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Vinte anos depois, Rússia vive sob ameaça do autoritarismo. Mas capitalismo veio para ficar

Confira reportagem especial sobre as contradições da ex-república soviética publicada originalmente em VEJA de 9 de novembro

Por Diogo Schelp 11 dez 2011, 15h42

Em um café próximo da estação de metrô Kropotkinskaya, Alyona Frizen, uma estudante de linguística da Universidade Estatal de Moscou, fala medindo as palavras para valorizar bem o paradoxo contido nelas: ”O que eu mais amo no meu país é a liberdade. O que eu mais odeio é a falta de liberdade”. Alyona, de 22 anos, faz parte da primeira geração de adultos russos sem nenhuma memória pessoal do período em que sua pátria era o centro de um arranjo imperial totalitário, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No próximo dia 25 de dezembro, comemoram-se os vinte anos da dissolução da União Soviética. Naquela noite de inverno de 1991, Mikhail Gorbachev, o derradeiro líder do regime, renunciou ao seu cargo no Kremlin, enquanto os alicerces da economia planificada que ele tentou reformar com a perestroika (reestruturação) se desmanchavam sob os pés da população depauperada e faminta. A extinção da URSS selou a vitória ideológica, moral e material do capitalismo sobre o comunismo, além de libertar os russos de um dos regimes mais opressores da história.

A Rússia não está preparando nenhuma grande celebração para a data, como o fez a Alemanha por ocasião dos vinte anos da queda do Muro de Berlim, em 1989, considerada a primeira etapa do fim da Guerra Fria. Jovens de classe média como Alyona demonstram escasso, se é que algum, entusiasmo com a efeméride, apesar de entenderem que se ainda vivessem sob a ditadura soviética não teriam liberdade para viajar, para consumir, para abrir um negócio, para ler qualquer livro ou mesmo para se divertir como preferem – ou seja, para fazer tudo o que mais amam. A percepção de que não há nada a comemorar tem a ver com o fato de que uma vital conquista pós-1991, o direito de escolher os governantes em um processo limpo e justo, lhes foi roubada. Daí a falta de liberdade que a estudante de linguística e muitos outros de sua geração tanto detestam.

Nos próximos meses, haverá eleições parlamentares (4 de dezembro) e presidenciais (março do ano que vem). Não há cartazes nem faixas com propaganda de candidatos em parte alguma da capital. Por que haveria, se mais da metade dos eleitores, segundo as pesquisas, acham que os resultados já estão definidos pelo governo? No pleito do mês que vem, 60% das cadeiras devem ficar com o Rússia Unida, partido controlado pelo primeiro-ministro Vladimir Putin. O restante vai para partidos aliados ou para pseudolegendas de oposição, cujo papel é dar um verniz democrático aos debates legislativos.

Na eleição para presidente, todos assumem como óbvio que Putin será o escolhido, e essa certeza é a maior fonte de indignação da classe média esclarecida. Putin já foi presidente entre 1999 e 2008. Como não podia tentar uma segunda reeleição consecutiva, ele anunciou Dimitri Medvedev, o atual presidente, como seu candidato no pleito passado e, em troca, recebeu o posto de primeiro-ministro. De lá para cá, Putin preparou o terreno para voltar à Presidência sem percalços e com poderes redobrados. Entre outras medidas, estendeu o mandato presidencial de quatro para seis anos, com direito a reeleição. Putin, portanto, poderá empoleirar-se por mais doze anos no cargo. Isso significa que, se ficar até 2024, como lhe permite a lei, será um dos governantes russos mais longevos desde o fim da monarquia, em 1917, perdendo apenas para o líder soviético Josef Stalin, o ditador que ordenou a morte de dezenas de milhões de pessoas. Putin terá, então, 72 anos, e nas conversas reservadas as pessoas discutem animadamente se ele será um novo Leonid Brejnev, o secretário-geral do Partido Comunista que, apesar de decrépito, só foi apeado do poder pela morte, aos 75 anos.

