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Zuroff: ‘A velhice não pode proteger assassinos nazistas’

Diretor do Centro Simon Wiesenthal em Israel, Efraim Zuroff, responsável pela localização de Laszlo Csatary, fala da falta de esforço internacional para caçar nazistas. E alerta: figura do velhinho inocente não reduz a culpa de criminosos

Por Cecília Araújo - 18 jul 2012, 13h34

“O passar do tempo não diminui a culpa de criminosos, e a idade avançada não deve proteger assassinos”

Efraim Zuroff

O criminoso de guerra nazista mais procurado do mundo, o húngaro Laszlo Csatary, de 97 anos, foi finalmente preso nesta quarta-feira. Csatary era o chefe de polícia do gueto judeu da cidade eslovaca de Kosice, no qual 15.700 judeus foram assassinados ou levados ao campo de extermínio de Auschwitz, e passou os últimos 17 anos vivendo tranquilamente em Budapeste, na Hungria. Seu paradeiro foi descoberto há 10 meses pelo Centro Simon Wiesenthal, que luta contra a impunidade dos perpetradores do Holocausto. No último domingo, a entidade revelou ao mundo onde o nazista se escondia – e a prisão dele foi efetuada três dias depois. O diretor da entidade em Israel, Efraim Zuroff, principal responsável pela descoberta do paradeiro do nazista húngaro, falou ao site de VEJA sobre o processo de busca e investigação que levou à captura de Csatary. E reclamou da demora da polícia para capturar o criminoso de guerra.

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Por quanto tempo esperaram por este momento? Descobrimos há 10 meses que Csatary estava vivo e morando em Budapeste. Tínhamos inclusive o endereço dele.

E por que levou tanto tempo para que ele fosse localizado e preso? Simplesmente porque não há esforço suficiente para tentar encontrar esses criminosos. Muitos anos se passaram, e eles já estão muito idosos. Além disso, muitos países não querem lidar com essa questão ou passar pelo constrangimento de ter um nazista vivendo tranquilamente em seu território. Não é algo agradável.

Criminoso nazista Laszlo Csatary é detido em Budapeste Criminoso nazista Laszlo Csatary é detido em Budapeste

Criminoso nazista Laszlo Csatary é detido em Budapeste /

Acredita que Csatary enfrentará a Justiça húngara? Esperamos que sim. O primeiro passo já foi dado. E os promotores definitivamente possuem evidências suficientes contra ele para condená-lo.

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Muitas pessoas acham que ele está velho demais para ser julgado. O passar do tempo não diminui a culpa de criminosos, e a idade avançada não deve proteger assassinos. A imagem de um velhinho dá a impressão de que ele seja fraco. Mas essa mesma pessoa, no ápice de seu poder físico, usou sua energia e força para matar inocentes, entre eles mulheres e crianças. É o último ser humano no mundo que merece simpatia.

E qual é a importância desse julgamento? As vítimas dos nazistas merecem que criminosos como Csatary sejam identificados e paguem pelo que fizeram de alguma forma. Os julgamentos, mesmo tardios, também são importantes para combater o discurso daqueles que negam o Holocausto.

Esta seria uma vitória do Centro Simon Wiesenthal? Sem dúvida, é uma vitória tremenda para o Centro e para mim pessoalmente. Fui eu quem fez a maior parte das investigações sobre Ladislaus Csatary. A polícia húngara apenas o prendeu. E não é a primeira vez que ajudo a encontrar criminosos de guerra nazistas.

Vocês possuem informantes pelo mundo para ajudar nessa busca? O Centro Simon Wiesenthal oferece dinheiro em troca de informações, e essa oferta é aberta a qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo. Se alguém nos entrega dados que levam à prisão e ao julgamento desses criminosos, ele será pago por isso.

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Alguma vez vocês receberam alguma informação relacionada ao Brasil? Sim, recentemente recebemos uma informação interessante vinda do Brasil, que poderia levar à descoberta de uma rede nazista no país. Por fim, descobrimos que o informante estava equivocado, o que é normal. Mas não descartamos que haja criminosos nazistas vivendo no Brasil.

O Centro Simon Wiesenthal recebe ajuda da Interpol, por exemplo? Não, nossa atuação é independente. Após as investigações, muitas vezes faço contato com a polícia do local em que se encontra o suspeito. Em outras vezes, eu mesmo vou até a cidade para conferir a informação. Depende da situação.

No caso de Ladislaus Csatary, o senhor teve ajuda da polícia de Budapeste? Ajuda? Esperei 10 meses para que o prendessem…

Os governos geralmente colaboram com suas investigações? Cada governo age de uma forma, mas pouquíssimos nos ajudam de fato. Isso que eu faço deveria ser o trabalho deles.

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Confira a lista atualizada dos nazistas mais procurados:

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