empresários que precisem de 30 000, 50 000 ou 80 000 reais. Eles não têm acesso a capital de giro, e isso será muito relevante para manter esses pequenos empreendimentos. Formamos um comitê para selecionar os melhores investimentos. É uma coisa bem importante, e gostaríamos de que outros atuassem da mesma forma. Estamos fazendo o que podemos, mas precisamos de dinheiro para sustentar essas operações de crédito, o chamado funding.

Como vê o movimento dos empresários de não demitir funcionários durante a crise? Acho que todos aqueles que têm possibilidade de não demitir estão se desdobrando para manter os contratos de trabalho. Nas empresas em que temos participação, o Carrefour e a BRF, não estamos mexendo em salários, reduzindo jornadas nem antecipando férias. Nas duas companhias, temos um total de 185 000 colaboradores, e todos que podem estão em home office. Acho que os empresários que têm uma condição mais sólida devem olhar com carinho para as pessoas. Material humano é o ativo mais importante dentro de qualquer companhia.

“Os empresários que têm uma condição mais sólida devem olhar com carinho para as pessoas. Material humano é o ativo mais importante dentro de qualquer companhia”

Isso pode ter de ser revisto no futuro caso a crise se agrave? Eu não sei se precisarei demitir. Por enquanto, não. Na verdade, no Carrefour, onde temos 85 000 pessoas, contratamos mais 5 000 para que substituam aquelas que terão de se abster de trabalhar, seja por estarem doentes, seja pelo risco de adoecerem. Já no caso da BRF, onde mais de 50% do faturamento vem da exportação, estamos aumentando a produção, então é possível que o mesmo aconteça. Essa é uma boa notícia para nós, pois a China, nosso principal cliente, está mantendo as compras. Claro, isso tudo pode mudar mais à frente, mas eu não acredito que a crise vá perdurar tanto assim.

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Como o senhor vislumbra a retomada no país? Estamos preparados e ansiosos pelo fim da crise. Quando eu estava no Grupo Pão de Açúcar, em 2008 vivenciei todo o crash da bolsa que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos. Tínhamos um dinheirinho na época. Decidimos na hora fazer caixa e mais caixa. Suspendemos investimentos e outras ações para guardar dinheiro. Você tem de saber o momento de voltar a investir. Quando o ano virou e a crise se dissipou, utilizamos esses recursos para dobrar de tamanho.

Como lidou com a queda da bolsa e a perda de valor de mercado das companhias no início da crise? Não é que eu seja sábio, sou apenas velho. Naqueles dias, fui ao oculista e ele me perguntou o que eu achava das aplicações que ele tinha feito, do mercado, essas coisas. Eu disse: calma, não mexa. Se seus investimentos eram bons, o capital vai voltar. Se eram ruins antes, continuarão agora. Eu entendo que foi desesperador para muitos, pois havia mais de 1 milhão de novatos na bolsa que viram suas economias se desvalorizar, em alguns casos, mais de 50%. Apesar da volatilidade, é evidente que, em algum momento, as ações vão voltar para o patamar anterior. Mas também faço uma recomendação: bolsa é para profissionais. Se quiser investir em renda variável, faça isso por meio de fundos de investimentos. Bolsa não é opção de curto prazo, menos ainda para amadores.

Publicado em VEJA de 6 de maio de 2020, edição nº 2685

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