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“A vida é ao vivo”, diz Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio

Para o empresário, a pandemia não freou o pendor humano por encontros, mas justo o contrário: os grandes festivais serão uma explosão de alegria

Por Sofia Cerqueira, Jana Sampaio Atualizado em 8 out 2021, 16h57 - Publicado em 8 out 2021, 06h00

Depois de mais de um ano isolado com a mulher e a filha caçula entre a casa na Barra da Tijuca e sua fazenda na região serrana do Rio de Janeiro, Roberto Medina, 74 anos, o criador do Rock in Rio, não para de fazer planos com a convicção de que, mais do que nunca, o mundo quer — e precisa — voltar a se reunir em grandes eventos. O empresário, que contraiu Covid-19 no ano passado e teve sintomas leves, penou com o confinamento. “Você pode estar na gaiola mais bonita do mundo que começa a enlouquecer. O ser humano precisa do olho no olho”, afirma. Na entrevista a VEJA, em parte por telefone e em parte na sua residência — decorada com esculturas e quadros de Dom Quixote, um deles assinado por Salvador Dalí e presente de Freddie Mercury —, Medina conta que se surpreendeu com a venda-relâmpago de ingressos para 2022, defende a obrigatoriedade da vacina e, fazendo jus à fama de sonhador convicto, planeja outro festival de música em São Paulo e criar um parque temático na Floresta da Tijuca, no Rio.

Mal havia sido liberado o primeiro lote, o Rock in Rio vendeu 200 000 ingressos em uma hora e meia e ainda deixou mais de 800 000 pessoas de mãos vazias. O público sente falta de espetáculos e alegria? Não tenho dúvidas. Não só aqui, como no mundo inteiro, existe um desejo irrefreável de voltar a se encontrar, celebrar, se abraçar e se sentir livre. Foi um recorde absoluto na área de entretenimento em todo o planeta. Cheguei a pensar que era erro do sistema.

Em algum momento pensou em cancelar o festival ou reduzir seu tamanho? Nunca. Em vez de diminuir, sempre tive em mente aumentá-lo quando fosse possível. Não parei de planejar coisas. Uma das arenas terá um show batizado de Uirapuru, como o pássaro, que será uma ode à Amazônia. Trabalho com o cenário positivo. Esse meu otimismo vem da confiança no poder universal da música, da qualidade que entrego, mas também do fato de não me afinar com o discurso do “novo normal”. O ser humano é gregário, nada substitui o encontro, e essa é a tendência para quando a pandemia passar.

Os protocolos sanitários exigirão alguma adaptação no Rock in Rio 2022? Certos hábitos, como o uso de álcool em gel e máscara, permanecerão por um bom período. Vamos aumentar a Cidade do Rock em 20% e manter o público em torno de 100 000 pessoas. Atrações que formam filas, como roda-gigante e tirolesa, ficam no cardápio, só que com estratégias de distanciamento na entrada. Fora isso, haverá mais pias para lavar as mãos e seguiremos as normas estabelecidas, que podem incluir a exigência do passaporte da vacina.

Qual sua opinião sobre esse passaporte? Sou totalmente a favor não só dele, como da obrigatoriedade da vacina. O argumento de quem diz “eu tenho a minha liberdade” é inaceitável. No momento em que uma pessoa se recusa a se vacinar, põe em risco outras vidas. Tem mais é que ser impedida de entrar nos eventos.

Os Rock in Rio deste ano tiveram de ser adiados no Brasil e em Portugal. É o maior baque da sua carreira? Olhando só o lado profissional, não. Embora existam perdas, hoje tenho uma musculatura financeira que me permite absorver esse tipo de coisa e os contratos preveem catástrofes sanitárias. Mas essa doença foi o maior tranco que já enfrentei. O vírus pôs a humanidade de joelhos.

“Sonho em ter duas pessoas no Rock in Rio. Uma é o Roberto Carlos, que tento desde 1985. Ele foge de mim, de tanto que fico em cima. Outra é Lady Gaga. Vou seguir enchendo a paciência dela”

O primeiro Rock in Rio, em 1985, foi um tremendo sucesso de público, mas o senhor disse que sabia desde o início que teria um enorme prejuízo. O rombo de agora é parecido? Nada se compara ao primeiro, quando perdi 8 milhões de dólares. Fui perseguido pelo então governador do Rio, Leonel Brizola, que achava que eu pretendia entrar para a política e, por isso, emperrou a construção da Cidade do Rock e me obrigou a destruí-la depois. Agora tenho um negócio consolidado e o que perco hoje ajusto na frente. Todos os grandes patrocinadores foram mantidos e entraram mais dois.

O senhor foi criticado por demorar a cancelar o Rock in Rio 2021. Não era inevitável, diante da explosão de casos? Estiquei mesmo, e daí? Qual a importância disso? Não havia vendido ingressos e não criei prejuízo. Sei da importância do festival, que injeta 1,7 bilhão de reais só no Rio e gera 28 000 empregos. Embora desde dezembro tudo já conspirasse contra, tinha esperança de que até lá o planeta estivesse vacinado. Não aconteceu.

Estrelas confirmadas para o ano que vem, como Dua Lipa e Demi Lovato, externaram preocupações sanitárias ou com a forma como o governo Bolsonaro conduziu a pandemia? As celebridades sabem do profissionalismo e do alcance do festival, que tem o poder de reposicionar nomes na América Latina. Bruce Dickinson, do Iron Maiden, me disse isso ao confirmar presença. Mas neste estágio as negociações são centradas nos managers e não esbarram em opiniões pessoais ou questões políticas.

