Virou palanque: em uma eleição polarizada, candidatos disputam a cadeira de secretário-geral da ONU
O escolhido terá o duro desafio de fazer o órgão ganhar relevo
Com oito décadas de vida, a Organização das Nações Unidas (ONU) já foi mais organizada e, certamente, mais unida. Quando emergiu, em um mundo no qual a ferida aberta pela II Guerra latejava, a ideia era que a instituição que ajudou a fincar no mapa-múndi o conceito de multilateralismo promovesse a paz. E assim foi por muito tempo, até o derretimento da União Soviética e os sacolejos que vieram depois, desembocando em uma lógica cada vez mais unilateral, exacerbada agora pela presença de Donald Trump na Casa Branca. O resultado é a flagrante irrelevância do órgão diante de esticadas batalhas que o petit comité permanente do Conselho de Segurança — Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido —, sempre em desalinho, não consegue frear. Soma-se ao caldeirão uma crise financeira que levou ao enxugamento do quadro e ao empalidecimento de agências antes vistosas, e o que sobrou foi uma estrutura que exige um profundo ajuste para funcionar sob novos ventos.
É nessa desafiante paisagem que se desenrola o processo para suceder ao diplomata português António Guterres na cadeira de secretário-geral da ONU. Na quinta-feira 23, os candidatos subiram ao palco da Assembleia Geral, em Nova York, para o último grande ato de uma disputa que, transmitida pela TV, tomou contornos de show como nunca se viu. No páreo estão um africano e cinco latino-americanos que travam um debate marcado, também ali, pela polarização. Os protagonistas são a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, que já foi alta-comissária de direitos humanos e é apoiada à esquerda por governos como o de Brasil e México, e o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), indicado por seu conterrâneo, o presidente Javier Milei, e respaldado por outros à direita. “A ONU foi dominada pelo wokismo diplomático. Quero que volte a resolver conflitos”, disse Grossi a VEJA. Já Bachelet defendeu no derradeiro embate que “chegou a hora de uma mulher” ascender pela primeira vez ao topo da instituição.
Finda a etapa dos holofotes, as costuras seguem a toda nas salas à prova de som do Conselho de Segurança, onde os cinco membros permanentes e os dez rotativos jogam um xadrez em que as peças vão sendo eliminadas, até que um aspirante ao cargo sobreviva sem vetos no fim de outubro. E dá-lhe lobby para emplacar o número 1 da instituição que, embora enfraquecida, ainda é um picadeiro que dá visibilidade e influência geopolítica. A seu favor, Grossi conta com a cadeira-maior na AIEA e acesso às rodas do poder. “Sou um dos únicos que fala tanto com Vladimir Putin quanto com Volodymyr Zelensky”, garante ele, no meio das tratativas sobre os rumos do programa nuclear iraniano, ponto central na guerra que se arrasta no Oriente Médio.
Os movimentos atrás das pesadas cortinas dão contornos a uma escolha em que as rachaduras mundo afora vêm à baila. A Rússia teria ficado exasperada ao saber que Grossi tem ligações com a inimiga Europa (é neto de italianos e possui até passaporte), e o Reino Unido quer garantias de que as Malvinas, ilhas sob domínio britânico no alvo de uma queda de braço com a Argentina, não virão à pauta. Do outro lado do ringue, Bachelet sofre aberta resistência de Washington — senadores republicanos já lhe dedicaram palavras nada amáveis (“lunática pró-aborto”, entre elas). Como se não bastasse, ela se indispôs com Pequim nos tempos de alto-comissariado, assinando um relatório sobre crimes contra a minoria islâmica dos uigures que os chineses não esquecem.
Em um cenário pouco provável de nenhum dos postulantes sobreviver à peneira, como já ocorreu, outros podem entrar na corrida — brecha que fez com que Trump lançasse o nome, só para chamar atenção, do cartolão Gianni Infantino, o presidente da Fifa, com quem troca amabilidades. Seja quem for assumir a cadeira em 1º de janeiro de 2027, terá a dura missão de dar ali uma guinada. A grande crítica a Guterres é de que despendeu energia demais com questões de gênero e do clima, enquanto se esquivou dos conflitos armados sem encarar os anacronismos que hoje roubam o palco da instituição. “Se ninguém injetar vitalidade no órgão, as relações internacionais ficarão cada vez mais fragmentadas”, avalia a especialista Suzanne Nossel. Como se vê, o desfecho da eleição será apenas o início do teste para ver se a ONU deixa de ser um relicário de boas intenções e consegue, enfim, virar a página para o século XXI.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







