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Ventos da mudança: Cúpula do Clima une países em torno da economia verde

Reunião virtual apressa as metas para conter o aquecimento global. O Brasil, por enquanto, é só promessas

Por Ernesto Neves Atualizado em 23 abr 2021, 18h37 - Publicado em 22 abr 2021, 20h59

Quem faz pouco da “pirralha” Greta Thunberg, como a descreveu Jair Bolsonaro, ainda não entendeu o espírito dos novos tempos: a luta pela defesa do meio ambiente e contra o aquecimento global, causa defendida com paixão pela jovem ativista sueca, saltou da vala das questões laterais para a pista central dos rumos do planeta. Encostados na parede pelos prejuízos que o desleixo ambiental acarreta, governos e indústrias, até pouco tempo atrás os vilões dos ecologistas, deram meia volta e abriram os braços para a sustentabilidade, com a convicção de que o progresso econômico planetário está enlaçado com a prevenção de um desastre ecológico. A percepção geral é que, se o esforço não for global, a estratégia desanda — mote que levou o presidente americano Joe Biden a promover a Cúpula de Líderes sobre Clima, uma reunião virtual em que quarenta chefes de Estado, Bolsonaro inclusive, foram convocados a expor suas armas contra as mudanças climáticas. “Os sinais são inconfundíveis, a ciência é inegável e o custo da inércia só faz subir”, disse Biden na abertura. Dos países presentes, 39 expuseram rotas mais ou menos definidas para o futuro verde. O Brasil fez algumas importantes promessas, mas ainda pairam muitas dúvidas sobre a real intenção do governo em cumpri-­las.

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Como a reversão das catástrofes climáticas passa pela preservação e ampliação da cobertura florestal — capaz de absorver parte das emissões de dióxido de carbono (CO2), o maior responsável pelo aquecimento global — e como o Brasil vem tirando péssimas notas na proteção da maior delas, a Floresta Amazônica, o país esteve no centro do palco do encontro. Em seu discurso na quinta-feira 22, Bolsonaro destacou os feitos do país na defesa do meio ambiente — todos obtidos em governos anteriores, diga-se — e reforçou o que vem sendo repetido em encontros privados e encarado com ceticismo geral: que o plano do Brasil para a Amazônia visa a melhorar a qualidade de vida local com adequada “governança da terra” (tradução: exploração econômica da floresta) e que tanto essa ocupação planejada quanto a implementação de novos controles, com orçamento dobrado para a fiscalização, vão acabar com o desmatamento até 2030 — desde que o resto do mundo coopere. “É preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta”, declarou o presidente brasileiro na fala de três minutos.

NO PALCO - Bolsonaro e equipe ouvem Biden na TV: mudança de tom -
NO PALCO - Bolsonaro e equipe ouvem Biden na TV: mudança de tom – Marcos Corrêa/PR

Apesar do tom bem mais conciliador do que o de Bolsonaro da era Trump, o discurso perpetuou o impasse que empaca o Brasil na beira do caminho para o celebrado capitalismo verde. A Amazônia dos sonhos do governo requer ajuda financeira de fora — 1 bilhão de dólares imediatamente, na conta do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Estados Unidos e outros países respondem que até podem contribuir, mas o governo tem de dar o primeiro passo e apresentar resultados mensuráveis. No momento, nosso cartaz lá fora está em baixa. Em carta dirigida a Biden, celebridades como Leonardo DiCaprio, Katy Perry, Jane Fonda, Caetano Veloso e Gilberto Gil pedem que ele não assine nenhum acordo com Bolsonaro enquanto o desmatamento não diminuir. Um grupo de senadores democratas fez o mesmo apelo.

Como tudo o que envolve sustentabilidade hoje em dia, a má gestão do atual governo brasileiro está doendo no bolso: governos, entidades e investidores cada vez mais condicionam recursos ao Brasil a uma virada de mentalidade, que é demasiadamente lenta, para não dizer estagnada. Salles inclusive baixou uma portaria dificultando a já precária fiscalização da exploração ilegal da floresta, alegando que os critérios são injustos. “Tem de trazer a pessoa para a legalidade, mas, se você tem uma regra que joga todo mundo para a ilegalidade, como vai cobrar depois?”, disse ele a VEJA. Outra proposta do ministro é, em troca dos famosos 1 bilhão de dólares, reduzir em 40% o desmatamento na Amazônia em doze meses. Parece interessante, mas, na prática, continuaria bem acima de dois anos atrás — isso depois de março ter sido o mês com o maior desmatamento em dez anos.