Quem o senhor ainda sonha trazer para o próximo Rock in Rio? Vamos anunciar mais três nomes específicos de rock. Mas, independentemente da edição, me esforço de forma incansável para ter duas pessoas. Uma é o Roberto Carlos. Quando nos encontramos, ele chega a fugir de mim de tanto que fico em cima. A outra é Lady Gaga. Há quatro anos ela cancelou a vinda por motivos de saúde e fiquei frustrado. Nós a procuramos agora, mas não tem interesse, no momento, em turnês na América Latina. Vou continuar enchendo a paciência dela.

Ao longo de sua experiência no show business, quais estrelas lhe deram mais dor de cabeça? Já na primeira edição, aprendi na marra a lidar com pedidos esdrúxulos. O Prince exigiu 400 toalhas brancas e só usou trinta. O Elton John queria rosas com talos de exatos 14 centímetros no camarim. Mas ninguém supera o Axl Rose, que deu trabalho aqui e em Portugal. Em 1991, no Maracanã, um funcionário da equipe do Guns N’ Roses se envolveu em uma briga com uma pessoa da Rede Globo. A confusão se estendeu pelo dia inteiro e o Axl disse que só teria show quando lhe entregassem a fita com as imagens da alteração. A crise teve fim meia hora antes de ele subir ao palco: uma pessoa da banda foi à Globo e viu as imagens serem desgravadas. Em Lisboa, o Axl levou nove calças jeans iguais e cismou que só se apresentaria com a que tinha esquecido no avião. Mandamos buscar, claro.

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Sofre de alto stress nesses momentos? Agora tenho uma equipe grande e isso fica diluído, mas no primeiro Rock in Rio era tudo centralizado em mim. Acabei o festival com 15 quilos a menos. Ali vi quanto era importante me preparar para a maratona. Levo uma vida regrada, faço ginástica, nado na piscina de casa, além de não fumar e só beber uma cervejinha com os amigos. Nos dias de evento, durmo com um rivotrilzinho.

Tem fundamento o rumor de que o senhor deu palpites no marketing da campanha do candidato Jair Bolsonaro? É uma grande mentira dizer que fiz alguma coisa nesse sentido. Conversei sobre o setor de entretenimento e as necessidades do Rio com vários candidatos, inclusive ele. Tive dois encontros com Bolsonaro, esse e um almoço promovido por um amigo. Eu não vou dizer em quem votei, mas não ter feito a campanha já é uma resposta. Não me envolvo em política.

O senhor se enquadra em algum espectro ideológico? Engraçado, as pessoas acham que eu sou de direita, talvez porque eu me vista como mauricinho. Mas no campo ideológico fico no centro. Sou liberal na economia e progressista nos costumes.

Nunca pensou mesmo em entrar para a política? Nunca. Admiro a capacidade de os políticos sobreviverem naquele meio, mas não tenho estômago para suportar o nível de ofensa entre eles. Também me falta sangue-frio, sou passional. Lá atrás fiz campanhas, como a presidencial de Fernando Collor. Mas não faria de novo.

E deixar o país, passou pela sua cabeça? Em muitos momentos, mas não consigo. Vivi dez anos entre Estados Unidos, Portugal e Espanha e foi ruim, não me emocionava. Ir embora é fácil. Difícil é ficar e fazer o Brasil dar certo.

A má imagem do governo no exterior atualmente atrapalha a chegada de recursos para o setor de entretenimento? Claro que qualquer desgaste na imagem atrapalha a confiança em geral. Tenho visto a saída de empresários do país. O Brasil não é mesmo para amadores. Há uma burocracia complexa, soluços na economia, fome e desemprego. De uns tempos para cá, a esperança se foi. Voltamos a sentir o complexo de vira-lata, o que, definitivamente, não somos.

Sente falta de incentivo oficial aos setores de turismo e entretenimento? Não existe uma política pública nacional e o Rio é o maior exemplo disso. Há um calendário de eventos na cidade que poderia ser mais bem aproveitado, como fazem Nova York e Medellín. Já tive conversas com o prefeito Eduardo Paes, que se mostrou sensível à questão. Não é porque falta esparadrapo no hospital que o turismo e o entretenimento têm que ficar sem recursos.

“O ser humano precisa dos encontros e do convívio em pessoa. Tenho tanta certeza disso que estou tocando dois novos projetos. O Brasil precisa voltar a pensar grande”

Em 1990, o senhor passou dezesseis dias em um cativeiro, em poder de sequestradores. Agora experimentou um novo confinamento. Guardadas as proporções, há elementos de comparação entre essas situações? Vivi dias de terror no sequestro e depois dele, por causa das ameaças que fizeram a mim e à minha família. Agora não há essa violência, claro. Passei quase um ano e meio isolado, dividindo a rotina entre o Rio e minha fazenda. Fiz incontáveis reuniões virtuais, coisa de que não gosto. Sinto falta do olho no olho. Minha conclusão é que mesmo na gaiola mais bonita do mundo você começa a enlouquecer.

O crescimento do streaming pode afetar o jeito de as pessoas consumirem entretenimento? De forma alguma. O ser humano precisa dos encontros e do convívio em pessoa. Tenho tanta certeza disso que mergulhei em um novo projeto, um evento musical grandioso que se chamará The Town e acontecerá em São Paulo a partir de 2023. Também tenho a ideia de fazer um grande parque temático na Floresta da Tijuca, sem tirar uma única árvore. O Brasil precisa voltar a pensar grande. O Rio de hoje não se atreveria a criar o Aterro do Flamengo ou pôr o Cristo numa montanha.

Está na hora de voltar a festejar? Claro. A vida é ao vivo. As pessoas já se aglomeram no metrô, nas praias, nas ruas. Com todos os cuidados que a ciência impõe, precisamos festejar.

Publicado em VEJA de 13 de outubro de 2021, edição nº 2759

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