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Violência e pobreza: desafios do governo do PRI no México, segundo analistas

A violência no México desencadeada pela guerra contra o narcotráfico e o aumento da pobreza serão os principais desafios que o PRI enfrentará em seu retorno ao poder com Enrique Peña Nieto, que proclamou sua vitória no domingo, segundo os analistas consultados pela AFP.

“O desafio mais importante é reconstituir as condições de paz social nas zonas mais afetadas pela violência no México”, afirmou Javier Oliva, especialista em segurança da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), referindo-se ao muito possível futuro governo de Peña Nieto.

O candidato do Partido da Revolução Institucional (PRI) proclamou-se vencedor da eleição presidencial de domingo, depois que o Instituto Federal Eleitoral informou que obteve ao menos 37,93% dos votos, segundo um balanço preliminar.

A reconstrução da paz “não pode levar muito tempo, há analistas que afirmam que pode ser um projeto de um ou dois anos, mas acredito que não pode ser nem mesmo de um ano”, acrescentou Oliva.

O México vive uma onda de violência que deixou mais de 50 mil mortos desde que o governo do presidente Felipe Calderón lançou em dezembro de 2006 uma ofensiva contra os cartéis da droga com o exército.

Para Nicolás Lazo, especialista da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), o atual governo, do conservador Ação Nacional (PAN), “causou um enorme impacto na estratégia de combate ao crime organizado”.

“Neste momento, o que está na memória pública são os mais de 50 mil mortos deixados por esta estratégia. O principal desafio que o novo presidente tem é como vai assumir o combate ao narcotráfico. Se vai redefinir, apenas modificar a estratégia antidrogas ou fazer uma mudança radical”, disse.

Peña Nieto, após o resultado do IFE, que lhe concede a vitória, segundo uma amostra representativa de mesas de votação, anunciou imediatamente que “diante do crime organizado não haverá nem pacto nem trégua”.

Em uma primeira mensagem na sede de seu partido, acrescentou que “a luta contra o crime vai seguir com uma nova estratégia para reduzir a violência e proteger principalmente a vida dos mexicanos”.

No entanto, alguns analistas concordam com as acusações feitas pelos rivais do PRI de que pode cair na tentação de negociar com o crime organizado.

“Tem aí um problema muito grave e um olhar muito atento de todos” pelas acusações de que no passado o PRI negociou com o narcotráfico, considerou Carlos Gallego, professor de pós-graduação de Análises de Conjuntura da UNAM.

Este analista acredita que seguir a linha marcada pelo general colombiano Oscar Naranjo, anunciado por Peña Nieto como assessor em segurança se vencesse a eleição, “com o histórico repressivo de falsos positivos que tem, tensionará muito mais as coisas”.

“O que vão buscar serão negociações locais com o narcotráfico e tranquilizar as coisas”, disse.

A mesma opinião é compartilhada por Howard Campbell, especialista no México e no combate ao narcotráfico da Universidade do Texas em El Paso (sul dos Estados Unidos, fronteira com México).

“Realmente penso que o PRI é bom em encontrar formas de resolver os problemas por fora dos canais políticos. É muito mais capaz de resolver este tipo de problemas intratáveis” negociando com os cartéis da droga, sustentou.

No entanto, afirmou que esta negociação exclui o Los Zetas, o sanguinário cartel formado por militares desertores que domina boa parte do leste do país: “Los Zetas são intratáveis. Têm que ser derrotados”.

O outro grande problema que deverá ser abordado pelo novo governo é o da pobreza.

Lazo opinou que o novo Executivo “deve aprofundar” as políticas contra a pobreza “porque é um ponto crucial”.

De acordo com os números oficiais, metade dos 112 milhões de mexicanos vive na pobreza, mas Gallego aumenta esta porcentagem a 70%, com base em um estudo de Julio Boltvinik, especialista do Colégio do México.

Por isso, Peña Nieto “terá que se sentar para negociar com todos uma reforma fiscal que exige” e esclarecer se vai ceder a empresas privadas parcelas de operação da estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), que fornece 30% do orçamento do governo.

“Como vai substituir o que a Penex fornece ao orçamento federal? É um problema muito sério, sobretudo pelas condições da economia, em uma situação que não é precisamente a mais fácil para a economia mundial”, disse.

Às reformas estruturais relativas à Pemex, Lazo acrescentou as relacionadas aos monopólios estatais privados, como os das duas grandes redes de televisão que controlam o mercado audiovisual do país, Televisa e TV Azteca.