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Urbanismo: os minicentros onde se faz tudo a pé

As grandes cidades do mundo estão investindo na criação de minibairros autossuficientes, uma transformação impulsionada pela pandemia

Por Ernesto Neves Atualizado em 1 dez 2020, 10h48 - Publicado em 27 nov 2020, 06h00
ÁREA DE PEDESTRES - Praça reformada em Paris (acima) e área fechada em Melbourne: quinze minutos de caminhada para qualquer lugar -
ÁREA DE PEDESTRES - Praça reformada em Paris (acima) e área fechada em Melbourne: quinze minutos de caminhada para qualquer lugar – Dmitry Kostyukov/AFP/Nico Keenan/.

Ponto de encontro da boemia de Paris, o bairro do Marais é conhecido pelas mansões elegantes, ruas bucólicas e belos jardins. Ainda que pareça charmosamente parado no tempo, esse recanto é o ponto de partida para uma reforma urbana que se espalha por toda a capital francesa e outras grandes cidades do mundo: a “cidade 15 minutos”, minibairros em que o morador tem opções de lazer, trabalho e serviços a poucos passos de casa e pode passar quase todo o tempo ali, sem pegar carro nem transporte público. Uma das bases da transformação parisiense consiste em misturar funções nos espaços — prédios compartilham apartamentos e lojas, escolas viram praças nas horas vagas. O trânsito de veículos é duramente restringido, de forma que as ruas deem lugar a vias de pedestres e ciclovias. Idealizado por Carlos Moreno, urbanista da Universidade Sorbonne, o conceito recebeu da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, verba de 300 milhões de euros para ser implementado.

Um dos cartões postais do projeto é o Minimes, um quartel militar desativado que, revitalizado, abriga setenta apartamentos de aluguel subsidiado e mais um punhado de escritórios, creches, ateliês e clínicas, voltados para um arborizado e bem cuidado pátio interno. Em toda Paris, dez escolas já tiveram seu espaço externo transformado em jardins públicos, chamados de “oásis verdes”, onde os vizinhos circulam continuamente. Fora da capital francesa, Barcelona e Madri, as maiores cidades da Espanha, vêm investindo nas “superquadras”, conjuntos de ruas fechadas a carros. A italiana Milão, duramente afetada na primeira onda da pandemia, espalhou ciclovias de uma ponta a outra para evitar aglomerações no transporte público, uma iniciativa tão bem-sucedida que as “coronapistas” entraram para a grade permanente de vias de trânsito. Até nos Estados Unidos, templo maior do culto aos carros — carrões, de preferência —, mudanças significativas estão em curso. Em Detroit, que já foi a capital mundial do automóvel, uma área de 360 quilômetros quadrados virou um local para fazer tudo a pé. As calçadas alargadas ganharam mesinhas sombreadas enquanto as vias expressas se estreitaram e o comércio recebeu incentivos para se instalar nas áreas reavivadas. A prefeitura injetou 50 milhões de dólares na construção de moradias para a população de baixa renda na região.

Na Austrália, o espaço de tempo para fazer as coisas é um pouco maior, mas não tanto: vinte minutos, que se traduzem em um raio de 800 metros. Melbourne e Sydney ganharam vizinhanças com calçadas largas, ciclovias e praças arborizadas, feitas para bater um papo. Pesquisa da consultoria Brookings Institution, de Washington, mostra que seis entre as maiores cidades americanas executam projetos voltados para diminuir o deslocamento dos moradores. O mais avançado se localiza em Portland, na Costa Oeste, onde a jornada diária entre casa e trabalho não passa de 9 quilômetros, a menor do país. “Os bairros multiúso vão mudar o desenvolvimento das metrópoles, com polos econômicos espalhados por toda a sua área”, diz Moreno, responsável pela “plástica” de Paris.

O conceito teve origem na década de 1960, quando urbanistas começaram a alertar sobre o colapso de cidades de economia excessivamente concentrada e dependentes do automóvel. Além de prover vida melhor a quem mora nas áreas densamente povoadas, os bairros multifunção também têm o intuito de evitar o esvaziamento de regiões e a fuga para os subúrbios — esta, uma tendência que a pandemia acelerou, ao escancarar o tempo perdido em deslocamentos com a prática do home office. Na América Latina, a reforma das capitais, célebres pelo inchaço e pelos engarrafamentos, ainda é incipiente.

Moreno ressalta, nesses casos, a importância das “prefeituras” de bairros. “Órgãos locais são mais precisos em diagnosticar as necessidades de cada região e filtrar as demandas dos moradores”, diz. No Brasil, a cidade de Porto Alegre pratica desde 1989 o chamado orçamento participativo, pelo qual a prefeitura consulta a população sobre quais obras deve priorizar, iniciativa que a ONU coloca como uma das quarenta práticas de gestão pública mais eficazes do planeta. Outra ideia defendida por especialistas é a construção de moradias subsidiadas em bairros centrais e de classe média, com infraestrutura pronta e muitas vezes subaproveitada. As medidas variam, mas a previsão é a mesma: depois que a pandemia passar, as metrópoles não serão mais as mesmas.

Publicado em VEJA de 2 de dezembro de 2020, edição nº 2715

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