Na capital russa, a modernidade dos arranha-céus envidraçados
Na capital russa, a modernidade dos arranha-céus envidraçados VEJA

Com sua ironia peculiar, os moscovitas costumam perguntar aos amigos: ”Em quem você vai votar? Em Putin ou em Putin?”. Ao que muitos respondem: ”Estou cansado de ambos, por isso vou votar em Putin”. O todo-poderoso premiê russo não deixou muitas opções aos eleitores. Para eliminar a concorrência, ele negou o registro de partidos de oposição e tirou do caminho os candidatos mais fortes. Para garantir a farsa eleitoral, tolera apenas aqueles sem possibilidade de vencê-lo, como o comunista Gennady Zyuganov, o segundo colocado nas pesquisas, com míseros 10% dos votos. Em setembro passado, Putin abateu em plena decolagem as ambições políticas do único homem capaz de incomodá-lo nas urnas, o bilionário do setor de minérios Mikhail Prokhorov – que, para fazer jus à tradição dos oligarcas russos, é dono de um time de basquete nos Estados Unidos, em sociedade com o rapper Jay-Z. Primeiro, a polícia fez uma blitz em busca de documentos comprometedores em um banco do qual Prokhorov é sócio. Em seguida, Putin infiltrou falsos militantes na convenção do partido do empresário, Causa Justa, garantindo assim quórum para a deposição de Prokhorov da liderança da legenda. Com isso, ele desistiu da candidatura à Presidência. Em um encontro com a reportagem de VEJA em um restaurante armênio decorado com armaduras medievais, o magnata negou-se a falar sobre política. ”Depois da intimidação que sofreu, Prokhorov está com medo de ser visto com jornalistas”, explica seu amigo Boris Nemtsov. Faz sentido. O último oligarca a bater de frente com Putin, Mikhail Khodorkovsky, está preso desde 2003 e assim continuará por mais seis anos, condenado por fraude, sonegação e lavagem de dinheiro em um processo de cartas marcadas.

Os russos não simpatizam com seus magnatas, símbolo de enriquecimento suspeito, mas tampouco gostam de ver governantes e burocratas abusando do poder para fazer acertos de contas pessoais. Em Moscou, Mercedes-Benz e BMWs pretas dominam as ruas com sirenes e sinalizadores azuis no teto, violando as leis de trânsito. São carros de altos funcionários do estado exibindo o poder de trafegar acima da manada. Os moscovitas ironizam esses intocáveis fixando garrafões azuis de água mineral vazios no teto de seus carros populares.

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A perseguição de opositores não basta para explicar o monopólio de poder nas mãos de Putin. Afinal, 42% dos russos pretendem votar nele para presidente. Em Moscou, onde vive a parcela mais rica da sociedade, apenas 23% dos eleitores declaram que votarão no primeiro-ministro. Sua popularidade é alta nas regiões mais pobres, onde a sobrevivência depende do apoio paternalista do estado, com medidas como o aumento do valor das aposentadorias (41% desde 2008) e a criação de empregos públicos (o número de vagas cresceu 80% desde o primeiro governo Putin). O problema é o impacto desse sistema de compra de votos nas finanças nacionais. Como a economia russa é dependente dos combustíveis fósseis, que respondem por 60% das exportações, o orçamento federal é elaborado com base em uma previsão de custo do barril de petróleo. Para poder gastar mais, o governo tem apostado na manutenção do alto preço, o que pode resultar em um rombo nas suas contas.

Desde os tempos soviéticos, a popularidade do dirigente encastelado no Kremlin é diretamente proporcional ao preço dos combustíveis fósseis. Daniel Treisman, da Universidade da Califórnia, um dos maiores especialistas em política russa, defende a tese de que, mais do que a insatisfação com a natureza repressora e com a ineficiência do regime, o que precipitou a queda da União Soviética foi a redução de 50% no preço do petróleo entre 1980 e 1989, somada às decisões econômicas desastradas tomadas por Gorbachev. O último líder soviético estava disposto a amenizar o regime e, com o intuito de diminuir os gastos militares, desacelerar a corrida armamentista com os Estados Unidos. Mas seu plano para reestruturar a economia não era suficiente para sanar um sistema em que até as vacas russas produziam menos da metade de leite em comparação com as americanas. A relutância em fazer reformas profundas terminou derrubando o padrão de vida da população. Boris Ieltsin, presidente durante a década de 90, tentou fazer a transição para o capitalismo, mas seu governo, o mais democrático que a Rússia já teve, coincidiu com um período de baixa no preço do petróleo.

Quem mais se beneficiou com as reformas de Ieltsin foram alguns burocratas bem posicionados que compraram estatais a preço de banana e fizeram de Moscou a cidade com o maior número de bilionários do mundo. Essa peculiaridade, somada ao gosto por ostentação dos ”novos russos”, como são chamados os novos ricos do país, explica a alta concentração de carros de luxo no trânsito da capital e de mulheres com casaco de pele e bolsa Chanel fazendo compras em lojas de rua. Há também mendigos, como em qualquer grande metrópole do Ocidente, mas são poucos – até porque dificilmente um morador de rua seria capaz de sobreviver ao inverno de 20 graus negativos – e observados com curiosidade pelos moscovitas.