COMPROMISSO - Poluição em Pequim: o campeão de emissões de CO2 diz haver embarcado na economia sustentável -
COMPROMISSO - Poluição em Pequim: o campeão de emissões de CO2 diz haver embarcado na economia sustentável – Kevin Frayer/Getty Images

Trata-se de um descomunal retrocesso para o país que, há três décadas, sediou a Rio-92, em que chefes de Estado do mundo inteiro convergiram para o Rio de Janeiro para discutir ecologia. De ação em ação, entre 2004 e 2011 o desmatamento diminuiu 77%, graças ao reforço da fiscalização e ao emprego de satélites no mapeamento de queimadas. A boa performance deu lugar a altos e baixos no governo Dilma e descambou de vez na gestão Bolsonaro. “A reversão das políticas ambientais pelo atual governo fez o país perder espaço na geopolítica e na diplomacia internacionais, com o consequente fechamento de mercados e fuga de investimentos”, afirma Mario Monzoni, coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV. Na falta de ação efetiva do governo federal, desvios vêm sendo tomados. Em outra carta a Biden, 24 dos 27 governadores disseram estar empenhados em combater o que chamaram de “emergência climática global”. Reunidos na recém-criada Concertação da Amazônia, 300 notáveis do mundo empresarial e financeiro e da sociedade civil articulam ações de proteção da floresta junto às comunidades locais e a governos estrangeiros. Na mesma linha, presidentes de grandes conglomerados assinaram um documento listando medidas e acordos paralelos que têm firmado para prevenir o isolamento do país na questão do clima.

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Enquanto o Brasil oficial anda para trás, o resto do mundo avança, puxado pelos Estados Unidos, numa virada exemplar após o fim do governo de Donald Trump, que reverteu normas e controles e firmou o país no segundo lugar entre os maiores poluidores, só atrás da China (veja o quadro). Afinal, o capitalismo verde promete: segundo estudos da ONU, se posta em prática já, a redução do efeito estufa tem potencial para gerar um ciclo de progresso capaz de injetar mais 26 trilhões de dólares — um PIB americano — na economia global até 2030. Como era de se esperar no ano em que o mundo parou, a emissão global de CO2 teve em 2020 um recuo incomum: menos 5,8%. O respiro acabou. Para 2021, a expectativa é que suba 5%. Ironicamente, é o caminhão de dinheiro despejado em planos de recuperação que alimentará a alta — e é para rebater esse impacto que os países agora se articulam.

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SEM DEMORA - Painéis solares do Google: a empresa já usa só energia limpa para abastecer as salas com computadores -
SEM DEMORA - Painéis solares do Google: a empresa já usa só energia limpa para abastecer as salas com computadores – Mark Boster/Los Angeles Times/Getty Images

A intenção de Biden é chegar à conferência sobre clima da ONU em Glasgow, na Escócia, em novembro, como o comandante de uma cruzada em favor da sustentabilidade. Seu primeiro pacote de investimentos prevê a injeção de 2 trilhões de dólares na transição da economia americana para o “baixo carbono” — o Green New Deal, referência ao programa de Franklin Roosevelt durante a Grande Depressão, dos anos 1930. “É uma mudança com potencial de restaurar a indústria americana e gerar mais de 7 milhões de empregos de qualidade”, afirma o economista Robert Scott, do Economic Policy Institute (EPI).

O projeto tem cacife para transformar o modo de produção tal qual o conhecemos, bem como a paisagem das cidades. O primeiro ataque é no setor de energia, para o qual Biden prevê iniciativas ambiciosas, como a construção de uma rede de turbinas eólicas no mar, na costa entre Nova York e Nova Jersey, que terá duas vezes mais capacidade que Itaipu. No setor automobilístico, vilão da atmosfera limpa, quase 200 bilhões de dólares destinam-se a aposentar os carros a gasolina e diesel, deslanchar o uso dos elétricos e quintuplicar a atual rede de 100 000 pontos de recarga. As montadoras, compreensivelmente, se digladiam para ser as primeiras na corrida. A GM chegará a 2025 com trinta modelos elétricos e a Volkswagen pretende liderar o mercado até o fim da década. “A transformação vai ser mais intensa do que qualquer coisa que se viu no último século”, garante Herbert Diess, presidente da Volks.

INOVAÇÃO - O CopenHill, em Copenhague: energia não poluente e pista de esqui -
INOVAÇÃO - O CopenHill, em Copenhague: energia não poluente e pista de esqui – Max Mestour/.

Aposentar o motor a gasolina já é realidade na Noruega — justamente um dos maiores produtores de petróleo do mundo —, onde 80% dos carros vendidos anualmente são elétricos. No Brasil, sem estímulos do governo, pipocam projetos bancados pela iniciativa privada. Um deles é o Colossus Cluster Minas Gerais, parque industrial a ser construído próximo ao aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, reunindo oito empresas do Vale do Silício. Com investimentos de 25 bilhões de reais e inauguração prevista para 2023, o complexo produzirá baterias e até 23 000 veículos elétricos por ano. “O país é rico em recursos como lítio e biomassa, fundamentais para a economia de baixo carbono”, diz Eduardo Muñoz, presidente da Bravo Motor Company, responsável pelo empreendimento.