Os russos só recuperaram em 2003 o nível de vida que desfrutavam em 1990, em grande parte porque o preço do petróleo no início dos anos 2000 quadruplicou em relação ao valor médio da década de 90. Putin, portanto, teve a sorte de chegar ao poder quando o preço do petróleo estava em ascensão. A decepção com as reformas dos anos 90 fez surgir entre os russos dois fenômenos nada contraditórios: a nostalgia em relação aos tempos soviéticos, quando tudo era mais fácil, ainda que limitado, e o apego a um líder forte, fiador da estabilidade. Por isso, Putin, visto como o herói da recuperação econômica, também explora o sentimento de nostalgia: uma de suas medidas mais populares foi reinstituir o hino soviético como a música oficial do país, com nova letra.

Militar caminha no centro de Moscou: a Rússia ainda detém o maior arsenal nuclear do mundo
Militar caminha no centro de Moscou: a Rússia ainda detém o maior arsenal nuclear do mundo VEJA

Os tecnocratas a serviço do Kremlin sabem que para Putin poder governar tranquilamente pelos próximos doze anos é necessário reduzir a dependência da Rússia em relação ao petróleo e ao gás. Para isso, seria preciso atrair investimento estrangeiro em outras áreas. O contrário tem ocorrido. Só nos últimos dezoito meses, 65 bilhões de dólares saíram do país. Parte desse capital pertence a milionários ou bilionários que se sentem inseguros sob um sistema político que exige fidelidade absoluta dos empresários. Outra parte é dinheiro que está sendo retirado do país por empresas incapazes de se adaptar ao pesado achaque de mafiosos e burocratas corruptos. Um empresário moscovita do setor de computação disse a VEJA que para fazer negócio com o governo é preciso pagar, sobre o valor do contrato, entre 15% e 75% de propina a burocratas. No ranking da Transparência Internacional, organização que mede a percepção da corrupção em 178 países, a Rússia ocupa a 154ª posição – muito pior do que o Brasil, por exemplo, na 69ª colocação. ”É preciso estar conectado com o poder para fazer negócio em nosso país”, reconhece Sergey Vasilyev, vice-presidente do Vnesheconombank, um banco estatal de desenvolvimento inspirado no BNDES brasileiro e cuja sede de estrutura impecável tem detectores de metais que parecem as cápsulas de teletransporte dos filmes de ficção científica. ”O governo quer facilitar a vida dos investidores, mas pouco tem feito porque é muito difícil desmontar a estrutura burocrática sobre a qual está apoiado”, diz Vasilyev.

Uma pessoa que não sabe o que está fazendo é definida em russo como alguém ”sem um czar na cabeça”. A expressão ilustra um estereótipo nacional: o da obediência e afeição a governantes autoritários e paternalistas, que desfilam pela história da Rússia desde o século XVI, com a coroação do primeiro czar. Atualmente, quem não aceita se enquadrar nesse clichê tem sempre pelo menos uma das seguintes palavras na ponta da língua: estagnação ou emigração. A primeira tem sido usada com frequência para se referir ao estado atual da política. ”Uma das consequências da sensação de estagnação, de estreitamento do horizonte político, é o desejo de emigrar”, diz Lev Gudkov, diretor do Levada, o mais respeitado instituto de pesquisas de opinião do país. Nos anos finais da União Soviética, 15% da população queria sair do país definitivamente.

Hoje, a proporção é de 22%. Entre os cidadãos de classe média, a desilusão com o futuro é ainda maior: um em cada três gostaria de emigrar. Uma nação cuja população está encolhendo a uma taxa de 1,5 milhão de pessoas por ano, como consequência da baixa taxa de natalidade, não pode se dar ao luxo de perder seus cidadãos mais qualificados e empreendedores. Anton Tchekov (1860-1904), nascido um ano antes da abolição da servidão na Rússia czarista, escreveu que precisava espremer gota a gota a mentalidade de escravo de seu sangue para amadurecer como indivíduo. Duas décadas após o fim da União Soviética, a Rússia vive uma retomada do autoritarismo na política. Se estivesse vivo, o escritor ainda precisaria sangrar para se sentir livre.

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