Clientes não faltarão: pesquisa da consultoria McKinsey mostrou que os brasileiros são os que mais desejam ter carro elétrico no mundo. No ano passado foram emplacadas quase 20 000 unidades do tipo, um salto de 66% em comparação com 2019, e a expectativa é que até 2030 a frota chegue a 1,5 milhão de unidades. Prédios em São Paulo já estão sendo construídos com garagens preparadas para os veículos elétricos. Outro investimento de peso da indústria na sustentabilidade é a expansão de energia eólica, deslanchada pela ausência de chuvas que secou represas e provocou o apagão de 2001. O vento provê 10% da matriz energética nacional, com 8 300 turbinas girando em 695 parques, e a capacidade instalada deve aumentar 35% até 2024.

FERIDA - Área desmatada na Amazônia: o mundo exige que o governo resolva o problema já -
FERIDA – Área desmatada na Amazônia: o mundo exige que o governo resolva o problema já – Carlos Fabal/AFP

No limiar dessa nova era de desenvolvimento com redução de impactos ambientais, 140 países, ou 70% da economia global, têm como meta alcançar a emissão zero de carbono até 2050; a China diz que o fará em 2060 (essa também era a meta do Brasil, antecipada em dez anos por Bolsonaro em seu discurso). É compromisso essencial — sem isso não se conterá o aquecimento global em 1,5 grau Celsius, como determina o Acordo de Paris, do qual todos são signatários. No contexto da Cúpula dos Líderes, Estados Unidos e União Europeia foram além: prometeram baixar pela metade suas emissões de CO2 até o fim desta década. São objetivos de difícil execução, vistos com ceticismo por muitos especialistas, mas sua mera existência comprova a preocupação com a altíssima conta das mudanças climáticas. Em 2020, os americanos gastaram 2,3 bilhões de dólares para combater incêndios florestais, dez vezes mais que em 1985. No caso dos furacões, o custo passou de 20 bilhões de dólares, outro recorde histórico. “Não há dúvidas de que a fatura chegou”, diz Michael Wara, pesquisador de políticas de energia e clima da Universidade Stanford.

Injetar sangue verde no capitalismo é conceito que se espalha, para usar comparação de nossos dias, como uma benéfica epidemia. Dentro do pacote de estímulos de mais de 800 bilhões de dólares aprovado pela UE para recuperar economias, 25% serão aplicados em projetos de contenção do aquecimento global — replicando, por exemplo, o CopenHill, em Copenhague, prédio inteiramente sustentável que aloja uma usina transformadora de lixo orgânico em energia e, no telhado, uma pista de esqui na grama. Do outro lado do mundo, cerca de 1 000 investidores, executivos e membros de governos do Oriente Médio se reuniram em Dubai para discutir a diversificação das economias árabes dependentes do petróleo. Na outra ponta, quem não fizer a lição de casa vai perder dinheiro. Criado para lidar com o problema, o Grupo de Investidores Institucionais sobre Mudanças Climáticas, que reúne os principais fundos de pensão e gestores de ativos do mundo e controla 40 trilhões de dólares, anunciou que vai restringir o financiamento a negócios poluentes, o mesmo compromisso firmado pelos maiores bancos de Wall Street. A alteração no fluxo de capital já está virando o mercado de ações de ponta-cabeça: a Next Era, empresa de energia renovável pouco conhecida, vale hoje quase tanto quanto a petroleira ExxonMobil, com 110 anos de história.

FROTA RENOVADA - Recarga de carro elétrico: o motor a gasolina na berlinda -
FROTA RENOVADA - Recarga de carro elétrico: o motor a gasolina na berlinda – Jakub Porzycki/NurPhoto/Getty Images

Multinacionais como Microsoft, Amazon, Uber, Apple e Walmart também prometem chegar ao carbono zero em curto prazo. O Google garante que é zero desde 2007 por ter apostado na produção de energia renovável, espalhando campos eólicos e solares (como um impactante conjunto de painéis instalado na Califórnia) para abastecer seus data centers. Pelas suas contas, já compensou todas as emissões desde sua criação, em 1998. Até as companhias aéreas, impermeáveis a grandes mudanças, entraram no jogo: as treze maiores firmaram um pacto para adotar medidas de compensação de emissões de CO2 e buscar combustíveis menos danosos. “No último ano tive mais reuniões sobre investimentos sustentáveis do que em uma década”, comemora Frederic de Mariz, diretor executivo do banco suíço UBS no Brasil. O mundo inteiro, enfim, parece ter acordado para o futuro. No Brasil, ainda temos poucas iniciativas (um dos casos que merecem aplauso é o da JBS, que promete zerar suas emissões até 2040). Fica a torcida para que o país desperte rápido, porque ele, sem dúvida, tem tudo para ser o mais verde do planeta — e lucrar muito com isso.

Publicado em VEJA de 28 de abril de 2021, edição nº 2735

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